docesMas de onde vem o doce ingrediente que protagoniza as sobremesas das avós e nutre nossa memória afetiva?
Dizem os historiadores que o açúcar foi obtido na Índia, no século III, a partir da evaporação do caldo de cana.
Quanto ao nome “açúcar”, tanto em português quanto em espanhol (azúcar) deriva do árabe as-sukkar, mas há quem defenda que a palavra provenha do sânscrito, “sarkara”, que significa “areia; pedra moída”.

Em solo brasileiro, a primeira muda de cana-de-açúcar foi plantada em 1532 por Martim Afonso de Sousa, mais precisamente na Capitania de São Vicente, onde também foi construído o primeiro engenho de açúcar, denominado de “Governador” e depois “São Jorge dos Erasmos”. Mas foi nas capitanias de Pernambuco e Bahia que se deu a expansão da produção açucareira no país. É possível que as reminiscências mais saborosas e aromáticas de nossa infância tenham sido moldadas, como disse Chico Buarque, “com açúcar e com afeto”.

Diante do aconchego de uma sobremesa prosaica e primorosa, é difícil não lembrar das avós e de seus gestos alquímicos na cozinha. O tempo soube transformá-las em peritas para extrair toda a virtuosidade dos ingredientes de nossa infância, ampliando em nós um sentimento muito particular de ternura.

Nem nos perguntamos o porquê de terem mãos tão hábeis para traçar aquilo que, mais tarde, se traduzirá em uma espécie de “mapa” de sabores afetivos. Há também aquelas que ultrapassam suas iluminações de amor, preenchendo com doçura os vãos afetivos de “netos de consideração”, com uma receita de família.

doce2Mas de onde vem o doce ingrediente que protagoniza as sobremesas das avós e nutre nossa memória afetiva?

Dizem os historiadores que o açúcar foi obtido na Índia, no século III, a partir da evaporação do caldo de cana.
Quanto ao nome “açúcar”, tanto em português quanto em espanhol (azúcar) deriva do árabe as-sukkar, mas há quem defenda que a palavra provenha do sânscrito, “sarkara”, que significa “areia; pedra moída”. Em solo brasileiro, a primeira muda de cana-de-açúcar foi plantada em 1532 por Martim Afonso de Sousa, mais precisamente na Capitania de São Vicente, onde também foi construído o primeiro engenho de açúcar, denominado de “Governador” e depois “São Jorge dos Erasmos”. Mas foi nas capitanias de Pernambuco e Bahia que se deu a expansão da produção açucareira no país.

Feita a justa menção ao principal ingrediente das sobremesas. Qual seria então a origem de diversos doces inscritos em nossos livros de receitas?
O jornalista Alexandre Menegale, em seu artigo Uma Doce História do Brasil. Relata que muitas sobremesas atualmente consideradas brasileiras têm origem portuguesa. Para ilustrar, Menegale menciona que, nos conventos portugueses, era muito comum o uso de claras de ovos para engomar os impecáveis hábitos das freiras. Mas o que fazer com a enorme quantidade de gemas que sobravam desse processo?
Menegale conta que, para aproveitá-las, as freirinhas inventaram doces como o quindim, o bom-bocado, o pudim, o papo-de-anjo e o manjar. O resultado é essa profusão de motivos para se expor ao pecado da gula. Para glória dos pantagruélicos, desespero dos virtuosos e alegria das vovós..

Voltando um pouco para o Brasil Colonial. Era nas cozinhas das sinhás que as quituteiras negras ousavam com os “ingredientes da terra”. Como o fubá, a farinha de mandioca, as frutas dos pomares e o “mel do engenho”. Para produzir os doces, as compotas e os bolos que marcaram as feições da culinária brasileira. Em um artigo publicado na revista Nossa História (ano 3, nº 29, mar., p. 20-23, 2006). A antropóloga Paula Silva conta que “apesar da enorme quantidade de árvores, naturais ou cultivadas, o consumo de frutas frescas não era comum entre a “gente de bem”.

Com a mistura do produto mais precioso – o açúcar branco – nos abacaxis, abóboras, laranjas e mamões, em forma de compotas, doces secos ou em calda, revelou-se uma maneira original de conservar as frutas em clima tropical, assim como introduzir, de modo adocicado, novos sabores a um paladar ainda saudoso dos seus doces feitos à base de ovos, farinha de trigo, canela e castanhas”.

Na literatura, Monteiro Lobato retratou através da personagem Tia Anastácia. Chamada pela boneca Emília, de “fada dos doces”, a emblemática quituteira. A cozinheira do Sítio do Pica-Pau Amarelo é uma profunda conhecedora dos sabores e das tradições populares do Brasil. Nas grandes ocasiões, Anastácia presenteava a turma com seus bolinhos de chuva. Biscoitos assados e com a geleia feita com as jabuticabas plantadas no quintal.
Saindo dos quintais das fazendas e indo para as montanhas geladas da China. Há cerca de 3 mil anos um cozinheiro do palácio real inventou uma mistura de neve das montanhas, suco de frutas e mel que deveria ser servida ainda gelada. Nascia assim o sorvete.

No Brasil, a história do sorvete teve início com a chegada de um navio norte-americano vindo de Boston. Que aportou no Rio de Janeiro em 1834. Com algumas toneladas de gelo, que tinham de ser conservadas envoltas em serragem. E enterradas em grandes covas. A partir daí, as frutas, antes presentes nas geleias. Compotas e bolos fumegantes mostraram-se certeiras para a produção dessa sobremesa gelada. Há uma curiosidade atrelada ao sorvete e ao movimento de liberação feminina no Brasil; antes da chegada dessa iguaria de luxo, na época, as confeitarias, bares e cafés do país eram restritas aos homens.

As mulheres, porém, a pretexto de saborear a novidade. Lançaram-se contra os paradigmas sociais da época. Invadindo as confeitarias em busca dos gelados. Tornou-se costume ver as moças ricas transitarem pela antiga capital. Em direção à igreja para ouvir música religiosa, “tomar sorvete e conversar com os rapazes”. Como relata Gilberto Freyre em seu livro Açúcar. – Uma Sociologia do Doce, Com Receitas de Bolos do Nordeste do Brasil. Com tudo isso, ao contrário do que muitos dizem, a vida é dulcíssima; tem pimentão doce, vinho doce, doce cheiro de sândalo, caldo agridoce, azeite doce, doces acordes, doces lembranças, doce beijinho, beijinho doce, doces… doces.
Parece difícil de acreditar que, com tantos argumentos para adoçar a vida, haja quem prefira torná-la insípida.

Texto: Alessandra Nascimento

Fotos: Banco de imagem

Vinho RoséPowered by Rock Convert