DRINKS
REVISTA SOBREMESA
Texto: Raquel Pardo
Fotos: Álvaro Fernández de Prieto e arquivo

MOJITO

Qual é o autêntico? O mojito continua sendo único e preparado como todo mundo gosta. Só não se esqueça que se trata de um dos reis do coquetel, com uma história que mistura, possivelmente, verdade e lenda.
Para falar de mojito, temos que ir a dois momentos da história e convocar uma espécie de “proto-mojitos”: o “Draquecito” e a canchánchara, duas preparações para uso medicinal (boa desculpa para quem tenta jogar para dentro alguns tragos de álcool temperados com frutas e açúcar) que os especialistas definiram como precursores desta combinação. 

O “Draquecito” ou “Draque” referese a um famoso sobrenome inglês, Drake, e inevitavelmente leva a imaginação aos tempos do pirata Francis Drake, um corsário que recebeu o título de sir por estender uma mão (ou várias) à rainha Isabel da Inglaterra, saqueando as colônias espanholas no século XVI. Mas foi outro Drake, chamado Richard e ajudante do corsário, quem começou a combinar “rum, açúcar, limão e hortelã”, segundo o chefe de comissão Cubana de Juízes Gastronômicos e especialista em coqueteis, Erasmo Brito Lima.

Nos documentos históricos da casa cubana Bacardi, com sede hoje em Porto Rico, há também a história do Drake como antecedente do autêntico mojito. Além disso, acrescenta que esse coquetel era servido em uma colher com cabo em forma de rabo de galo, cuja tradução em inglês é cock tail. A bebida tinha como objetivo aliviar doenças de estômago, prevenir cóleras e fornecer vitamina C para evitar o mal chamado escorbuto. E pelo jeito, refrescar as gargantas de piratas e colonos. A canchánchara é outro precursor do mojito original.

É uma bebida afro-cubana à base de mel ou melaço (obtido do refino do açúcar para exportar ao Velho Mundo e aos Estados Unidos), suco de limão e rum. O bartender e especialista em coqueteis Miguel Figueredo Lancha, co-fundador do The Cocktail Room, explica que era uma bebida da comunidade afro-cubana e das pessoas que trabalhavam nos canaviais, por isso “é uma bebida rústica” que ainda hoje é “apresentada tradicionalmente em tigelas de barro”. Sobre a origem deste coquetel também existem múltiplas versões, pois alguns situam-no em Trinidad, no centro de Cuba, enquanto outros dizem que nasceu na parte oriental da ilha.

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A origem e “La Bodeguita del Medio”

Passaram alguns anos para que o mojito se tornasse o tal. Se sobre os combinados precursores a realidade é difusa, o momento em que a aguardente ou “tafia” (que não envelhece em barril) torna-se rum para dar vida a este coquetel, parece lenda. Uma das crenças, defendida pela marca cubana de runs Havana Club, é que o lugar de nascimento do mojito é o lendário bar de Havana, La Bodeguita del Medio, enquanto Brito Lima assegura que já preparava antes que este restaurante – obrigatório a qualquer turista – abrisse suas portas no Hotel Sevilla em 1942

A Bacardi,companhia fundada em Cuba pelo catalão Facundo Bacardi em 1862, faz coincidir com estas datas aintrodução do rum branco como o conhecemos hoje (seco e destilado em coluna) no Draquecito (Havana Club foi fundado um pouco mais tarde, em 1934). No entanto, Brito Lima atribui a um ser anônimo, aparentemente descendente de espanhóis, a responsabilidade de prepará-lo pela primeira vez em um bar da praia de La Concha, e diz que “o mojito original, ao contrário do que o marketing pretende, não está associado a nenhuma marca de rum cubano em especial, segundo livros da época”.

