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A arqueologia é uma forte aliada na reconstrução do nosso passado gastronômico. Através de fragmentos de objetos usados na preparação e no serviço de alimentos encontrados em escavações, os arqueólogos podem ajudar a montar o quebra-cabeças daquilo que foi, outrora, o nosso cotidiano alimentar.

Outra ajuda fundamental para descortinar o que nossos antepassados comiam e onde preparavam seus alimentos é a da história. Podemos, por exemplo, conhecer os usos de diversos utensílios a partir de registros escritos. Estes se espalham por antigos livros de receitas ou inventários, a relação de bens deixadas por pessoas de posses.
Juntando as peças oferecidas pela arqueologia e pela história, podemos vislumbrar a evolução de utensílios como o açucareiro.

No começo de sua história na Europa (pois os povos orientais têm a sua, já que plantavam a cana-de-açúcar desde temos imemoriais), o açucareiro era artigo de luxo e, por isso, registrado como um bem precioso nos inventários das famílias abastadas. Em 1706, por exemplo, a rainha Catarina de Bragança, a noiva portuguesa do rei Carlos II, da Grã-Bretanha, arrolava entre seus bens um destes valiosos objetos.
A rainha é apontada por especialistas como responsável pela introdução do chá na Inglaterra – e o chá foi fundamental na “popularização” do açucareiro.
O antropólogo americano Sidney Mintz diz que, em 1750, todo inglês já havia provado açúcar no chá.

Açucareiro

Por que o açucareiro era artigo de luxo? Porque seu conteúdo, o “ouro branco” comestível, era raro. Foi somente com o desenvolvimento das plantações de açúcar no Novo Mundo, a partir do século XVII, que o açúcar começou a baixar de preço na Europa, tornando-se, assim, acessível a outros além de um pequeno segmento da sociedade.
Daí para a frente, seu uso também foi se transformando: de medicamento e especiaria, passou a conservante, adoçante, meio de ostentação e, finalmente, alimento.

O surgimento e a evolução do açucareiro dá-se, portanto, no coração das civilizações do açúcar, ou seja, dos países europeus que dominaram a fabricação deste produto nos trópicos, a partir do século XVI (no Mediterrâneo Oriental,havia plantações de cana-de-açúcar desde o século VIII).
E, entre esses países, Portugal ocupa um lugar de destaque. Foram os portugueses que, durante muito tempo, proveram a maior parte do açúcar consumido na Europa a partir de sua colônia na América, o Brasil. Ingleses, franceses e, posteriormente, holandeses, correram atrás do prejuízo, até superarem o país na tecnologia do fabrico do açúcar e ganhar o mercado europeu.

O açúcar em pedaços, granulado ou em pó, também requeria um recipiente específico para ser conservado. Esse recipiente era o açucareiro que, ao longo dos séculos, ganhou diversos formatos e materiais.
Estudiosos calculam que a primeira referência europeia ao termo açucareiro aparece num inventário português de 1507. Naquele tempo, açucareiro significava vasilha de barro, vulgarmente vidrada, onde se guardavam conservas de açúcar ou de mel.

Para armazenar nas casas o açúcar em pó, alvo e fino, surgiram primeiramente recipientes cilíndricos – formato que se aproximava das formas de açúcar, recipientes cônicos de cerâmica e furados no vértice, usados numa das etapas de produção de açúcar para verter o líquido formado após sua purga.
Alguns deles, conhecidos como açucareiras, tinham uma tampa elevada em cúpula, cheia de orifícios. Já os açucareiros para guardar o açúcar quebrado tinham o formato de caixas, e, algumas vezes, lembravam uma taça redonda. Ambos vinham com uma pinça ou pegador.

É no século XVII que surgem açucareiros dignos de ir à mesa: com duas asas e uma tampa. A evolução e a “popularidade” do açucareiro estão diretamente ligadas ao sucesso de bebidas como o chá que, assim como o café e o chocolate, invadiu as cortes europeias. Levado ao continente por mercadores da Companhia das Índias Orientais Holandesas no início do século XVII, o chá fez com que os açucareiros e outras peças fossem produzidas de modo que a bebida pudesse ser corretamente servida. 

Assim, o açucareiro, de início, fez parte de um conjunto maior de louças. No século seguinte, na Inglaterra, o crescente hábito de tomar chá levou os prateiros a introduzir serviços para chá. A princípio, os açucareiros eram de barro. Ao longo dos séculos XV e XVI, surgiram os de cerâmica, vermelha ou castanha. Seguiram-se os feitos de faiança, de porcelana e de metal – materiais que dependiam, também, das posses de cada um. As classes de parcos recursos econômicos recorriam às singelas peças de louça vermelha e vidrada.

Nas casas abastadas, os objetos usados no serviço de mesa eram de ouro, prata, estanho, faiança ou porcelana – as duas últimas, ganhando primazia a partir do século XVIII.

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A faiança é uma cerâmica coberta por esmalte, e começou a ser produzida em Lisboa no século XVI.
No início, as faianças eram brancas, sem decoração, feitas pelos chamados malegueiros. A partir do século XVII, tais peças tornaramse requisitadas também na Ásia, na África e na América, por suas qualidades decorativas, por serem fáceis de limpar e também por serem impermeáveis. Já pintadas de azul cobalto e roxo, as faianças tinham desenhos variados. Assim como outras peças, os açucareiros ganhavam motivos geométricos, florais e de animais. Desenhos que lembram rendas, contas e espirais predominam nos açucareiros a partir de 1650.

Surgem, também, desenhos de inspiração oriental, com pequenas e delicadas figuras de plantas. Os motivos coloridos em amarelo, laranja, rosa e verde surgiriam no século XIX, quando também entrou em moda a faiança fina da Inglaterra.
Já os açucareiros de porcelana viraram febre entre as elites da Europa no final do século XVIII.
Chamados “potes de açúcar” – pois também serviam para guardar o açúcar em pedaços -, eram usados também para armazenar o açúcar cristal, vendido em farmácias.

Com a industrialização do açúcar. O açucareiro assumiu novos formatos, destinados a novos usos. Os açucareiros sem tampa eram usados para o chá; o polvilhador, para adoçar frutas; as caixas acompanhadas de pegador continuaram a ser usadas para o açúcar em pedaços. E o mais popular, dotado de tampa e colher, para o açúcar industrializado.
Se na Europa sua utilização se popularizava. Rara era a presença do açucareiro no Brasil. Sua posse era praticamente reservada à elite portuguesa. Como o poeta, ouvidor e juiz Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), residente em OuroPreto. Em regiões distantes do litoral açucareiro ou do ouro das Minas, os recipientes para guardar açúcar pareciam ganhar feições brasileiras, como os feitos com a cabaça da sapucaia, no Maranhão.

Mas o Rio de Janeiro do século XIX. De olho nos hábitos europeus, assistiu à crescente entrada dos açucareiros. Que faziam parte dos serviços de chá. A cada embarcação que chegava, jornais da época anunciavam as novidades à disposição da elite carioca. Um armazém situado à Rua da Alfândega, por exemplo. Vendia “aparelhos para chá, ingleses e da China, dos melhores gostos”. Ou, em novo anúncio, “louça da China para chá e mesa tanto esmaltada como de porcelana e ouro, a preços cômodos”. Outro negociante, um francês da rua do Ouvidor, tinha à disposição dos clientes, em 1819, “açucareiros, bules, cafeteiras e saleiros”. Assim, ao longo de sua história no Ocidente, o açucareiro passou de raridade reservada a príncipes e aristocratas, a um prosaico utensílio.

Autor: Cristiana Couto