Texto: Blanca Rodrigues

Ex-professor de Química e Biologia, este publicitário fundou em 1995 uma das agências mais
respeitadas no mercado, a Loducca. Também é sócio da Casa do Saber, um espaço destinado à discussão de ideias e ao ministério de cursos e palestras por profissionais das áreas de artes
plásticas, filosofia, música, …

Você não escolheu a carreira de publicidade de início.  Você queria ser arqueólogo, é isso mesmo? De onde veio esta ideia?
Não era uma ideia, mas um desejo de conhecimento. De onde viemos?
Para onde vamos? Quem somos? E a arqueologia me parecia uma boa
maneira de começar essa busca, já que ajudava a explicar o passado,
além de, no meu imaginário, ser uma profissão cheia de descobertas, ao
ar livre.

E de arqueólogo para publicitário?
Conte um pouco desta trajetória. Arqueologia era algo muito exótico
no contexto do Brasil daquele tempo (60/70). Depois me interessei por
medicina com um olhar caridoso, de ajudar as pessoas, salvar vidas. Mas a prática médica é bastante diferente disso. O mesmo para psicologia, que me interessei muito, cursei, mas, como todas as outras faculdades – física, química, biologia, engenharia e comunicações, não terminei. Minha busca era a universidade como fonte de conhecimento, menos como profissão e fonte de recursos. Já a publicidade foi exclusivamente como profissão, uma visão bastante racional sobre aliar um bom salário com o que parecia ser um talento nato (escrever) já que eu ganhava
quase todos os concursos de redação desde o primário (atual ensino fundamental). Logo que
comecei, vi que era um ambiente que me estimulava intelectualmente e emocionalmente. E remunerava adequadamente o talento, o que me parecia um tipo de justiça. Fiquei e me apaixonei completamente.

Publicidade: 99% de transpiração e 1% de inspiração… É isso mesmo?
É 99% de transpiração dedicada a colocar de pé os 1% de inspiração.

De onde vem tanta inspiração para tua história ilustrada por grandes conceitos e campanhas premiadas internacionalmente?
Não sei. Mas me interesso genuinamente pela vida, pelas pessoas, e tento compreender e aprender com a vida, com os livros, com as pessoas e com os fatos.
Talvez este esforço pessoal, mais a experiência aliada à técnica, abram espaço para imaginar soluções para as questões dos nossos clientes.

Vender algo que você não acredita… Como funciona a criação neste caso?
Se for algo que cause mal, seja enganoso e tenha problemas éticos, nunca fiz nem farei.
Fora isso, acho um direito legítimo de todos expressarem e venderem seus produtos, mesmo que seja com uma visão de mundo diferente da minha (que não acredito ser a única e verdadeira, mas apenas a que escolhi, entre várias).

Como você vê hoje a propaganda no Brasil comparada ao resto do mundo?
Há uns bons 30 anos a propaganda brasileira é respeitada internacionalmente e se mantém entre as melhores, mais eficientes e mais criativas do mundo. É uma parte importante da economia do Brasil, que projeta nosso país positivamente há décadas.

Na publicidade, o que ainda sente falta realizar ou conquistar?
Em uma visão macro, ajudar o país a se internacionalizar e fortalecer mais através de
suas empresas de todos os setores. No dia a dia, continuo a ter um prazer enorme em ajudar nossos clientes a solucionar suas questões e atingir suas metas, através do encantamento que uma boa campanha consegue criar.

Qual é o seu maior prazer em fazer publicidade?
Primeiro, aprender sobre as pessoas, suas motivações, suas necessidades emocionais, seus
impulsos. E depois,é uma sensação deliciosa quando a gente descobre um caminho e transforma a vida das empresas que confiam no talento das pessoas que trabalham na agência.

Se não fosse publicitário… Não nos diga que seria arqueólogo!? (Risos)
Se tivesse talento e competência, filósofo, ensaísta e escritor.

Como surgiu o projeto da Casa do Saber?
Um grupo de amigos, já reconhecidos na vida profissional, sentiu necessidade de voltar a aprender. Nós passamos a contratar professores de filosofia, história, artes ou
qualquer assunto que nos interessava e nos reuníamos na casa de um de nós (com direito a vinho, queijos etc.) para ouvirmos e discutirmos os assuntos. Com o tempo, percebemos que já eram 30, 40 pessoas toda vez. Fizemos uma pesquisa de mercado formal e a sensação de que nossa necessidade pessoal de conhecimento era compartilhada por muito mais gente foi confirmada. Resolvemos formalizar a Casa e abrir para São Paulo inteira. E depois, Rio de Janeiro, mantendo o mesmo clima de rigor no assunto estudado e descontração e simplicidade na forma. Saber com prazer.

Como é a idealização dos programas que lá ocorrem?
O diretor geral, Mario Vitor Santos, a equipe de monitores da Casa, os sócios e os professores, todos, montamos a cada semestre, a programação do próximo semestre.

 De todas as participações na Casa do Saber até hoje, qual a
inesquecível pra você?
A semana de inauguração, há 7 anos, com Ferreira Gullar, Nelson
Motta e mais um monte de gente bacana e inteligente dando aula
naquele lugar que nós oferecemos às pessoas.

Celso Loducca na cozinha é um grande publicitário também?
Sou um cozinheiro de um prato só: um penne que aprendi com minha avó e que é, modéstia a parte, muito bom (por causa dela, claro!). No resto quebro um galho e não passo fome.

Em um jantar, a propaganda é a alma do negócio?
Ingrediente, carinho e técnica costumam ser melhores que propaganda, neste caso. Pode dividir conosco algum segredo culinário digno de prêmio criativo? Não tenho competência para isso.
Sou só um curioso.

Qual o próximo passo de Celso Loducca?
Tentar ser um Celso melhor.

Ping-Pong
Um projeto:
me permitir mais momentos meus.
Uma pessoa inteligente:
aquela em que a vaidade é menor do que a inteligência.
Propaganda é:
sempre eficiente, mesmo quando ruim.
E absurdamente eficaz, quando bem feita.

Um brinde: à sabedoria.