Nascido em Itapeva, interior de São Paulo.99 Ganhador do Prêmio de Melhor Música para Dança no “Certámen de Coreografía, Danza
Española y Flamenco”, em Madri. Um brasileiro, com muita bossa, invade o berço da cultura flamenca.

Seu primeiro trabalho profissional foi como técnico em mineração no Tocantins. Como foi essa época? Foi uma época importante em minha vida, pois vinha de uma fase de estudante recém-formado e estava ávido por vivenciar experiências profissionais em Geologia (apesar de ser técnico). Nessa época, eu tinha curiosidade e interesse em trabalhar no ramo da Geologia de Campo, pois essa área é uma parte  da carreira que eu tinha estudado em Itapeva (SP). Essa fase durou aproximadamente 1 ano, entre o Triângulo Mineiro e Tocantins. O curioso é que, meses antes, fiz uma prova pra entrar na Escola Municipal de Música em São Paulo e meu nome não saiu na lista de aprovados (apesar de ter sido aprovado). Foi então que decidi viajar pelo Brasil.

De técnico em mineração formado a compositor e guitarrista convidado pelos principais nomes do flamenco atual na Espanha. É uma história e tanto, não? A música sempre esteve presente em minha vida desde criança… Só não pensava que poderia ser um profissional e viver do trabalho que desenvolvi com meu violão. Em minha adolescência, estava muito envolvido com meu trabalho de mineração e tinha planos de, no futuro, estudar Geologia a fundo mesmo. Mas a vida tem dessas coisas, não é mesmo?

Acabei por escolher a música como minha profissão e, mais do que isso, minha realização pessoal. Fernando de la Rua. Um nome cheio de bossa. Pode nos contar como foi “batizado” assim? Esse é meu nome mesmo. Vem da influência espanhola que tenho através de Meu Pai Isidro de La Rua Bajo, que chegou no Brasil em 1960 com toda a família, vindo de Madri. Minha mãe é brasileira de Itapeva, cidade onde nasci.
Então, quando já era profissional de música, resolvi adotar esse nome, pois soa diferente e é fácil de memorizar (risos). Além de ser verdadeiro.

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Foto: Lisi Sfair
 

Por que se intitula “Geração Carmen”?
Porque eu começei a estudar flamenco na mesma época em que Carlos Saura lançou o Filme  “Carmen”, obra que me fascinou pela forma em que se coloca a linguagem flamenca com a dança e a música, e foi a primeira vez que vi tocando o maior “mestre flamenco” de todos os tempos: Paco de Lucia.

Isso me chamou muito a atenção, principalmente uma cena onde estão todos em “Fiesta” numa roda musical, como uma espécie de “Jam Flamenca” com guitarristas, “cantaores”, bailarinos e “bailaores”. Técnico em mineração brasileiro fazendo música, como foi de início recebido pela cultura gitana e tradições flamencas na Espanha? Muitas pedras no seu caminho? Eu passei por obstáculos que penso que são comuns a todos os músicos estrangeiros (nao espanhóis, no caso), ou seja, sempre com uma “banca examinadora” ao teu redor, analisando o porquê de você optar por tocar flamenco vindo de uma cultura tão diferente da espanhola (risos).

Isso e muito normal, devido ao flamenco ser uma cultura muito específica, de uma região com identidade muito própria e orgulhosa de ser como é: Andalucia. De certa forma, essa situação me ajudou a conseguir espaço e um “lugar ao sol” nesse país, junto com profissionais bem conceituados na história do flamenco, pois a cada “aprovaçao” que eu tinha, me dava mais segurança de estar fazendo de forma natural e honesta, sem buscar imitações, e transformando códigos de linguagem flamenca através da minha forma de tocar violão. Isso sim, sempre respeitando a linguagem básica dos três elementos fundamentais no flamenco: a guitarra, o Cante e o Baile.

