/ Por Mariliz Pereira Jorge

Imagine você num calor de fritar ovos no asfalto, daquele que faz em Madureira, casa da Portela e do Império.

Você, o calor e o Carnaval, mais perto de despido do que de vestido, e para brindar alguém oferece vinho, quando tudo o que você queria era se refrescar com um latão.

Ainda que seja a bebida que parece combinar mais com a folia, em que o rei é Momo e a rainha desfila em frente à bateria, a festa profana que resiste à turbulência política que nos engole de tempos em tempos tinha outra figura a ser reverenciada, a do deus Baco.

Então, muito antes que se bebesse cerveja gelada para refrescar a alma pecadora e o corpo fervido, era o vinho a bebida oficial daquilo que só veio a ser o Carnaval como conhecemos quando o ditador romano Pisístrato autorizou as celebrações e procissões na cidade de Atenas. Não se fazem mais ditadores como antigamente.

doces, rende-se aos sabores das caipirinhas, e os destilados sem pedigree se popularizaram entre os mais jovens. Eu, mesmo sem saber que tudo começou pelo vinho, adoro dar minhas voltinhas nos bacanais contemporâneos com uma tacinha de espumante na mão. Sou do bloco “quanto mais purpurina e borbu- lhas” melhor.
Foto: Divulgação

Pisístrato, segundo alguns historiadores, desistiu de tentar reprimir as festas que aconteciam para louvar Baco, o deus das vinhas e da fertilidade, e oficializou o “liberou geral”.

O festejo era detestado pelas autoridades, pelos sacerdotes e pelos mais ricos, em geral vítimas de sátiras do povo que chafurdava em comida, sexo e vinho, claro.

Vem já dessa época a tradição de se fantasiar. O miserável se vestia de rei, as mulheres levianas posavam de donzelas, o libertino se passava por líder religioso, homens se trajavam como mulheres e vice-versa.

E muita gente terminava sem roupa nenhuma, namorando pelada e to- mando vinho. Você já deve imaginar que o nome disso aí era bacanal. Portanto, quando alguém reclamar que o Carnaval hoje está virando um verdadeiro bacanal, podemos dizer que voltamos às origens.

Porque o vinho deve ser a bebida oficial do Carnaval_Sociedade da Mesa
Foto: Divulgação

De celebração agrária, os bacanais foram abraçados pela Igreja, que lhes deu um significado religioso e os vinculou à Páscoa (terça-feira cai sempre 47 dias antes do domingo pascal). Não se fazem mais igrejas como antigamente.

No período do Carnaval, que vem de carnem levare (tirar a carne, afastar-se da carne), as pessoas estão liberadas para exagerar nos prazeres da comida, da bebida e da carne, para depois mergulhar num período de reflexão e de jejum, a Quaresma.

No calor senegalês que assola o verão brasileiro, o vinho tem pouco espaço e a concorrência é grande. Além da cerveja, o paladar brasileiro, chegado a bebidas mais doces, rende-se aos sabores das caipirinhas, e os destilados sem pedigree se popularizaram entre os mais jovens.

Eu, mesmo sem saber que tudo começou pelo vinho, adoro dar minhas voltinhas nos bacanais contemporâneos com uma tacinha de espumante na mão. Sou do bloco “quanto mais purpurina e borbulhas” melhor.