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Marcos Eguren.
ESCOLHIDOS PARA A GLÓRIA

Ninguém como eles conhece o sabor do sucesso.
Marcos Eguren, Daphne Glorian, Juan Carlos López de Lacalle e Peter Sisseck, com Remírez de Ganuza e Benjamín Romeo. Obtiveram os cobiçados 100 pontos de Robert Parker. O crítico de vinhos mais influente da história.

Em janeiro de 1996, a revista Sobremesa publicou uma entrevista com o crítico de vinhos americano Robert Parker. Além de sair de algumas das polêmicas que cercam o dono da The Wine Advocate. Astuciosamente escarnecido pelo entrevistador Víctor Rodríguez. Parker escrevia uma espécie de carta de amor aos vinhos espanhóis.
Falava sobre marcas que havia provado há pouco e gostado. (Borsao, Sierra Cantabria). Exaltava os clássicos “riojanos” como um valor fora da tirania das modas. (Murrieta, La Rioja Alta). Avisava do potencial das variedades autóctones, em especial da garnacha. Cujos vinhos assegurava adquirir para consumo próprio.

Onze anos se passaram para que o idílio comemorasse seu casamento em grande estilo. Em 2007, Robert Parker tocava os vinhos espanhóis com sua influente varinha mágica. Outorgando a pontuação máxima, o 100 redondo de todos os sonhos, a cinco marcas catapultadas à glória da mídia internacional. Dois Riojas (Viña El Pisón e Contador – este último quase um desconhecido dos consumidores espanhóis). Um ribera (o tinto Pingus, de Peter Sisseck). Um priorato (Clos Erasmus, de Daphne Glorian) e um toro (Termanthia, ainda propriedade da família Eguren). Subiam ao pódio da excelência. Todos saíram da vindima 2004, a mesma da mais recente e último 100 até a data. O Gran Reserva de Remírez de Ganuza. Dois dos pioneiros, Erasmus e Contador, repetiram a nota com a vindima 2005.

A partir de então, ninguém esperaria as pontuações de The Wine Advocate. Uma simples lista que se parece bastante às dos resultados dos exames da universidade. Com a ilusão de uma nota alta ou um excelente.  O noventa e algo, mesmo 99, nunca suficiente, gera um fervor de curta duração. Toda vez que Parker e sua equipe de colaboradores têm de provar os vinhos da Espanha, as turbinas da mídia. (O crítico americano tem a capacidade de tirar o vinho de sua reserva especializada.) Estão preparadas para responder em seus titulares a uma pergunta: tem ou não Marcos Eguren tem 100? O resto é literatura.

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Juan Carlos López de Lacalle e Peter Sisseck
A Síndrome Parker
Como uma elevada expressão de vitória. A Fórmula 100 pontos Parker materializa-se em resultados comerciais evidentes. A bodega que tem a sorte – e a recompensa ao trabalho contínuo e bem feito. De conseguir o prêmio, pode dar-se ao luxo de confraternizar com os melhores vinhos do planeta. É claro, a multiplicação das vendas nos Estados Unidos está garantida e quase pode-se ter certeza que, da marca em questão, não haverá uma garrafa sequer nas vitrines.

O efeito Parker sacode os mercados. Provocando ondas de pedidos e gerando um interesse frenético entre seus seguidores em escala mundial. Sem intenção, pois o crítico americano ganhou a faixa de intocável em assuntos de ética profissional. E nem sequer admite publicidade em seu boletim informativo. também abre uma porta à especulação, à fraude e à execução dos negócios obscuros. No caso da Espanha, os 100 têm alguma radiografia computadorizada na qual Parker – que, ressalte-se, degusta à etiqueta descoberta, dá razão a si mesmo na sua percepção de nossa realidade vitivinícola.

O 100 do tinto de Toro, por exemplo, revela o grau de autoridade da mídia que Parker é capaz de impor. Especialmente sobre aquelas regiões que tem querência, como a o Duero. Marcos Eguren está certo quando destaca que o prêmio à Termanthia. Vendida anos depois ao grupo Louis Vuitton- Möet Hennessy, em uma operação rentável para a família Eguren. Não era somente um reconhecimento a uma marca e a uma bodega. Senão à terra onde era produzido. “Colocou o Toro no mapa” – explica Marcos – “porque muita gente quis saber de onde era esse vinho, com que variedade foi feito e a que obedecia sua qualidade”.
O 100 afirmou a região como uma alternativa de nível alto confirmada logo pela chegada de investimentos que revitalizaram a zona, lançando ao mercado tintos muito ao gosto de Parker, se é que pode-se falar sobre um determinado e tipificado gosto de Parker.

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Claramente, resulta em constatar que, frequentemente, o poder do crítico americano escapa ao seu controle. Benjamín Romeo, que foi convidado pelo próprio Parker a degustar com ele, através do importador Jorge Ordóñez, e não foi a Washington porque naquela semana tinha que sulfatar (portanto Parker o qualificou como um “valente” e parece que o elogio era sincero), nos fala sobre os preços em espiral que foram submetidos às centenas.

