Texto: Alessandra Nascimento
Fotos: Elayne Massaini
Receitas: João Belezia

Em breve, as tradicionais Festas Juninas começarão a espalhar seus aromas e cores pelo Brasil. Em algumas regiões, por trás da alegria das brincadeiras, há investimentos vultosos, que buscam recriar a autêntica atmosfera das cenas interioranas que caracterizam essa manifestação popular brasileira.

Mas nem todos sabem que a diversão das Festas Juninas remontam a um tempo muito antigo, anterior, inclusive, ao surgimento da Era Cristã. Em seu livro, Festas Juninas, Festas de São João: Origens, Tradições e História (São Paulo Ed. Publishing Em breve, as tradicionais Festas Juninas começarão a espalhar seus aromas e cores pelo Brasil.

Em algumas regiões, por trás da alegria das brincadeiras, há investimentos vultosos, que buscam recriar a autêntica atmosfera das cenas interioranas que caracterizam essa manifestação popular brasileira. Solutions, 2008, 132 p.), a antropóloga Lúcia Helena Rangel busca sistematizar os elementos que explicam a origem dessas festividades, sua transformação na história europeia e suas redefinições no contexto brasileiro, desde os tempos coloniais até a atualidade.

Nessa obra, Rangel cita o livro O Ramo de Ouro, um clássico da Antropologia onde sir James George Frazer explica que o mês de junho, tempo do solstício de verão no Hemisfério Norte, era a época do ano em que diversos povos — bretões, celtas, egípcios, entre outros — faziam rituais de invocação de fertilidade para estimular o crescimento da vegetação, promover a fartura nas colheitas e trazer chuvas. As origens dessa comemoração também retomam à Antiguidade Clássica, quando se prestava culto à deusa romana Juno, deusa da feminilidade e do matrimônio. Os festejos em sua homenagem eram denominados “junônias”. Daí a derivação do nome “juninas”.

O fogo, através da fogueira, também compunha esses ritos como símbolo mágico-religioso. Sua importância pode ser explicada a partir da crença de que o Sol, mantenedor da vida, no solstício, alcança o máximo de sua luz e calor. Naquele tempo, as pessoas dançavam ao redor da fogueira para espantar maus espíritos e pedir que as dádivas do Sol fossem lançadas à terra. Na passagem da primavera para o verão, essas sociedades celebravam a superação das agruras provocadas pelo inverno. Daí a razão do fogo estar presente de modo secular em celebrações dessa natureza. E como relacionar nossos populares arraiais aos festejos do solstício de verão da Europa? Podemos começar pela herança deixada pelos portugueses.

Segundo Lúcia Rangel, na Europa, os festejos do solstício de verão foram adaptados à cultura local. Portugal absorveu os cultos agrários pagãos e incorporou a Festa de Santo Antônio de Lisboa ou de Pádua, em 13 de junho, rematando o ciclo com os festejos dos apóstolos São Pedro e São Paulo, homenageados em 29 de junho. Já em terras brasileiras, alguns cronistas contam que os jesuítas acendiam fogueiras no mês de junho, o que provocava grande fascínio sobre os indígenas. Por sua vez, os povos que aqui viviam também atrelavam a prática agrícola à realização de rituais importantes, referentes à preparação dos novos plantios e às colheitas. Nessa ocasião, as comunidades indígenas se congregavam através das danças, cantos, rezas e muita fartura de comida.

Das práticas ritualísticas indígenas e da intenção de atrair os índios para o convívio missionário resultou uma coincidência de propósitos, simbolizada pelas fogueiras de São João. Mas não foram apenas os portugueses que contribuíram para os nossos festejos juninos. Da França, incorporamos termos e expressões que trouxeram uma dose de, digamos, charme ao “caipirês” dos arraiais. A palavra quadrilha vem de “quadrille” e surgiu na corte francesa, no século XIX, para denominar os bailes da aristocracia europeia.

