Texto: Blanca Rodrigues

marcelo Nascido em São Paulo, este jornalista formado pela ECA USP
(Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo)
fundou a Editora Panda Books, e atualmente apresenta o
programa ‘Loucos por Futebol’ na ESPN Brasil e tem dois
programas na rádio Bandeirantes (São Paulo). Seu mais novo
trabalho trata-se de um presente para os 458 anos da cidade de
São Paulo, o livro “Os Endereços Curiosos de São Paulo”.
 

Você sempre quis ser jornalista? E por quê?
Não, no começo eu queria ser piloto de avião, porque eu tinha vontade de viajar, conhecer o mundo. Eu tinha esse sonho de conhecer o mundo e eu achava que a profissão para conhecer o mundo era ser piloto de avião.
Depois, com o tempo, comecei a perceber que uma prima do meu pai, que era jornalista, vivia viajando o mundo. Meu pai coleciona cartões postais e, a todo lugar que ela ia a trabalho, mandava cartão para ele.

Chegava cartão do Nepal, da Tailândia, dos Estados Unidos, da Espanha, da Itália… Aí, então, eu percebi que jornalista também viaja o mundo inteiro e pensei: “o piloto de avião pode ficar sempre na mesma rota e o jornalista pode conhecer mais o mundo do que um piloto de avião.” Graças a essa prima do meu pai, eu acabei virando jornalista da edição da revista Vejinha à fundação de uma editora própria.

conte um pouco deste trajeto.
Na verdade, eu, como quase todo jornalista, tinha um sonho de escrever um livro, mesmo não sabendo direito que livro iria ser. Na época da Vejinha, eu já tinha sete anos de carreira (comecei no jornalismo em 84 e fui para a Vejinha em 91) e nessa época, eu comecei a criar o meu arquivo pessoal de fatos curiosos. Eu guardava, numa pasta, recortes de jornais e revistas com informações que eu usava nas minhas reportagens. Estamos falando de uma era antes da internet, então, para não ficar procurando o tempo todo umas informações curiosas, eu ficava guardando tudo que eu via. Tinha um acervo relativamente bom, até que os outros jornalistas ficaram sabendo que eu tinha isso guardado. E às vezes, no fechamento, eles me pediam: “Marcelo, você tem aí algo que diga quantas calorias tem um bolo de chocolate?” E nos meus recortes eu tinha…

Nessa época, eu fui para o interior, ao casamento de um primo, e na casa dos pais dele, onde eu estava hospedado, tinha uma daquelas coleções de almanaques antigos,que era a Enciclopédia Curiosa dos anos 60. E eu passei a tarde, enquanto esperava pelo casamento, lendo aquilo e fiquei fascinado. Pedi emprestado para os meus tios os nove volumes de capa dura e hoje, inclusive, eu tenho a coleção completa, que comprei em um sebo.

Fiquei tão fascinado com estes almanaques antigos, que pensei em escrever um desses também, já que eu coleciono informações curiosas. Apresentei para a Cia das Letras o projeto em uma folha de papel, tipo uma carta de intenções do que eu gostaria de fazer. E eles responderam dizendo que, se eu fizesse, eles topariam publicar.

A partir daí, foi um ano de pesquisa, para achar o tom que eu queria fazer.
Queria um almanaque mais moderno e eles acabaram encontrando uma pessoa ótima para criar o projeto visual do livro. O nome foi criado pelo Luiz Schwarcz. Foi um conjunto de coisas  que  funcionaram superbem. Quando o livro foi publicado, eu acho que as pessoas estavam com saudades dos almanaques que estavam há tanto tempo sem ser publicados, e elas adoraram. Ficou 44 semanas na lista dos mais vendidos, 16 semanas em primeiro lugar.

Foi um dos 10 livros mais vendidos em 1995. E abriu oportunidade para que depois eu investisse nos livros.
Até que chegou um determinado momento na minha carreira de jornalista, em que eu tive que fazer uma escolha…
Resolvi então abrir meu negócio para fazer revistas customizadas e livros. Depois de um ano, percebi que o que me dava mais prazer era livro, e então desisti de revistas. Assim nasceu a editora.

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Agora você está lançando um Guia dos Curiosos Edição Especial. O que ele tem de especial?
Antes de abrir a minha editora, depois que eu saí da Editora Abril, eu fiz o Guia dos Curiosos Brasil.
Eu queria muito fazer um livro sobre uma reportagem que eu fiz para a Veja São Paulo em 1992. Logo quando eu cheguei à revista, fiz uma edição especial chamada “Onde encontrar o que é difícil em São Paulo”. Era um guia de endereços curiosos e serviços inusitados na cidade, e eu achava que aquilo daria um livro. Depois de entregar o Guia dos Curiosos Brasil na Cia das Letras, eu falei que o próximo seria o Guia dos Curiosos São Paulo.

