Texto: Blanca RodriguesPaulo Von Poser por Victor Tronconi.
Três décadas de exposições do artista Paulo Von Poser, conhecido como o “Artista das rosas”,
foram relembradas na exposição “Trajetória”, realizada em janeiro deste ano, no MUBE, em São
Paulo. Arquiteto por formação e artista plástico por vocação, Paulo nasceu em São Paulo, cidade
que lhe inspira e fascina.

Exposição “Trajetória”, MUBE – SP, janeiro de 2012.                    Painel de 77 azulejos com medida de 140cmx220cm
Você se formou em arquitetura e se dedicou nestes 30 anos às artes plásticas. A arquitetura influencia na criação de seus projetos de artes plásticas? Como foi este caminho?
Foi um caminho natural e superdinâmico, uma busca entre a arte e a arquitetura que se
influenciam mutuamente cada vez mais, não só no meu trabalho, mas na cidade e na cultura
contemporânea, cada vez mais integradas e sempre ligadas nas aulas que dou como professor
de desenho e minha prática experimental de pesquisa e arte .

Uma pergunta inevitável, já que Paulo Von Poser ficou conhecido como “o Artista das rosas”… Qual o significado da rosa para você?
A rosa significa a possibilidade de transformação e regeneração da arte em minha vida e trabalho. Pintura em cerâmica, grafite, lápis de cor e até mesmo esculturas são algumas das técnicas que você usa. Você poderia falar um pouco sobre as obras que mais te marcaram e que têm um significado especial, além de qual a técnica usada? Gosto de experimentar, do risco, do desvio, do erro, e o desenho é perfeito para estes variados suportes e técnicas, pois é uma linguagem aberta, fluida, que se adapta bem em várias escalas e aplicações.

Em São Paulo, nas bancas de flores da Avenida Dr. Arnaldo, você participou da reforma das calçadas, criando painéis de azulejos em áreas com bancos. Como foi trabalhar em uma obra pública? E a conservação da obra?
Tenho feito um esforço enorme em recuperar o Painel de Azulejos tradicional, que faz parte da nossa herança portuguesa, da nossa história e arquitetura, mas que foi esquecido pelos
arquitetos contemporâneos. Propor projetos ao ar livre com azulejos é uma alegria, e colocar a arte na rua para todos é um sonho para qualquer artista.

Estudo do painel para teto da Platéia do Teatro Guarany. Medida de 300cmx200cm.
 Outra obra importante foi a sua participação na restauração do Teatro Guarany, em Santos, realizando a pintura do teto do teatro e o foyer. Para a pintura do teto, você se inspirou no romance “O Guarany”, de José de Alencar. Conte um pouco sobre este projeto.

O Teatro Guarany foi um marco em minha trajetória, meu trabalho mais audacioso e minha maior realização (225 metros quadrados desenhados a mão). Fui convidado pelos arquitetos Gino e Ney Caldatto, meus colegas professores na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UNISANTOS,que me propuseram estas duas homenagens. No teto do foyer, projetei uma releitura de uma tela do Benedito Calixto (que pintou partes do teatro na primeira inauguração, em 1882) e na plateia uma alegoria com cenas do romance “O Guarany”, que incluiu também diversas referências da ópera de Carlos Gomes.

Detalhes das gravuras de série inédita e ainda em finalização sobre o vinho.

Como você vê o mercado da arte? E qual a importância do mundo da arte para o brasileiro?
Estamos num momento de muita efervescência e entusiasmo, o mercado brasileiro amadurece
rapidamente. A feira de arte SPARTE é um marco neste processo e o número de interessados e
colecionadores tem crescido demais. Mas ainda faltam verbas em museus, para ampliação de acervos públicos e projetos de exposições e arte pública. Mesmo assim, a vida cultural e o número de novas galerias e museus é impressionante. E os movimentos de arte jovem, urbana, tecnológica e de vanguarda me estimulam demais. Arte hoje é fundamental para nossa cultura e os valores da arte brasileira no mundo ainda vão surpreender.