Por aqui, a dança palaciana foi adaptada de modo a imitar os gestos dos nobres, contudo de forma brejeira e jocosa (considere a encenação cômica do casamento na roça e a forma caricatural como se vestem os integrantes da quadrilha). Durante a dança, as pessoas recebem alguns “comandos” que são palavras e expressões vindas do francês, tais como o “balancê” (do francês, balancer), que é o momento no qual os participantes balançam o corpo no ritmo da música, sem sair do lugar.

Há também o “changê de damas” (do francês changer) que solicita a troca de damas, enquanto o “alavantú” (do francês en avant tous) pede que todos os casais venham para a frente. O passo “anarriê” vem da expressão francesa en arrière e convoca que os casais “voltem para trás, na posição inicial”. Com o “caipirês” afrancesado, o corpo de baile é animado pela figura de um “marcador” que dá os comandos para a quadrilha. Ele nada mais é do que a representação da figura dos solenes mestres de orquestras das danças palacianas francesas. Sobre a culinária das Festas Juninas, podemos dizer que os conhecidos ingredientes presentes nas mesas juninas são os produtos das colheitas que acontecem na época da festa, como é o caso do milho, abóbora, cará e do amendoim. O cardápio inclui canjica, cocada, pamonha, curau, bolo de fubá, pé de moleque, cuscuz, quindim, pipoca.

É verdade também que há pratos que se adaptam às particularidades culturais de cada região do país. A paçoca, por exemplo, ilustra essa peculiaridade que algumas receitas assumem mediante as diferentes regiões do Brasil. Segundo o etnógrafo e historiador Luís da Câmara Cascudo, o nome paçoca vem do tupi po-çoc, e significa “esmigalhar”. Os paulistas conhecem-na como sendo um doce à base de amendoim, farinha de mandioca e açúcar, típico da comida caipira do estado de São Paulo. Mas ela apresenta variações. No Nordeste do país, a paçoca de carne-seca é um tradicional prato sertanejo, que surgiu como alternativa para a alimentação dos tropeiros durante as viagens, dado o fato de ser um alimento muito nutritivo e de longa conservação.

A paçoca nordestina é preparada com carne frita em gordura, temperada e misturada à farinha de mandioca e depois socada, “esmigalhada” no pilão de madeira até se reduzir a pó. Na Amazônia, ela é a amêndoa da castanha assada e socada num pilão com farinha d’água, sal e açúcar, geralmente vendida em cartuchos de papel nas cidades. O fato é que, independente da região, nessa época, essa riqueza proveniente da fusão de hábitos e culturas derrama-se pelo Brasil. Resultado de tantos costumes imemoriais, em síntese, as Festas Juninas se aproximam para celebrar a alegria. Não estranhe, portanto, caso pegue-se cantarolando a singeleza da capelinha de melão, de cravo, de rosa… É mês de São João!

Paçoca de amendoim de pilão
INGREDIENTES
_DSC9012500 g de amendoim sem casca
200 g de farinha de milho amarela
200 g de açúcar
5 g de sal

PREPARO
Torre o amendoim no forno.
Misture todos os ingredientes.
Em um pilão de madeira, coloque uma porção da mistura.
Soque até que obter uma farinha homogênea. Mexa com a colher de tempos em tempos para soltar do fundo.
Passe por uma peneira, se desejar uma paçoca mais fina.
Pode ser consumida sozinha, com banana fresca ou flambada em cachaça, com coalhada e melado ou sobre uma tigela de leite.

Paçoca Caipira
INGREDIENTES
_DSC89891 kg de carne seca em cubos e dessalgada
300 g de pernil de porco cortado em cubos
1k g de farinha de milho
6 dentes de alho picados
200 g de banha de porco
Sal e pimenta-do-reino

PREPARO
Tempere o pernil com sal, pimenta e alho. Reserve.
Cozinhe a carne seca em água até ficar macia, escorra a água.
Em uma panela de ferro, derreta a gordura e coloque as carnes.
Em fogo médio, cozinhe a carne até dourar bem.
Desligue o fogo e misture a farinha de milho.
Leve esta mistura, aos pouco, a um pilão.
Soque bem e remexa até que a carne se desfie.
Acerte os temperos e sirva.

 

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