Em seguida, recebi um bilhete dizendo que este tipo de livro não era a cara da editora, que eles não faziam este tipo de guia, e que eu deveria procurar outra editora para lançar o livro. Eu procurei outras editoras, mas elas queriam que eu saísse da Cia das Letras e levasse tudo para lá. Isso me criou um problema. Então falei: “vou me lançar”. Comecei a pesquisar no mercado como eu poderia lançar aquele livro, mas de forma independente, sem a editora. E descobri que eu não conseguiria fazer sem uma editora. Tinha que ter um projeto editorial para convencer os livreiros a comprar o meu livro. Então usei três ideias de livros que tinha na cabeça e pedi outras ideias para amigos jornalistas.

Consegui formar um projeto de seis livros, que foi muito bem recebido nas livrarias, pelo fato de já me conhecerem por causa do Guia dos Curiosos. Lancei o Guia dos Curiosos em 1999 e foi excelente, vendeu muito. Foi um cartão de visita para a editora e ao mesmo tempo virou o xodó para a editora. Os endereços curiosos de São Paulo têm toda a dinâmica da cidade, e se desatualizam muito depressa. Eu sempre pego um período de alguns anos e vou atualizando. Primeiro lancei em 1999, depois lancei outro em 2003, depois em 2006… E eu não paro de procurar endereços.

Quando chegamos em 2012, tinha passado um intervalo muito grande e era um livro que precisava ser atualizado, tirar os endereços que já haviam fechado e colocar novos endereços que tinha pesquisado. E, ao contrário dos anos anteriores, onde eu quis fazer um livro com este ar de um guia mais informal, para você manusear, eu achei que este livro tem uma importância muito grande para São Paulo. Achei que ele merecia algo diferente e adotamos um livro de capa dura, o nome em prata,  não tem texto nenhum na quarta capa… Para pessoas que sabem do que se trata. Foi uma vontade minha de festejar a quarta edição.

Como você busca estas informações para os seus livros? Existe algum planejamento?
Para o Guia dos Curiosos, quando eu decido o tema, começo a pensar nos capítulos e faço uma espécie de pauta para mim mesmo, para ver o que entra. E aí, ao começar a pesquisa, eu vejo que existem coisas que não são tão relevantes, outras que eu não tinha pensado. Então eu começo a perguntar para as pessoas daquele tema, o que elas gostariam de saber.

Eu crio uma espécie de esqueleto do livro, mas às vezes muda: tiro um capítulo, amplio outros… Sou um pouco anárquico na hora da pesquisa, que acho que é a graça do livro. No caso do Endereços Curiosos de São Paulo, eu tenho a obrigação de andar muito pela cidade, de procurar muitos endereços e de estar muito atento. Tem muita gente que está atenta também. Criou-se uma rede de pessoas que, quando percebem algo de diferente, me avisam.

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E por que este presente para a cidade de São Paulo? Ela é especial para você? Por quê?
A gente fez, ao longo dos 12 anos da editora, 13 outros guias de cidades, como Rio de janeiro,
Porto Alegre, Barcelona, São Francisco… Mas nenhuma outra cidade ocupou tanto esta ideia quanto São Paulo. É incrível, é uma coisa do paulistano… De querer coisas especiais e saber onde encontrar essas coisas diferentes. Por exemplo, algo para uma festa, coisas de criatividade. Por isso, o de São Paulo sempre foi especial.

Você costuma dizer que o seu público é jovem. O seu primeiro livro foi publicado há treze anos. O público não envelheceu com você? 
É muito maluco. O conceito de um almanaque, como é o Guia dos Curiosos, sempre foi um livro familiar, que você pega o pai e os filhos, de diferentes idades. E o bacana do Guia dos Curiosos é que todos os dias tem crianças fazendo nove ou dez anos, então todo dia tem leitores novos.

E muita gente, por ter começado a ler o Guia, depois torna-se fã de outras coisas que eu faço. Hoje, tem um público muito legal, na rádio comentam que acompanham meu trabalho desde pequeno. Muitas vezes, em noites de autógrafos, de repente aparece um cara de 20, 25 anos, falando que começou lendo o meu livro.

Você pode contar uma curiosidade, de todas as que você já contou até hoje, que foi surpresa para você?
A mais absurda foi quando eu estava pesquisando para o primeiro livro. Em 1994, a gente não tinha ainda esta cultura da internet, onde tudo está fácil. Comecei a fazer a minha biblioteca de livros curiosos que me servissem de apoio, e comprei um livro, Curiosidade do Mundo Disney, porque eu gostava e pensava em fazer um capítulo de quadrinhos. Tinha lá uma informação que era uma conta de quantas pintas pretas os artistas do Estúdio Disney tinham pintado no filme 101 Dálmatas.