Romeo, sinceramente irritado, conta que, em um restaurante de Nova Iorque, deparou-se com a surpresa de que seu Contador, que custa uns 150 dólares, era oferecido a U$ 950 em um transparente exercício de multiplicação.
Fruto de umas condições vitícolas muito especiais vinhedos entre oitenta e cem anos, solos pobres, diferentes exposições e altitudes que se deve saber combinar e de um rigor enológico escrupuloso, que resulta em uma força vanguardista de olhar para o passado e de investir com generosidade  barris a 1.300 euros a unidade, rolhas a 2 euros, garrafa a 1,80, Contador e o resto da família Romeo não se livraram dos perigos que ameaçavam as grandes marcas santificadas por Parker, incluindo práticas cruéis de falsificação que levaram o enólogo riojano a extremar ainda mais a singularidade de suas garrafas.

O último a chegar ao pequeno e exclusivo clube dos 100 Parker espanhóis, Fernando Remírez de
Ganuza, vive hoje a sorte de guardar seu Gran Reserva 2004 na bodega de Samaniego. Nem todos tiveram essa posição de privilégio que abre múltiplas possibilidades de uso. Romeo, por exemplo, teve o vinho vendido quando obteve os cem pontos. Para Remírez, chovem hoje ofertas agressivas. 200 euros por cada garrafa do total da produção não estão nada mal. Mas Fernando é muito esperto e leva muito tempo investindo na sua bodega, para ceder a tentações que, a longo prazo, podem ser pedras contra seu próprio telhado, pois, como já foi dito, a mão da especulação é comprida. O de menos é ganhar dinheiro do que se vê, se sente e acaba sujando os bolsos do mundo.
Cabem formas mais inteligentes de gerenciar determinados objetos de desejo.

As 3.100 garrafas de Remírez de Ganuza Gran Reserva 2004, como explica Miguel Gavito, do departamento comercial, e nos confirmou o próprio Fernando Remírez, não são vistas como um ativo econômico, mas sim, comercial.
Trata-se de lucrar o valor icônico de um 100 Parker. É claro, a marca dobrará seu preço. “Em condições normais”- explica Fernando – “teria saído a 40 ou 50 euros. O prêmio vai subí-lo a 100, como uma espécie de reconhecimento à bodega, ao projeto, às dúzias de milhares de litros de vinhos que gastamos em testes e ensaios”.
Estará no mercado em março e talvez alguns magnum entrem no circuito dos leilões para fazer barulho. Trata-se de que o Gran Reserva chegue aos  distribuidores e aos clientes que confiaram na empresa, pela sua ordem, pela sua vez e pelos canais legítimos. E de ficar mal com o menor número de gente possível.

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A contradição é uma arte
Entre os muitos motivos pelos quais cabe admirar o cidadão Robert Parker, é preciso destacar com urgência o enredo de contradições, controvérsias, emaranhados e mal-entendidos que acrescenta à sua genial carreira profissional. O mesmo crítico queixou-se mais de uma vez de que suas opiniões são campo de torcidas interpretações tiradas de contexto, por gente que não tem, assim podemos dizer, um imenso carinho.

Neste momento do filme, a verdade é que já não se sabe muito bem o que pensar. Ou Parker explica-se como mortal e se dedica a negar na prática de suas pontuações o que defende na teoria, ou os antiparkerianos estão pedindo que os tranquem em um hospício, se possível com dispensadores de borgonhas e riojas daqueles de antes de Parker chegar. Grosso modo, o crítico americano diz-se defensor dos vinhos acessíveis, mas suas pontuações altas caem em marcas geralmente proibidas.

Vez por outra declara (o fez na referida entrevista para Sobremesa e repetiu na que assinou Victor de la Serna para o portal de consulta vinícola do jornal El Mundo em novembro do ano 2000) que não é nada adepto do excesso de barril quando é justamente isto, excedente de carvalho novo, o que se aprecia em muitos vinhos para manter a qualidade. É acusado de globalizar e homogeneizar o gosto quase ao mesmo tempo em que se defende como campeão da diversidade de vinhos do mundo, onde tantos se parecem uns aos outros.

777 Sem ânimo de banalizar, o que  sucede é que dá no mesmo. No final das contas, a importância de Parker e sua capacidade vigorosa de  gerar dinheiro, passam pela simples compreensão de um número. Aqueles que jogam os dardos em sua imagem, responsabilizando-o por algo como ter pulverizado a tradição, previnem que, entre sua já extensa lista de 100, não faltam os grandes burdeos, os borgonhas, os hermitages.