Figueredo Lancha lhe dá razão, argumentando que “os coquetéis são criados por pessoas, e não por marcas”. Sobre o seu nome reaparece a discrepância: desde apalavra africana mojo (feitiço) até a mesma palavra traduzida do inglês como “mistura” ou do mojo, molho cubano com limão. De qualquer forma, o mojito é, sem duvida, cubano, mesmo sabendo que pode ter alguma ligação com a Espanha (algo nada incomum em uma antiga colônia, aliás).
Além de ser popular e ser um dos produtos mais vendidos, é também parte da história dos coqueteis.

Ingredientes, um a um

Podem ser encontradas misturas de mojito a preços muito baixos. É uma das bebidas para os sentidos, aromática e refrescante, mesmo que precise de uma preparação cuidadosa para conseguir o equilíbrio perfeito, vital em qualquer coquetel. Uma das primeiras decisões a tomar na hora de prepará-lo é a do rum, que pode ser branco ou escuro. Ambos são envelhecidos em barris, mas o primeiro é filtrado e recupera a transparência que tinha depois da destilação. A escolha do rum influencia no resto dos ingredientes, pois de acordo com os toques adocicados, de ervas ou especiarias que tenha, a receita será mais ou menos equilibrada.

E segundo Miguel Figueredo Lancha, que instrui amadores e profissionais sobre coqueteis no The Cocktail Room, “não é recomendado o rum agrícola para este combinado”, que considera mais apropriado para outras misturas, como o daiquiri. No entanto, acrescenta, “o melhor rum para fazer um mojito é aquele do qual se gosta”. Sobre usar lima ou limão também há discussões que, inclusive, em alguns fóruns, tornam-se quentes, mas Figueredo aponta que depende da mistura. Deve-se ter em mente que do outro lado do Oceano, o limão é chamado de lima e viceversa. Ele recomenda que se preste atenção na origem da receita, para evitar confusões.

O mesmo acontece com a hortelã. O ingrediente aromático essencial, que alguns preferem substituir por menta. Embora o especialista afirme que ambas são plantas similares e desaconselhe utilizar qualquer tipo de clorofila. “Que é bom para um chiclete, mas não para um mojito”. Deve-se bater de leve, sem despedaçar as folhas, para liberar os aromas que fazem deste preparado um dos grandes coqueteis. O gelo, triturado ou inteiro, é outra diferença entre o mojito mais popular na Europa e o cubano original. Este o levava intacto, mas depois vieram as vantagens de triturar a água congelada, muito refrescante e com funções de filtro para manter as folhas da hortelã embaixo, permitindo mesmo assim que os aromas e óleos essenciais subissem.

O resto é soda e açúcar. Que deve ser diluído no copo, nunca ao redor da borda, para atingir o equilíbrio. Figueredo recomenda utilizar xarope de açúcar. Mais fácil e homogêneo. A escola cubana de mojitos geralmente incorpora um ingrediente amargo para marcar a diferença. Segundo Brito, “entre um bom coquetel e um grande coquetel”.

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Receita
(Miguel Figueredo – The Cocktail Room)

  • – 6 ou 7 folhas de hortelã ou
  • menta soltas para o fundo, e
  • um par de folhas com o raminho
  • para decorar
  • – 22,5 ml de suco de limão
  • (aproximadamente meio limão
  • grande)
  • – 2 colheres de chá de xarope
  • de açúcar
  • – 50 ml de rum
  • – Uma parte de soda (uns dois
  • dedos)
  • – Gelo triturado
  • – Copo long drink

Bater com a palma da mão as folhas de hortelã, para que o aroma se solte. Colocar no fundo do copo com um pouco (não tudo) de suco de limão. Bater sem destruir as folhas e acrescentar o restante do suco, o xarope de açúcar e o gelo, até encher o copo. Adicionar o rum. E, imediatamente depois, a soda. Colocar mais gelo, tudo o que couber no copo. Mexer com uma colher longa e misturar suavemente os ingredientes. Decorar com raminhos de hortelã no centro e fica pronto para beber.

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