/ Por Suzana Barelli

Branco ou tinto formam uma paleta limitada de cores de vinho. Numa observação atenta de um vinho branco na taça, pode-se questionar se sua tonalidade é mesmo essa ou se é um amarelo disfarçado, em seus vários tons e reflexos.

Mais visíveis são as cores de um estilo particular de branco, batizado de laranja, cuja tonalidade varia de amarelo-claro aos tons mais fortes dessa cor.

Laranja – ou orange, como esses vinhos foram batizados no mercado americano – é a cor oficial dos vinhos brancos que são macerados com suas castas.

Mas seus produtores, com destaque para o italiano Josko Gravner, a maior referência nesse estilo de vinho na região do Friuli, preferem chamá-los de âmbar.

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Ribolla 2019

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Alegam que o laranja não corresponde a sua cor. Além disso, pode até confundir os mais incautos com a fruta cítrica. Na dificuldade de nomear a cor, o melhor é entender seu processo de elaboração.

Desde os primórdios, no Cáucaso, região considerada o berço da viticultura, as uvas eram colocadas inteiras, com engaço, peles e sementes, em ânforas de terracota, onde fermentavam.

Como a cor vem da casca da fruta, esses vinhos “ganhavam” essa tonalidade pelo contato da pele com sua polpa durante a fermentação nas ânforas.

 A polpa, em 99,9% das variedades, é incolor. E os tons de âmbar variavam conforme a cor da casca.

A uva ribolla gialia, a variedade principal dos vinhos de Gravner, por exemplo, tem a tonalidade mais amarela intensa.

Uma sauvignon blanc, apenas para comparar, tem a pele de um amarelo bem mais claro.

Assim, ao ser retirado das ânforas, o vinho tinha a cor mais alaranjada, quando elaborado com as chamadas variedades brancas, ou tons de vermelho, quando eram as uvas tintas.

Em comum, os dois vinhos, âmbar e tintos, tinham mais taninos, já que essa substância vem da casca, da semente e dos engaços da uva.

NOS TEMPOS ATUAIS

A febre dos laranja vem da recuperação desse processo por produtores inconformados com, digamos, a industrialização do processo de elaboração dos brancos e tintos.

E, independentemente do nome de sua cor, elaboram brancos com um tempo mais longo de maceração com suas cascas.

Numa volta ao passado, esses produtores optam por fermentar em ânforas de terracota no lugar dos modernos tanques de inox com controle de temperatura.

Alguns trabalham com ânforas enterradas na terra, num método ancestral para controlar a temperatura durante a fermentação.

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Domenica mattina

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Eles também não têm pressa de separar rapidamente a casca e os engaços do mosto, cientes de que as propriedades da casca vão tornar o vinho mais autêntico, mais complexo.

A intensidade do laranja (ou âmbar) varia conforme o tempo dessa maceração entre o mosto e a casca.

Além do Cáucaso e redondezas, incluídas aqui a Eslovênia e a região do Friuli, no norte da Itália, as ânforas também chamam a atenção de produtores do Alentejo, ao sul de Portugal.

A diferença é que na terrinha elas não são enterradas, seguindo os ensinamentos dos antigos romanos, e são chamadas de talhas. “São vinhos cheios de energia. Dependendo do perfil, podemos ter um caráter mais mineral e fresco ou mais redondo e maduro”, define o produtor português Pedro Ribeiro.

Além de elaborar os próprios vinhos de talha, Ribeiro é o principal organizador do Wine Amphora Day, evento que, em sua segunda edição, em novembro de 2018, reuniu 50 produtores, não apenas portugueses, mas também da França, da Geórgia, da Itália e da Espanha.

Na tradição lusitana, as talhas são abertas no dia de são Martinho (11 de novembro), e o evento comemora essa abertura com a prova dos primeiros vinhos da safra.

HÁ CONTROVÉRSIAS

Se os rótulos laranja conquistaram os produtores e consumidores, há outra cor de vinho que vem chamando atenção, mas dessa vez de forma mais polêmica: o azul.

Com a cor vibrante, ele é uma mistura de vinho branco com pequena porcentagem de tinto (para acrescentar os antocianos azuis, presentes na casca das uvas vermelhas) e de um corante batizado de indigotina.

Pela adição dessa substância, o vinho não pode ser comercializado no Brasil como tal.

Qualquer vinho comercializado no país deve ter apenas uva. “É uma bebida jovem, descomplicada e fácil de beber”, defende Karene Vilela, que promove as festas Got Wine?, na qual o vinho dá o tom do evento.

Quando vai para Portugal, ela diz que se delicia com os vinhos azuis elaborados pelos produtores locais. “Lembra um vinho branco, fresco, com um pouco de açúcar residual”, declara ela.

Do outro lado, há a crítica dos especialistas. “Ainda bem que são proibidos no Brasil”, afirma Arthur Azevedo, diretor da Associação Brasileira de Sommeliers – São Paulo (ABS-SP). E acrescenta: “É uma bebida à base de vinho, masartificial”. E que amplia, em muito,a paleta de cores dos vinhos!

E que amplia, em muito,a paleta de cores dos vinhos!

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