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Quando afastada dos contextos dos contos de fada. Esta hortaliça rotunda esconde um catálogo de atributos nutricionais. Que facilita a sua combinação com alimentos de maior expressividade e a converte em um elemento importante para qualquer dieta de emagrecimento.

Ela não é a “irmã pobre” do conto macabro infantil. Nem a protagonista de um filme de terror. Muito pelo contrário. A abóbora constitui uma realidade gastronômica esplêndida. Cuja versatilidade permite que se integre plenamente à cozinha de outono europeu. Formando a pedra angular de um variado mundo de receitas. Mesmo sem se transformar em uma carruagem real. A verdade é que esta expressiva hortaliça é muito utilizada pelos chefs mais vanguardistas na hora de reinterpretar pratos de raiz clássica. – Ao estilo da porrusalda (prato típico vasco à base de legumes). Os cremes e sopas frias, o puchero canário (cozido tradicional da cozinha canaria) ou os assados de carne. Na confeitaria, ela coloca seu potencial depurativo e sua textura fibrosa a serviço de sobremesas com elevado índice de calorias. Até mesmo para equilibrá-las. Podemos citar como exemplos o arnadí. Um doce tradicional de Levante, que também leva batata-doce; a panna cotta. E o clássico bolo de abóbora com merengue. Que os cozinheiros costumam finalizar agregando nozes e geleia de figos secos. Dois elementos que transformam essa sobremesa em uma bomba energética.

De qualquer forma, a polivalência desse produto caminha lado a lado com sua diversidade. Pertencente à família das cucurbitáceas. A abóbora forma parte de um grupo que compreende um total de 850 espécies de plantas rasteiras ou trepadeiras. Nesse grupo estão também integrados o pepino, a abobrinha, a melancia e o melão. Entre outros vegetais. Mesmo que algumas fontes considerem-na procedente da América. Sua origem real está localizada na Ásia Meridional. E, de fato, sabe-se que os hebreus e os egípcios já a cultivavam para aproveitar as suas sementes. – Antigamente usavam essas sementes para eliminar lombrigas e combater o excesso de mucosidade e retenção de líquidos. Posteriormente, seu consumo foi se generalizando. À medida que apareciam tipos mais carnudos e frutados. Atualmente, ela é produzida em todo o planeta. Em áreas com climas cálidos e úmidos, dando-se duas variedades perfeitamente diferenciáveis: a variedade de verão e a de inverno.

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QUESTÃO DE ESTAÇÕES
As variedades de verão contêm muito mais água e têm uma pele com menor consistência, além de apresentarem um período de conservação mais curto em comparação às de inverno.
Dentro das variedades de verão, encontramos a abobrinha bonetera, de cor branca, verde ou amarela; a espaguete, cuja fibra se desfaz em forma de fios que lembram a massa quando levada ao forno ou ao ser cozida; e a rodín, que tem a pele laranja e a carne esbranquiçada. Já as de inverno são a abóbora banana; a de codra ou zapallo e a confitera – da qual se extrai o “cabelo de anjo” utilizado nas confeitarias como recheio. Outras abóboras, muito menos conhecidas, são a americana; a amarela grossa de Paris; a cheia de Nápoles; a vermelha de Etampes (França); averde espanhola; a botonera e a abobrinha brasileira.
Também existem algumas que, uma vez desidratadas, são utilizadas quase que exclusivamente para decoração. É o caso da abobrinha do peregrino ou do vinatero, que parece uma garrafa estrangulada. Já que estamos falando de ornamentação, convém lembrar o vínculo mantido desde sempre na cultura anglo-saxônica entre a Curcubita máxima e a festa de Halloween, denominada na Espanha de Festa de Todos os Santos e celebrada, por lá, no dia primeiro de novembro. A origem dessa tradição vem de algo muito curioso: segundo a lenda, devido à crueldade extrema de um irlandês chamado Jack, o mesmo foi impedido de entrar no céu e também no inferno. Viu-se, então, obrigado a vagar pelo limbo junto com as almas perdidas, para as quais ele mostrava o caminho para ambos os lugares, luminando-as mediante uma abóbora oca com uma vela dentro. Esse fato terminou convertendo a inocente hortaliça em um dos maiores ícones do sinistro que se pode imaginar. Por outro lado, uma segunda versão da história afirma que o espírito de Jack habita o interior de uma abóbora, onde foi confinado por uma bruxa, depois de haver se negado a ajudá-la no preparo de uma sopa. Por esse motivo, são cortados olhos nessas hortaliças que imitam, supostamente, os traços humanos, dando-lhes um particular aspecto ameaçador.

PROPRIEDADES E LENDAS
Mas, à margem das conotações que vinculam esse alimento com o cinema para adolescentes, a verdade é que a abóbora é um alimento muito interessante, do qual se comem até as flores. A abundância de betacaroteno – substância de ação antioxidante que, ao ser absorvida pelo nosso organismo, transforma-se em retinol – é muito apropriada para prevenir doenças oculares, problemas imunológicos e, inclusive, alguns tipos de câncer, assim como doenças cardiovasculares.
É também rica em potássio e pobre em sódio, o qual, unido ao elevado conteúdo de fibras, converte sua presença em algo imprescindível dentro de qualquer dieta de emagrecimento. Além disso, o óleo que se elabora com essa hortaliça resulta altamente benéfico para a próstata, graças à sua ação anti-inflamatória e seu conteúdo em zinco.No entanto, a abóbora também tem sua própria lenda escura: na antiga Grécia, a ela foram atribuídas propriedades antilibidinosas e, de fato, durante a Idade Média, utilizavam suas sementes nos monastérios, para fabricar rosários com os quais, pretensamente, conseguiam afastar os pensamentos luxuriosos (talvez venha daí a expressão espanhola “dar calabazas”, que significa “dar abóboras” quando não se aceita um pretendente). Contra tais argumentações, existe uma que é suficientemente incontestável para perder o medo e induzir o seu consumo: seu preço. A abóbora é um alimento muito acessível na Espanha, sendo o segundo país exportador no planeta (só perdendo para o México), e ocupando um honroso posto número onze na escala de produtores internacionais. A área de cultivo na Espanha é distribuída entre Andaluzia, Castilla- La Mancha, Catalunha, Região de Murcia, Canarias e Valencia. Desta última, precisamente do município de L’Alcora, procedeu o exemplar que alcançou o título de maior abóbora da Espanha em 2012.Um descomunal exemplar de 322 quilos e 359 centímetros de circunferência, pertencente à variedade atlantic giant. Com esse título, pressupomos que ficou registrado o êxito do solo do proprietário, assim como o dos vizinhos da região. Por outro lado, convém falar da evolução experimentada por esse produto na alta culinária, onde a abóbora tem escalado postos desde sua condição de artigo de subsistência, até consolidar-se como uma base imprescindível no livro de receitas moderno. Assim é demonstrado por algumas propostas dos melhores chefes espanhóis: Toño Perez, do restaurante Atrio, em Cáceres, sugere-nos uma deliciosa sopa de abóboras com manjar de amêndoas e brotos de mostarda vermelha crespa; Fernando del Cerro, em Casa José, exibe todo o esplendor da horta local com uma abóbora assada cuja  elaboração termina convertendo-a num verdadeiro canto para a sofisticação culinária. E, para corroborar, os galegos Iago Pazos e Marcos Cerqueiro, do Abastos 2.0, recomendam rechear aros de lula com abóbora e mexilhão, dando lugar a uma proposta culinária singular, não apta para covardes na arte do fogão.

Autor: Álvaro López del Moral

Imagens: Antonio de Benito