101OS JOVENS MADUROS
No muito instrutivo e recente “Tudo o que se deve saber sobre o vinho” (Editora Aguiar); Mauricio Wiesenthal e Francesc Navarro lembram que o método de maceração carbônica identifica-se historicamente com uma região francesa, a de Beaujolais, ao norte de Lyon. Cujo nome coincide com um tipo de vinho muito específico, “que chega antes do Natal”.

O Beaujolais Nouveau é esse vinho jovem e refrescante. Que marca o final da colheita e o começo dos processos de elaboração. É o primeiro vinho que é feito nas bodegas. O primeiro ensaio a partir do qual calibra-se o nível de avanço qualitativo da colheita. E como os mercados vão receber a nova aquisição. Na semântica do vinho, Beaujolais funciona também como um sinônimo de festa. Com este vinho de caráter espumante e pleno de frutas, é celebrado tradicionalmente o término da colheita.

Mesmo que não o digam Wiesenthal e Navarro, o processo de maceração carbônica, que basicamente consiste em uma vinificação das uvas inteiras na presença do gás carbônico e ausência do oxigênio, ocupa um longo capítulo, felizmente ainda inacabado, na história dos vinhos espanhóis e, mais concretamente, na dos riojas. É possível que até fins do século XIX, quando os franceses chegaram à Rioja em busca de uvas que não tinham, por causa da filoxera, a maneira mais comum de fazer vinhos consistia na maceração carbônica, isto é, com cachos inteiros sem partir.

As máquinas com as quais se tiram os talos, e que hoje são tão comuns e indispensáveis em todas as bodegas, demoraram a conquistar a terra de Berceo. Sobretudo nos âmbitos domésticos, nos quais o vinho era em parte um passatempo e em parte um negócio, seguiram fazendo vinhos jovens para consumir durante o ano. Tintos que respondiam ao querido e familiar nome de vinhos de colheitadeira e cuja evolução acabaria sendo e hoje é  uma prova insuperável dos progressos obtidos pela modernidade vitivinícola hispânica.

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Da colheitadeira à modernidade 
O produtor de vinho, com o peso do ritual antropológico que carrega, e com sua bagagem cultural, não faria La Rioja famosa.
A fama dos riojanos acabou devendose a tintos submetidos às leis da crianza e à participação do barril. Esses reservas e grandes reservas que, durante décadas, impuseram uma espécie de modelo de comportamento infinitamente imitado. O potencial de melhoria ao longo do tempo, devido ao período em barril, tinha pouco a ver com os vinhos jovens de maceração carbônica que deveriam ser consumidos logo (sempre antes de um ano) e que não buscavam complexidade, mas sim toque frutado, caráter intenso e aromas primários. A ditadura das crianzas longas e o manuseio dos barris não impediram, no entanto, que os das colheitadeiras continuassem ocupando e preocupando os viticultores e os enólogos.

É claro, estes vinhos beneficiaram-se dos impulsos da indústria, da amplitude das redes de distribuição e da feliz adaptação de modernos sistemas técnicos, que foram incorporandose ao longo do século XX e que, nas últimas décadas, chegaram a um nível alto de competência. Nada a ver com vinhos que eram fruto da tradição e suas circunstâncias, razão pela qual utilizavam uma porcentagem de uva branca (viura, malvasía) que em geral não obedecia a nenhuma exigência técnica, senão que simplesmente estava misturada nos vinhedos com uvas tintas. Esta presença de uvas brancas, mesmo que mínima, acabava fornecendo tons aromáticos e condimentados aos tempranillos jovens.

Tanto é assim que, hoje em dia, quando a separação e classificação de uvas forma parte do ABC da modernidade. Muitos processadores continuam guardando uma parte de brancas (em torno de 5 ou 10%) para fazer as macerações carbônicas do momento. É uma maneira um tanto nostálgica de reconhecer o bom trabalho de toda a vida dos viticultores, assim como uma forma de dialogar com o passado, que serve para sublinhar o que os tempos modernos devem ao duro esforço de ontem.