E quanto à educação no Brasil em relação à arte? Você, como professor universitário de desenho e plástica em cursos de arquitetura, procura trabalhar com diferentes técnicas e sensações, visita lugares diferentes fora das faculdades. Como tem sido o retorno por parte dos alunos, já que o computador invadiu a prancheta de arquitetura e o desenho gráfico?
O que sinto como professor é uma necessidade em encaminhar e motivar a ação e a prática direta na relação com a descoberta da cidade e da arte.
Muitas vezes, sinto nos jovens uma falsa ilusão de que tudo já foi visto e feito, e meu papel então é de reconectar e fomentar este processo criativo  autêntico e original em cada aluno. O computador  é uma ferramenta e, no caso da arquitetura, é fundamental, mas o desenho a mão livre é corporal e ajuda muito no projetar.

Grande parte das suas obras retrata a cidade de São Paulo. O que mais te chama a atenção na megalópole? O que faz você parar e observar?
O seu caráter camaleônico, mutante e híbrido, esta potência cosmopolita de transformação e a mistura das pessoas. O melhor de São Paulo são os afetos e os encontros. Para sobreviver aqui, é mais importante e vital seus amigos que sua família .

Exposição “Trajetória”, MUBE – SP, janeiro de 2012.
Seu livro “A cidade e a rosa” marcou os seus 25 anos de carreira, reunindo suas principais obras. A exposição “Trajetória” trouxe uma retrospectiva dos 30 anos de Paulo Von Poser, sempre retratando cidades e as inspiradoras rosas. Algum novo projeto em andamento?
Tenho sempre 3 ou 4 projetos em andamento, vontades e sonhos, mas no momento estou
me dedicando a uma pesquisa sobre os rios e ruas da cidade, para uma instalação durante uma
corrida urbana Corpore, que ligará arte, esporte, cidadania e sustentabilidade. Espero também
que minha exposição Trajetória possa viajar para algumas capitais, a partir de 2013. Além disso, tenho uma série de gravuras sobre o vinho, que serão editadas pelo Atelier Claudio Vasques, com um texto original do escritor Flávio Viegas Amoreira .

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 Painel de azulejo.

A cidade de São Paulo proporciona um leque de alternativas em qualquer campo. Como não podia ficar de fora, a gastronomia é bem diversificada.   Que comida você acha que combina com São Paulo?
A comida de rua é a cara da cidade apressada, o pastel de feira tem até concurso… Mas aprecio muito e sei que as comidas típicas e sofisticadas dos imigrantes, como a italiana, árabe e japonesa são bem paulistanas também. Mas se for falar de todas as culturas e imigrações que formaram esta cidade… Uau! Que delícia! Só mesmo uma pizza no domingão para acabar…
São Paulo é uma cidade super saborosa! O artista plástico Paulo Von Poser também cria na cozinha? Minha família é gaúcha e minha mãe cozinhava superbem, mas agora meus pais vêm almoçar todo dia em casa, no meu atelier. E tenho uma cozinheira,a Regina Rosa, para criar e ajudar no dia a dia… Adoro fazer os menus e as compras das frutas e peixes também… Adoro comida caseira e saudável!

O que melhor acompanha um bom jantar?
Uma boa conversa e um vinho tinto.

Ping-Pong

Uma rosa para…
Todos os ciclistas que enfrentam nosso trânsito maluco e sabem que a vida melhora muito com
menos carros por aí…
Um símbolo da cidade de SP…
O Copan, a Sala São Paulo…
Vinho tinto combina com…
Tudo, especialmente namorar devagarinho e degustando.
Vinho branco combina com…
Um terraço num jardim e revistas gostosas ou um bom livro…

Um brinde…

De saúde aos nossos rios esquecidos, escondidos e abandonados, e a todos que preservam e lutam pela sua recuperação e limpeza total.