Técnico em mineração brasileiro fazendo música, como foi de início recebido pela cultura gitana e tradições flamencas na Espanha? Muitas pedras no seu caminho?
Eu passei por obstáculos que penso que são comuns a todos os músicos estrangeiros
(nao espanhóis, no caso), ou seja, sempre com uma “banca examinadora” ao teu redor, analisando o porquê de você optar por tocar flamenco vindo de uma cultura tão diferente da espanhola (risos). Isso e muito normal, devido ao flamenco ser uma cultura muito específica, de uma região com  identidade muito própria e orgulhosa de ser como é: Andalucia.

De certa forma, essa situação me ajudou a conseguir espaço e um “lugar ao sol” nesse país, junto com profissionais bem conceituados na história do flamenco, pois a cada “aprovaçao” que eu tinha, me dava mais segurança de estar fazendo de forma natural e honesta, sem buscar imitações, e transformando códigos de linguagem flamenca através da minha forma de tocar violão. Isso sim, sempre respeitando a linguagem básica dos três elementos fundamentais no flamenco: a guitarra, o Cante e o Baile.

Pode contar-nos alguma passagem em que você teve a certeza que estava no caminho certo?
Quando conheci Yara Castro, minha esposa e companheira, pois tínhamos a mesma forma de
pensar e praticamente começamos e caminhamos juntos no flamenco, desde 1988 até os dias de hoje. Foi muito importante o apoio que tive por parte dela no começo de minha carreira.

Como é seu processo de criação?
Bom, é um pouco complicado descrever o processo de compor música, pois a maioria das melodias e dos temas que surgem, vêm da minha parte mais profunda mesmo…
Sou muito honesto e verdadeiro quando quero traduzir minhas “inquietudes” no violão, e deixo que a música não se limite a dogmas baseados em estilos ou linguagens específicas.

Apesar de meu toque violonístico ser considerado flamenco, sempre deixo que meu coração tenha a palavra final (risos). Ou seja, se tenho vontade de compor algo como um sambabulerías ou um bolero-bossa, por exemplo, eu levo até o final. E se o resultado é coerente e “soa bem”, me dou por satisfeito e começo outra etapa, mas sempre da forma mais natural e espontânea possível. Basicamente, procuro criar sempre relacionando a vivências que tive, quer sejam pessoais ou profissionais mesmo.

Manuel Reyes, Rafaela Carrasco, Domingo Ortega, Inma Ortega, Manuel Liñán, Marco Flores, La Truco, Montsé Cortes, Juañárez, Rafael Jimenez ‘El Falo’, Pedro Sanz, Jose Luis Montón, grupos dos tablados Las Carboneras, Casa Patas e Las Tablas… Estes são alguns dos nomes e lugares em que tocou na Espanha, além de ganhador do Prêmio de Melhor Música para Dança no “Certámen de Coreografía, Danza Española y Flamenco”, em 2004, no Teatro Albéniz, em Madri. Um brasileiro com este currículo no berço da cultura flamenca… Qual dica você pode dar a outros profissionais que gostariam de ser bem recebidos em uma cultura diferente da sua, onde o preconceito pelo estrangeiro é tão forte?

Penso que sao três palavras importantes que temos que levar em nossas vidas, em qualquer situação: Humildade, Prudência e Paciência. Humildade, porque por mais que você seja um “virtuoso” no que faz, sempre existirá alguém no mundo, que vai compartilhar algo que você jamais imaginou que pudesse ocorrer (em termos musicais, no caso). E isso pode ser de muita utilidade para seu trabalho e mesmo para sua vida. Prudência, porque se você está num ambiente onde ninguém te conhece, nunca pense que vai ser bem recebido tentando mostrar tudo o que você sabe, por mais perfeito que seja. Paciência, porque as vitórias (mesmo as pequenas) demoram para aparecer e aparecem, se você faz um trabalho honesto e com muita consciência.