E era isso que eu queria para o meu livro, ter informações como essas, que as pessoas iriam pensar: “como alguém pensou nisso?”. E, a partir daí, isso começou a me nortear. Tentar buscar essas coisas meio inusitadas e misturar com outras coisas que poderiam trazer informação e um pouco de cultura. A ideia é você trazer uma coisa divertida, para que o leitor se interesse pelo tema e vá ler coisas mais sérias, e se aprofundar na leitura.

Dizem que a curiosidade mata…E aí?
Eu estou vivo ainda (risos). Eu acho que a xeretice às vezes pode matar, mas na verdade eu já escrevi que é a mola que impulsiona a humanidade. Os grandes inventores criaram coisas porque eram curiosos, eles queriam saber como ir além daquela história. Então, muitas das invenções que temos hoje só foram possíveis porque você tinha um curioso por trás.

Talvez o xereta, aquele cara bisbilhoteiro, fofoqueiro… Que eu separo como outro ramo, porque tem gente que coloca o curioso como o cara que para na marginal para ver um acidente de carro… E não é assim. Curioso é o cara que tem sede de conhecimento, que quer aprender, saber coisas novas… E ele, com certeza, não morre tão cedo. Eu até brinco que a curiosidade matou o gato… Mas o gato tem sete vidas, então dura bastante.

Você apresenta programas no rádio e TV sobre futebol. Por que futebol? É uma paixão?
Futebol é uma paixão de menino. Eu comecei a aprender a ler com a revista Placar. Comprava a revista com sete, oito anos, toda semana, e destrinchava aquilo. Comecei a fazer o jornalzinho da escola baseado na revista Placar. Sempre tive um interesse muito grande por futebol e fui diretor de redação da revista Placar.

Metade da minha carreira jornalística na Editora Abril foi dentro da revista Placar. Fiquei catorze anos lá e oito só na revista Placar. Eu tinha uma carreira muito ligada a futebol, e quando a ESPN precisou de uma pessoa para compor um elenco, eu vinha de um conhecimento muito grande em futebol, por causa da minha experiência na Placar. Além disso, naquele momento eu estava como o rei das curiosidades. Então eu casei as duas coisas para fazer o programa de TV, onde alguém trazia quadros de curiosidade ligada a futebol. E deu certo.

11 Se não fosse jornalista e escritor, você poderia dizer que seria jogador de futebol? (Risos)
Não, eu seria uma pessoa muito triste, um jogador péssimo. Sempre fui o último a ser escolhido, sabia das minhas limitações. Até, por uma época, formei no bairro que eu morava, Pinheiros, um time de futebol, o Teodoro Sampaio Esporte Clube. Soube outro dia, por uma pessoa que guardou o caderno de anotações, que eu era o artilheiro do time.

É a prova de que o time era muito ruim. Mas nunca tive um condicionamento físico, habilidade…
Gosto de futebol como observador e ainda mais pelas histórias de vida dos jogadores. Sempre gostei de fazer perfil de jogador, era o que mais me entusiasmava. Aqui na editora temos muitos livros de futebol e somos indicados como uma editora que faz muitos livros de futebol.

Qual o próximo projeto de Marcelo Duarte?
Estou escrevendo um sobre vídeogames. Ainda não sei direito se é um Guia dos Curiosos ou um Almanaque dos vídeogames. Tenho dois livros que estão quase prontos, um sobre vilões e outro sobre dinheiro. Tenho vários projetos engatilhados, mas às vezes falta um pouco de tempo para terminar. Mas na verdade, uma coisa que está me fascinando agora – e estou gastando bastante energia com isso – são os aplicativos, livros em formato de aplicativos para iPhone. Eu lancei em papel um livro chamado Enciclopédia dos Craques, que são fichas de 1.600 jogadores de futebol.

E aí eu comecei a pensar que, às vezes, você pode estar em um bar e começa aquela discussão de que o fulano foi campeão, jogou, fez gol…. E de observar isso, de conversa de amigo em bar onde futebol é um dos temas preferidos, peguei todo esse conteúdo da Enciclopédia dos Craques e lançamos um aplicativo. Foi o primeiro livro em formato de aplicativo. Gostei tanto do resultado que permite atualizações rápidas… É um banco de dados maravilhoso, que criei para mim mesmo, o Panda  Digital.

E você na cozinha? Pode dividir alguma receita conosco ou você na cozinha é algo curioso?
Diria que sou algo, nem curioso, mas inexpressivo. Eu sei fazer fritura, que é esquentar o óleo e jogar as coisas já prontas. Sei fazer omelete e só. Adoro comer, é um dos meus maiores prazeres, mas eu não tenho esta paciência toda. Minha mulher é daquelas que, se deixar, faz bolo todo dia, testa receita.
Agora, aqui para nós, conte uma curiosidade sobre Marcelo Duarte.
Sou tímido.

Ping-Pong12
Futebol é:
um vício
Um livro:
O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino
Uma pessoa curiosa:
o criador de saci que entrevistei no meu primeiro programa de rádio
Um brinde a:

curiosidade