Por Beatriz Marques

O tilintar agudo soa quase como uma risada. Mas é certo que ouviremos muitas delas depois do brinde.

“A aparência que o espumante tem na taça dá uma sensação de festa”, diz Lucas Cordeiro, sommelier da Sociedade da Mesa.

O visual ajuda: o perlage formado pela segunda fermentação faz com que as bolhinhas finas emerjam constantemente na flûte (ou na tulipa).

É como olhar para um céu de estrelas ascendentes, e não precisamos esperar a noite chegar para admirá-las.

Essa conexão entre estrelas e espumante é uma velha conhecida – dizem que a descoberta do champanhe veio de dom Pierre Pérignon (1638-1715), monge beneditino francês que, acidentalmente, chegou à fórmula do vinho recheado de dióxido de carbono. Ao prová-lo, descreveu a sensação: “Estou bebendo estrelas!”.

Não tardou para que o champanhe ganhasse importância histórica, como testemunha ocular.

Foi usado para brindar em muitas festas da realeza francesa e da aristocracia, e apreciado depois das vitórias do imperador francês Napoleão Bonaparte, que, ao lado de seu exército, celebrava as conquistas abrindo a garrafa com um sabre – a técnica, nomeada de “sabrage”, até hoje causa alvoroço na plateia, ansiosa para ver a degola do gargalo com a espada afiada e o jorro do líquido espumoso.

Essa forma exaltada de glorificar a vitória foi passada para o ambiente esportivo (mas deixando o sabre de lado, claro).

Não há um pódio na Fórmula 1, por exemplo, sem que o famoso banho de espumante seja dado no vencedor.

E, no tradicional Réveillon, a força das mais de 7 milhões de bolhas presentes na garrafa também é vista com bons olhos, pois é uma forma de desejar um ano-novo próspero: rolhas e mais rolhas são espocadas com vigor à meia-noite, e boa parte da bebida escorre sem piedade – para ter uma ideia, cerca de 360 milhões de taças são consumidas no mundo na hora da virada.

Mas sem deixar de lado a alegria da “explosão”, o melhor do espumante está na qualidade gustativa e, nesse momento de apreciação, a última coisa que queremos é desestabilizá-lo.

“No serviço de vinhos sério, você não quer que o gás carbônico se perca”, avisa Cordeiro. Assim, toda a sua complexidade pode promover casamentos enogastronômicos de sucesso (de ostras, caviar e frutos do mar com os mais secos a sobremesas de frutas com os adocicados, e por aí vai).

Tudo indica que cada vez mais a bebida é valorizada. Segundo relatório da Vinexpo/IWSR, a comercialização de espumantes tem previsão de crescimento médio anual de 2% até 2021.

Já no Brasil, de janeiro a setembro deste ano, houve um aumento de 17% no consumo de espumantes dos métodos tradicional e charmat e de 30% de moscatel, se comparado com o mesmo período de 2018.

“Nossa expectativa é que esse número continue até o fim do ano”, conta Deunir Luiz Argenta, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra).

Ou seja, se antes a apreciação estava concentrada nos festejos de Réveillon, agora está espalhada por todo o ano. “O brasileiro está tomando gosto pelo espumante, aos poucos mudando o hábito de consumo”, completa.

Além de estarem em festas e grandes celebrações, agora as borbulhas estão despretensiosamente na beira da piscina, no café da manhã dos hotéis e harmonizadas nas refeições.

Precisamos de mais motivo para comemorar?