Revista Sobremesa

Texto: Alberto Granados

Fotos: Alberto Granados

Groenlândia, terra de vikings

Um passeio pela costa oeste desta ilha nos levará, através  das águas geladas do Ártico, até lugares de beleza extraordinária. Entre geleiras, montanhas e pequenas aldeias, a gastronomia torna-se uma questão estrita de sobrevivência.

Da janela do avião, vejo maravilhado o impressionante fiorde de Kangerlussuaq. O capitão avisa que, em breve, aterrissaremos na Groenlândia, nosso destino. Estamos diante de uma paisagem nada parecida com a que normalmente associamos a esta ilha incrível, que é superada em tamanho somente por um continente: a Austrália.

Revejo minhas anotações: pensei que veria os fiordes cobertos de neve, ursos polares e quilômetros de superfície gelada. Mas em junho, aqui nesta parte da Groenlândia, a paisagem muda drasticamente, descortinando diante de nossos olhos paisagens banhadas de tons marrons e ocres. Não vejo verde em nenhum canto. O verde com o qual Eric El Rojo, um dos primeiros descobridores, batizou esta terra: “Greenland”. Na verdade, diz a lenda que esse nome é  uma das primeiras campanhas de marketing da história. De acordo com ela, o viking e explorador norueguês queria atrair alguns colonos islandeses para esta ilha e achou boa ideia falar de paisagens exuberantes  e grande abundância.

Nossa viagem nos levará pela costa oeste da Groenlândia, de Kangerlussuaq até Ukkusissat, o ponto mais distante a que chegaremos. Uma trajetória de uns 400 quilômetros que realizaremos a bordo do MS Fram, um impressionante navio de casco duplo que, durante os meses de junho e julho, percorre a costa navegando sobre águas geladas, esquivando-se, ao longo do trajeto, de icebergs monumentais que viajam à deriva – os mesmos que, em outros tempos, o capitão Edwward John Smith tentou esquivar-se sem sucesso, quando estava no comando do Titanic.

A tragédia aconteceu a poucas milhas do lugar onde nos encontramos. Para nossa tranquilidade, o navio está preparado para navegar pelas águas do Ártico e conta com sistemas modernos de radares e de posicionamento, o que faz com que seja praticamente impossível que a catástrofe se repita. Ainda assim, as simulações de evacuação realizam-se normalmente ao embarcar: sofisticados trajes térmicos, barcos infláveis e até salva-vidas com sinalização por GPS nos esperam, caso aconteça algum acidente.

Vamos de ônibus do aeroporto até o moderno Fram. Quinze minutos separam-nos do navio que, avistado de longe, mostra-se majestoso. A embarcação é tão impressionante que, em alguns portos, como o de Kangerlussuaq, o navio não pode parar, e é necessário chegar em lanchas que vão transportando, em grupos, os passageiros (principalmente turistas que passam dos cinquenta anos, com um bom nível aquisitivo, e amantes da natureza e da aventura).

Ao navio, que será nossa base durante toda a viagem, não faltam detalhes e tudo está colocado para que nossa estada seja equiparável a de um hotel de quatro ou cinco estrelas: camarotes confortáveis com banheiro e inclusive ducha, televisão ou minibar, um restaurante de ótima gastronomia e com ampla variedade de vinhos, sala de leitura com Wi-Fi, bares, loja, academia e, para os apreciadores de Jacuzzi, banheiras de hidromassagem no deck superior. É uma experiência inesquecível mergulhar na água quente e observar de longe a paisagem espetacular.

O MS Fram zarpa percorrendo o majestoso fiorde de uns 80 quilômetros de comprimento, ladeado pelas magníficas massas de pedra, sem neve nesta época do ano, até chegar ao mar aberto. Percorremos a costa Oeste na direção Norte e o primeiro povoado a que chegaremos é o Itilleq, cujo nome significa “oco” na lingua inuit. Um pequeno povoado de 130 habitantes que vivem de pesca e de caça, como antigamente. Eles são os mais hospitaleiros da viagem e nos convidam a entrar em suas confortáveis casas de madeira para tomar um café ou um chá com biscoitos. Eu tento trocar algumas palavras e gestos com a amável senhora que me recebeu em sua casa. Consigo conhecer algo de sua vida cotidiana, e damos risada juntos, mesmo sem saber um o idioma do outro.