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Uma vitrine completa
Ligados, mas não de uma maneira exclusiva, à La Rioja e, mais precisamente, à La Rioja Alavesa,
os vinhos atuais de produtor, esses que levam escrito no rótulo que foram elaborados pelo “sistema de maceração carbônica”, são tintos feitos com uma precisão e um rigor admiráveis. O carinho e até mesmo a devoção que os viticultores da mídia sentem por eles (os Remírez de Ganuza, López de Lacalle ou Benjamín Romeo) é traduzido em tintos de uma qualidade geralmente alta, ainda que, como é lógico, muito dependente da colheita em questão.

Como já foi dito, poucos vinhos são tão honestos na hora de revelarmos as características de cada colheita nova. São tintos diretos, francos e de linha clara. Sem pretensões, laboriosidade e o trabalho minucioso que se desenvolve da porta para dentro das bodegas. Deve-se insistir nos fortes vínculos que unem os idealizadores dos riojas modernos com um passado de colheitadeira.

A família Cañas, por exemplo, da Bodegas Luis Cañas (Rioja Alavesa). É um bom exemplo do incrível salto que deram muitas casas produtoras. Partindo da produção de tintos típicos de “viticultor”, que elaboravam a uva de vinhedos próprios para o consumo doméstico e para a venda. Hoje, Luis Cañas é uma empresa de prestígio, que cobre todos os segmentos de preço e de qualidade. Conta com vinhos de culto (Hiro 3 Racimos) e não deixou de contribuir com a sua parte no que poderíamos chamar de “nova vida dos tintos de produtores”. As macerações carbônicas do século XXI perderam a ferocidade e são cada vez mais delicadas. Sem que isto signifique que tenha diminuído a sua expressividade e poder de frutas. Sem dúvida, estão melhor preparados justamente porque quase nada é deixado ao acaso.

O controle da técnica tirouos deste espaço da necessidade, na qual as velhas macerações viveram durante muito tempo. Fernando Remírez de Ganuza tem culpa das doses de delicadeza que foram sendo acrescentadas à definição moderna destes tintos tradicionais. Há anos seu R., cujo processo de preparo é cuidado ao extremo, tem um posto seguro no pódio dos melhores tintos jovens.

No caso desta bodega, o tinto de maceração carbônica já não é algo para ser testemunho da fidelidade à tradição e para pegar as uvas de menor valor, mas um tinto perfeitamente definido e ambicioso, que é feito com pontas de cacho e que recebe um tratamento similar ao utilizado para produzir os grandes rótulos da casa.
Esta abordagem deu espaço para que R. chegasse inclusive a questionar a pouca duração dos tintos de maceração carbônica. É, digamos assim, um tinto jovem que se atreve a viver mais, além do ano de existência.

Aos rótulos riojanos hoje fundamentais no panorama dos jovens. E entre os quais brilham Muñarrate (Bodegas e Viñedos Solabal). Murmuron (Sierra Cantabria). Albiker (Bodegas Luis Alegre) ou Baigorri (Bodegas Baigorri), deve-se somar referências de outras denominações que não faltam nos bares de vinhos por taças. Habitat natural destes frutos da juventude.
Em Bierzo, a variedade mencia tem demonstrado ser uma perfeita aliada para os tintos jovens. E na D.O. Toro, Farina continua guardando parte da qualidade das uvas com as quais trabalha para seu vinho Primero. Um belo trabalho de viticultura e enologia que, durante anos, foi dotado de uma apresentação própria, pictórica, distinta e distinguível.

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O nascimento de marcas como Isola de MontReaga. Na estrutura dos Vinos de la Tierra de Castilla. É uma demonstração mais do que aceitável da qualidade que podem alcançar os primeiros tintos quando tratados como se deve. Menção à parte devemos aos jovens que são produzidos nos territórios insulares. E que escreveram um dos capítulos mais sugestivos da história enológica dos últimos anos. A particularidade de variedades como a listan negro. Em contextos edafológicos e climáticos tão especiais como os das ilhas. Desponta em tintos de porte frutado, como Viña Norte. (Bodegas Insulares Tenerife) e Hollera Monje. (Monje). Nos quais não faltam curiosos aromas de temperos e terroir capazes de se colocar à altura dos vinhos da mais suposta complexidade.

Texto: Juan Manuel Ruiz Casado
Fotos: Carlos Tarancón

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