Como Parker duvidaria da suprema excelência da Romanée-Conti ou dos brancos de Chapoutier Ernitage? Por acaso alguém acredita que Parker é tolo? Se alguma coisa mudou, e é justo dizer que sim, tem sido a maneira de mostrar o vinho e de aproximálo dos consumidores. Já não faz falta ser um mestre na Romanée- Conti para compreender o que significa este pico da vinicultura de todos os tempos, nem continuar o árduo processo de elaboração que leva um tinto como Pingus, ou a especificidade de solo e idade das vinhas que iluminam El Pisón.

Basta apenas saber contar até 100. A legião de seguidores de Parker paga com a sua fidelidade ao crítico que concedeu a graça de poder desfrutar do vinho sem complexos nem pedantismos, sem prévios obstáculos. Neste processo de democratização, mensurável sobretudo nos Estados Unidos – um país onde muitos acreditam que Baco é uma forma de nomear Parker na Europa. Mas também em muitos mercados asiáticos, o vinho ganhou adeptos e perdeu cultura. Tornou-se popular na época que rompeu os vínculos que o convertiam em uma bebida diferente, tocada de um mistério cujo conhecimento preciso garantia uma maior dose de prazer ao consumí-la.

Eram outros tempos. Atualmente, o crítico mais influente da história costuma degustar acompanhado pelos importadores das marcas que examina. São eles – e aproveitamos para destacar o inestimável trabalho dos Fran Kysela, Ordóñez ou Eric Salomon, entre outros benfeitores dos vinhos espanhóis nos Estados Unidos que, a pedido de Parker, referem alguns dos aspectos cruciais que explicam por que o conteúdo de cada taça varia. Estas razões, que conforme supomos, terão muito o que dizer no momento em que se optar por avaliar com um 96 ou um 97. São pequenas diferenças que podem significar muitos milhares de dólares.

Peter Sisseckpingus.
001 Mas, existiu alguma vez o estilo Parker?

Como já foi apontado, a pessoa e a obra de Robert Parker associam-se à suposta implantação de um estilo de vinhos. De um gosto que contaminou todos os territórios vitícolas do mundo. Assim o classifica a furiosa antiparkeriana Alice Feiring, colunista da revista Time e colaboradora do The New York Times. Entre outras publicações de prestígio.

Além dos excessos que, inequivocamente, dirige contra Parker em seu livro “A batalha pelo vinho e pelo amor”, que leva o bombástico e ridículo subtítulo de “Como salvei o mundo da Parkerização”, Feiring leva o mérito de colocar em debate um assunto que preocupa mais de um enólogo, e sobre o qual não resulta fácil chegar a um acordo: existe um estilo de vinhos Parker? Juan Carlos López de Lacalle, de Artadi, acredita que não: “Parker é um homem com um conhecimento muito amplo do mundo do vinho e é capaz de interpretar os vinhos respeitando a personalidade própria dos mesmos”.

Mas se entramos em casos específicos, por exemplo na tão buscada e realizada oposição de Burdeos e Borgonha, Benjamín Romeo tem claro que o crítico decisivo prefere abertamente os primeiros (“os tintos bordeleses sempre são pontuados melhor, porque têm mais potencial”, qualifica o enólogo, enquanto declara que, neste particular, o seu gosto e o do americano coincidem).

No que diz respeito ao cenário dos vinhos espanhóis. Durante um tempo, aqui funcionou o tópico recorrente de que Parker gostava dos vinhos concentrados e poderosos. Profundos e forrados de músculo. Atributos que, de alguma forma, são identificados com certa ideia da modernidade vinícola, diante de estilos mais desligados e quentes que se relacionavam com o passado. Estes últimos resultavam menos evidentes e avassaladores. E neles a liderança da acidez era maior. Resistiam em obedecer ao estilo da “bomba frutada e pegajosa, dominada pela baunilha”, que bane a raivosa Feiring em sua particular diatribe contra Parker. No entanto, a recente consagração do tinto de Remírez de Ganuza, nada mais e nada menos que etiquetado como Gran Reserva, deu outra volta no parafuso da mídia.

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Quando era suposto que as categorias riojanas (crianza, reserva e gran reserva, de maneira especial esta última) eram coisa do outro mundo, algo assim como um tesouro arqueológico, e que tinha que seguir apostando por estratégias comerciais mais ágeis e despojadas de informação desnecessária, ocorreu à fabrica Parker a feliz ideia de dar 100 pontos a um Gran Reserva.

Alguns críticos não duvidaram em vincular esta espécie de inversão, confirmada pelas altas pontuações obtidas por Vega Sicília na ultima lista de The Wine Advocate, com a circunstância de que agora seja Jay Miller, homem de confiança de Parker, o encarrregado de degustar os vinhos da Espanha. Bem quando já suspeitávamos do que Parker gostava, temos que aprender a reconhecer as preferências de Miller.
Quem sabe o próximo 100, o qual, esperemos, não irá demorar, ajudenos a compreender melhor para que lado irá o vento.

Sobremesa é a revista de vinhos e gastronomia de Vinoselección.

Texto: Juan Manuel Ruiz Casado
Fotos: Álvaro Fernandez Prieto e arquivo

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