Da base situada a cerca de 200 metros do círculo polar, destaca-se um espetacular cenário de montanhas e geleiras, que abandonamos para nos dirigir até Sisimniut, uma das cidades mais importantes da costa Oeste, mesmo com somente 5.500 habitantes. O navio rasga as águas com serenidade.  No convés, desfrutamos de uma leve brisa. O sol continua iluminando, mesmo que nossos relógios indiquem que já deveria ter nos abandonado. Nesta época do ano, o sol não descansa e nos acompanha por 24 horas.

É diferente levantar-se de madrugada e ver a luz do sol. Mesmo que seja tarde, a escuridão não se inicia. No dia seguinte, o megafone anuncia que vamos aportar em Sisimiut. Avista-se um pequeno porto rodeado de montanhas com dezenas de pequenas casas coloridas de madeira, que salpicam uma paisagem de natureza transbordante. O turista que desembarca no porto e passeia pelo povoado descobre um pequeno museu, visita as poucas lojas de souvenirs, cafés ou sai para fazer uma caminhada pelas montanhas próximas. Uma caminhada dura, de várias horas, entre rochas, arbustos e inclusive riachos de águas transparentes, com a recompensa de desfrutar de algumas das melhores vistas da viagem.

A economia desta localidade costeira e da maioria das outras pelas quais passaremos no caminho está baseada na pesca. Apesar deste povoado ser pequeno, a atividade nas docas é frenética. Vale a pena visitar o mercado de peixes.  Lá, chegam os peixes recentemente pescados e toda a comunidade se aproxima para abastecer-se para o dia. Obviamente, não pode faltar carne de baleia, que é trinchada no local com muita destreza, pelos pescadores.

O barco não descansa. As paradas proporcionam-nos a oportunidade de desembarcar para conhecer as localidades costeiras cheias de casas coloridas e de madeira. Chegamos a Ilulissat com seu pequeno porto repleto de embarcações de pescadores. À primeira vista, tem-se a impressão de que este é um dos povoados mais movimentados que encontraremos. Essa suspeita é confirmada com vinte ou trinta turistas com os quais cruzamos em nosso caminho. De fato, esta cidade é a terceira, em tamanho, da Groenlândia, com mais de cinco mil habitantes.

Uma de nossas metas é chegar a uma das partes mais bonitas da região. Uma passarela de madeira, de vários quilômetros, aproxima-nos de uma desembocadura com uma paisagem impressionante. Os fiordes misturam-se com a paisagem repleta de icebergs à deriva, provenientes da geleira Jakobshavn, uma das mais produtivas do hemisfério norte.

Um cenário inimaginável que converte cada foto em um cartão postal. Esta paragem está protegida desde 2004 pela Unesco. Passeando pelo povoado, descobrimos restaurantes curiosos e até uma boate. O que não encontramos em nenhuma das lojas foram artigos típicos da Groelândia. Aqui não há produtos próprios do lugar, quase tudo é importado. Nas prateleiras, descobrimos muitos produtos espanhóis, especialmente vinhos, de quase todas as Denominações de Origem.

Outra visita obrigatória é Qeqertarsuaq, um dos cantos mais surpreendentes da viagem. Os viajantes espalham-se por uma praia de areia escura, de onde avistam os icebergs flutuando, oferecendo uma profusa paleta de cores entre o branco e o azul celeste. Deixamos para trás a praia, para ir caminhando até a ladeira de uma montanha que nos reserva uma surpresa: duas cachoeiras surpreendentes, alimentadas por rios cristalinos que descem caudalosos de água do degelo.

No dia seguinte, vamos para Qullisat, uma pequena aldeia situada numa ilha chamada Disco, do lado oposto ao de Qeqertarsuaq. Este é uma povoado abandonado desde 1974, onde atualmente só se encontram algumas dezenas de casas de madeira, que mal se sustentam. Somente três vizinhos vivem ali durante o ano e, no verão, algumas casas mais conservadas são habitadas por seus proprietários. Deve ser impressionante amanhecer observando aquela paisagem de água, fiordes nevados e montanhas. Está é a melhor cura para o estresse: navegar em um barquinho perto dos penhascos, passear pelos vales, aproveitar o por do sol.