Você já foi nomeado em outras entrevistas como um músico único pela forma de compor. A que você atribui essa nomeação?
Principalmente à minha origem hispano-brasileira. Minha música resulta sempre numa sonoridade híbrida, ou seja, com caráter flamenco e matiz brasileiro, e viceversa. Mas o importante é que eu não “forço” pra ter esse som… Ele surge de forma bem livre, sempre que estou empenhado em compor algo novo.

Em 2011, você lançou seu primeiro cd gravado entre Madrid e São Paulo, com composições próprias Nuances. Como foi realizar este projeto? 
Foi uma superexperiência para minha vida, pois acabei assumindo todo o projeto sozinho, no que diz respeito à criação musical, produção e fabricação.
Muito importante foi o apoio que tive de meus amigos músicos na participação das gravações.

Também tive uma grande colaboração de um exímio designer gráfico que mora na Espanha, mas é chileno e viveu no Brasil muitos anos, o Alejandro Rosas, que confeccionou a capa e o encarte do cd. Tive um apoio logístico na fabricação, através do Marcelo Freitas, e também a participação do grande bailaor e coreógrafo espanhol Domingo Ortega. Quando terminei o cd, não acreditava, pois foi um processo que durou 4 longos anos. Começou a nascer em Itapeva – São Paulo (minha cidade natal), onde fiz a pré-produção e passou por vários estúdios de São Paulo e Madrid. Foi mixado e masterizado em Barcelona. O bom desse trabalho, é que as pessoas que participaram (todas, sem exceção), são amigas e curtem meu trabalho musical… Isso, para mim, é fundamental.

A influência da música brasileira está viva em muitos compositores estrangeiros pelo mundo afora. Ouvindo o seu cd, a cultura musical brasileira está em cada acorde e frase. Vivendo há tanto tempo dedicado a entender, conhecer e desenvolver a música flamenca, você nunca deixou de ser brasileiro na essência. Que fusão é essa?

É resultado de minha vivência pessoal. Desde que nasci, aprendi a gostar desses dois mundos:
Brasil e Espanha, e de uma forma muito completa, e para mim, sempre foi importante a influência espanhola de meu pai… Ele foi o primeiro que me falou sobre flamenco, então eu sempre busquei esse lado da identidade ibérica, principalmente na minha música, mas nunca esquecendo de minha origem brasileira, pois o violão brasileiro tem sua linguagem, com uma característica muito marcante na construção harmônica e rítmica. Essa fusão é marcada pela “pegada” flamenca, com a harmonia brasileira.

Sobre música brasileira, quem nomeia o grande inspirador de teu trabalho?
Raphael Rabello. Voltando atrás, o que faria diferente do que fez até aqui? Estudaria mais violão e procuraria valorizar mais os compositores pouco conhecidos. No mais, não mudaria quase nada… Ah, e viajaria mais, ao mesmo tempo em que aprenderia apreciar um bom vinho (risos)
Vivendo em Madri e viajando o mundo acompanhando grandes companhias e bailarinos, como
costuma brindar os grandes sucessos de sua carreira? Eu não bebo nada com álcool, então diria que não vale brindar com refrigerante (risos). Tento pensar que estou brindando com um bom vinho tinto espanhol, com Denominação de Origem.

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Foto: Sarah Holmgren

Qual o próximo projeto de Fernando de La Rua?
Meu próximo cd, que está começando a ser germinado. Adorei a experiência com meu 1º cd.
Quero seguir fazendo música de forma natural e sempre procurando “plasmar” meus mais sinceros e verdadeiros sentimentos sobre todas as experiências que vivi e ainda vou vivenciar. Se hoje não fosse músico, o que seria? Não me diga geólogo! (risos) Não sei, é difícil me ver em outra profissão… Realmente… Fico te devendo essa (risos).

Ping-Pong
Um compositor:

Aquele que faz música com o coração… Posso citar um grande: Guinga.
Um estilo:
A Música pela música, sem rótulos.
Uma pedra:
Quartzo Hialino.
Um brinde:
“Salud y Libertad!”

Texto: Blanca Rodrigues