ENTREVISTA
Texto: Blanca Rodrigues
Fotos: Helena Quintana e Alexandre Kroner

Os desafios urbanos da cidade sempre chamaram a atenção do arquiteto e professor Ruy Eduardo Debs Franco. Mas foi na cidade de Santos, em São Paulo, onde ele nasceu e se formou, que os seus estudos sobre a arquitetura brasileira se direcionaram para a trajetória do empresário João Artacho Jurado, o que lhe rendeu um livro, intitulado “Artacho Jurado – Arquitetura Proibida”.

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A cidade de Santos vem mostrando, há alguns anos, uma preocupação com a preservação de sua arquitetura. O que você acredita que seja primordial na preservação desta arquitetura? Qual a sua importância? 

Toda preservação é importante, mas deve ser cuidada, isto é, tem coisas que são tombadas que não têm tanta importância e outras mais importantes que simplesmente desapareceram do mapa. Em Santos temos dois tristes exemplos. Um foi o magnífico Parque Balneário Hotel que veio abaixo no final dos anos 1970. E o outro, pior ainda, na minha opinião, foi o Asilo dos Inválidos, obra do Victor Dubugras, destruído numa fatídica madrugada em fins dos anos 1990, a mando do então proprietário, ninguém menos que uma universidade, que teve o desplante de construir ali um prediozinho de esmerado mau gosto arquitetônico. 

De fato, Santos hoje, depois dessas perdas, entre outras, está mais atenta e busca de todas as formas preservar sua arquitetura, o que, de alguma maneira, pode haver exageros, a meu ver. Lá existe um órgão municipal, o CONDEPASA. Eles são bem atuantes e trabalham em cima de critérios técnicos, sim, mas há alguma subjetividade, que pode acabar resultando em transtornos para alguns proprietários que dependem de seus imóveis para viver. E às vezes, o rigor do critério pode acarretar problemas para eles.
A importância desses tombados é a preservação da história. Você anda por qualquer cidade de qualquer país, e quem vai te contar a história daquele lugar? A arquitetura dele, indubitavelmente!

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Edifício Saint Honoré.

E na cidade de São Paulo? Você vê esta preocupação com a preservação do patrimônio?

Em São Paulo é o CONPRESP que tem essa atribuição. Trata-se de um órgão ligado à PMSP, que é bem atuante. Ainda por cima têm sede lá o CONDEPHAT e o IPHAN, com atribuições estaduais e nacionais, respectivamente, o que dá um peso bem maior aos tombamentos. Muito embora sejam órgãos públicos, cercados de enormes sistemas burocráticos. Todavia, recentemente, um imóvel tombado em 1982 – um sítio bandeirista que é uma preciosidade arquitetônica erguida no século XVIII com a maioria das paredes de taipa pela metade (ver o link) :
http://www.defender.org.br/sob-predio-moderno-casa-doseculo-18-e-restaurada-em-sp/, onde a construtora ergueu o seu empreendimento preservando o tal sítio sob ele. Em Santos, acredito que teremos um exemplo semelhante ali na rua Piauí com Euclides da Cunha. Vamos aguardar para ver.

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Edifício Bretagne.

É evidente nas grandes cidades brasileiras a busca pela “arquitetura comercial”, que pode até mesmo encarar um retorno ao estilo neoclássico (em pleno século XXI). Isso é apenas uma moda do mundo imobiliário?

Lá quando o modernismo apareceu (o termo é aplicado ao movimento moderno, daí ser errado dizer que “este carro é moderno”, mas o termo foi emprestado e se aplica a várias situações), as pessoas entraram na onda, mas poucos chegaram a surfá-la, isto é, entender do que se tratava.
Encomendaram casas no estilo e, algum tempo depois, sacaram que estavam na praia errada.
Teve um crítico americano, de nome Charles Jencks, que em 1972, deve ter lembrado o Lennon e disse: “the dream is over”… E achou que poria um fim no modernismo dentro da arquitetura mundial. Aqui no Brasil, ninguém lhe deu ouvidos e o moderno seguiu respirando por aparelhos durante algumas décadas. 

E com isto, ainda, produziu-se muitos exemplares, alguns muito bons, outros nem tanto. Pegando daí, muita gente seguiu em ponto morto, e alguns profissionais, não sabendo qual seria o próximo “ismo” saíram copiando estilos enterrados e esquecidos e cujo conhecimento no assunto era nenhum, pois não tiveram formação para tal. Com isto, uma lacuna começou a se formar e dar espaço para a produção de “outras” arquiteturas, não tão alinhadas com os ideogramas do movimento moderno. Se é uma moda, deveria passar, mas devido ao baixíssimo grau de cultura reinante, a grande tendência é a de perpetuação desse estilo, o qual eu costumo chamar de neo-existe. Tem arquitetura contemporânea honesta? A resposta é sim, felizmente!

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Edifício Bretagne.

Se podemos dizer que são tendências, qual você acha que será a próxima?
Uma vez o Ruy Ohtake falou do surgimento de uma “arquitetura supermoderna”.
Eu não acredito que seja isso. Acredito que, com a tendência cada vez maior de um projetual de fora para dentro, com o abandono da planta como geratriz, muito por conta das ditas maquetes eletrônicas, prototipagens etc., os arquitetos vão lançar mão cada vez mais da escultura, da forma em si. Vejam a Zaha Hadid, Frank O’ Ghary e o próprio Ohtake, que mesmo mantendo a planta, manda ver nas formas e é cada vez mais escultural. Dentre tantos arquitetos brasileiros, você escolheu o empresário João Artacho Jurado como objeto de seu estudo, falando sobre sua trajetória e sua produção com suas “inovações, ousadias e controvérsias estéticas”. O que te chamou a atenção para tal escolha? Se começar a escrever a respeito, sairá outro livro.