Nossa viagem vai chegando ao destino final, mas antes visitaremos Uummannaq, um município ao pé de um pequeno porto, protegido por uma montanha impressionante. As casas típicas da Groelândia bordeiam o sopé da montanha, e é necessário subir um trecho para chegar até a última. Aqui, ficamos surpreendidos por encontrar uma igreja de pedra, uma das poucas no país. É difícil entender porque a maioria das construções são de madeira, já que levamos dias sem ver árvores.

Como em outras aldeias, a grande maioria vive de caça (cada vez mais minoritária) e principalmente da pesca. Curiosamente, ainda não encontraram no turismo uma fonte de subsistência. Há poucas lojas de souvenir e não existem atividades planejadas para as dezenas de estrangeiros que, com suas câmeras fotográficas, tomam conta das praças. De modo improvisado, no quintal de uma casa, um pescador colocou várias cadeiras e algumas fotos da fauna local e, junto com seu compadre, que é o tradutor, explicou como evoluiu a pesca e a caça na região.

Antes de partir, sentamo-nos em um pequeno café, no porto, com uma vista deslumbrante dos fiordes e do próprio cais, onde estão atracados vários barquinhos pesqueiros. A vida na aldeia converge nas mesinhas de madeira localizadas na varanda, onde podemos degustar uma xícara de café e comer um “globalizado” hambúrguer.

É hora de desembarcar na localidade mais setentrional da viagem: a pequena Ukkusissat, onde ficamos conscientes do verdadeiro valor da vida nesses lugares remotos.

O latido de centenas de huskies ecoa nas paredes das montanhas que protegem a pequena cidade costeira. Aqui, os trenós de neve são essenciais para sobreviver no inverno rigoroso. A modernidade também chegou a este lugar remoto e os velhos reboques vão sendo substituídos por modernas motos de neve.

A luz do sol oferece-nos um arco-íris colorido, através de uma das cascatas que desliza ladeira abaixo. Os moradores desta localidade nos presentearam com sua dança e canto. Há muitas crianças brincando na rua e posam para os turistas ávidos por uma boa fotografia. Esta localidade, que nos anos 1930 foi ponto de partida para a expedição de Alfred Wegener, está situada num cenário natural, de beleza singular, e é o destino final de um percurso surpreendente, com paisagens reservadas para poucos privilegiados.

Na minha retina ficaram impressos icebergs, geleiras, fiordes… Lembrarei de uma viagem carregada de beleza.

Para os aventureiros…

“Terras Polares” é uma empresa de um aventureiro espanhol, Ramón Larramendi, que reside na Groenlândia. Entre as múltiplas atividades que propõe, estão as de fazer um trajeto em caiaque entre icebergs e geleiras de 160 km para navegação, visita às frentes das geleiras, trekking sobre o gelo, fauna polar e auroras boreais.

Para os mais contemplativos…

O mais recomendável é percorrer uma parte da Costa da Groenlândia a bordo de um dos barcos de Hurtigruten. O cruzeiro permite conhecer as paisagens mais impressionantes, só que com todo o conforto possível, em um barco onde se cuida até do último detalhe.

Hotel com vistas…

O Hotel Uummannaq é considerado o lugar com a melhor paisagem do mundo. Sentando-se no terraço, é possível avistar uma impressionante panorâmica do fiorde de Uummannaq e maravilhar-se com enormes icebergs de todos os formatos e tamanhos flutuando sobre as águas. Conta com 34 quartos duplos, 4 individuais, 4 suítes e 6 quartos para fumantes. Todos com banheiro, televisão, rádio e telefone.

O que comer…

Devido às baixas temperaturas na costa da Groenlândia. Consomem-se alimentos com muita proteína; como carne de foca ou de baleia. Também é comum a carne de rena ou o “boi almiscarado” do lugar. O prato mais tipico é o denominado “Suaasat”; um cozido à base de batatas e cebola, no qual se agrega carne de baleia ou rena e, às vezes, arroz ou cevada.

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