Quero deixar claro que ele não era arquiteto e sim um prático, mas sem qualquer demérito. O que mais me chamou a atenção é que ele não dava a mínima para o que falavam dele… E continuam falando, visitando.
Há muitos anos, eu fiz aula de canto ao lado de gente que nem campainha conseguia tocar. Perguntei ao meu maestro e ele me disse que cada um tem um canto. Hoje eu costumo
dizer para mim mesmo que o mais difícil, ou seja, o maior desafio de um professor, que é o meu caso, é o de despertar a arquitetura que há em cada um, ou seja, qual o desenho que você tem? De fato, ele fez o que tinha que ser feito, a sua arquitetura. Isto é autêntico. É difícil ensinar arte, viu?

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Edifício Parque das Hortências.

Este estudo sobre Artacho Jurado virou livro e também rendeu passeios guiados por suas obras. Como é o interesse das pessoas por este assunto? Quem procura participar destes encontros?

O interesse é incrível. De físicos nucleares a estudantes de arquitetura (sem desconsiderações) todos se interessam pela obra dele… É curioso. Quando me perguntam qual o tema do meu livro, eu cito vagamente algum prédio dele e as pessoas logo dizem: “ah, sei! Aquele todo colorido ali na praia”. Pronto!
Qual prédio de algum arquiteto as pessoas se lembram, se este não tiver alguma bossa? Você pergunta para alguém qual a lembrança que tem de algum prédio? Se ele não for colorido, com formas distintas, as pessoas não relacionam… É demais! Li uma matéria na Folha a respeito do
Jurado, pouco depois do lançamento do meu livro, onde uma professora, acho, dizia que “os prédios do Jurado dançam na paisagem enquanto os outros estão parados”. Fiquei feliz de ler isto, pois esta é a maneira como eu os vejo, mas não sabia dizer!

Artacho Jurado não era arquiteto. Uma pergunta inevitável: como um professor universitário vê este sucesso e ascensão de um empresário no mundo da arquitetura, sem ter formação?

Simples. Se você entende a importância da autodidaxia na vida do homem, fica fácil se despir
de conceitos. Se você elege um presidente que foi metalúrgico oriundo de uma região pobre,
que fala errado, mas que é a língua do povo, é porque a nossa sociedade neste aspecto está evoluída. Então neste gradiente e chegando hoje, para você aceitar um autodidata, filho de imigrantes, semialfabetizado, é normal. Desde os anos 1990, começaram a observar a produção dele, quem foi, o que fez…várias perguntas… Eu mesmo embarquei, e tem sido muito divertido, pois continuo aprendendo.

Este trabalho foi para a 11ª Mostra Internacional de Arquitetura de Veneza. Como a arquitetura brasileira é vista nestes encontros internacionais?
Bem, em setembro de 2008, teve um pavilhão brasileiro na “Out There: Architecture Beyond Building” (lá fora: arquitetura além da construção). O tema do pavilhão brasileiro, sob a curadoria do amigo Roberto Loeb, era “não-arquitetos” que, segundo o curador, “a mostra no pavilhão brasileiro irá contar com depoimentos de cerca de cem pessoas, todos não-arquitetos, personalidades e anônimos, artistas, médicos, psicanalistas, designers, filósofos, diplomatas, editores, políticos, professores, cantores, escritores, fotógrafos, empresários, donas de casa, taxistas, padeiros, pedreiros, músicos, cozinheiros e outros”.

Eu li a respeito e liguei para ele, que já conhecia o meu livro e ficou muito entusiasmado em incluir o Jurado na mostra. E assim foi. A arquitetura brasileira, aonde vai, impressiona pela beleza plástica e ousadia. Devemos isto aos nossos arquitetos e, sobretudo a Oscar Niemeyer, que completou 104 anos de vida no dia
15 de dezembro. Eu penso que o sucesso da mostra e do pavilhão e do tema brasileiros tenha sido muito bom, posto que até roubaram um dos livros que o Loeb mandou imprimir.

Que material não pode faltar em um projeto? E que ingrediente não pode faltar na cozinha?
Essa pergunta é legal. Acho que desenho é fundamental, bem como na cozinha não pode faltar um bom vinho à mesa. Vivendo numa cidade praiana como Santos, pode dividir conosco alguma receita especial para encarar este verão que vem chegando? Protetor solar 60 e chapéu! É a dica da minha dermatologista.

Sem poder deixar de falar de vinhos, que história tem para nos contar que terminou com um belo brinde?
Pergunta indiscreta a sua. Mas vamos lá! Perambulando pelo interior da França, entrei numa cave e comprei seis garrafas de vinho do Rhône. Cultivado nas vinhas da várzea do rio. Quando fui embarcar de volta, a comissária de terra da Air France me disse que eu estava com excesso de bagagem, ao que eu respondi que era vinho da terra dela. Bem, ela sorriu e me deixou passar com a carga extra.
Cheguei com todas elas sãs e salvas, doei algumas para os amigos e guardei uma para
uma ocasião especial. Uma faxineira alcoólatra que eu tive, tomou a garrafa no gargalo. Não foi um belo brinde, mas me deixou assaz irritado!

Ping-Pong

Exemplo de preservação arquitetônica
Teatro Municipal de São Paulo, do Ramos de Azevedo
Ícone da arquitetura brasileira
Casa Canoas do Oscar Niemeyer, no Rio de Janeiro, que finalmente conheci em outubro.
Novo projeto a caminho 
Mais dois livros sobre arquitetos desconhecidos e viajar de Harley Davidson pelos Estados Unidos.
Educação universitária no Brasil
Vai mal, obrigado.
Se não fosse arquiteto…
Seria velejador.
Um brinde ao

Time do Santos Futebol Clube.