filtro de papel“A melhor maneira de aproveitar a vida é bebendo um bom café”, dizia o escritor inglês Jonathan Swift (1665-1745). Mas, numa certa manhã de 1908, o café não parecia bom para a alemã Melitta Bentz. Nascida Amelie Auguste Melitta Liebscher, na cidade de Dresden, em 1873, e casada com o comerciante Hugo Bentz, Melitta parecia ser uma mulher prática. Insatisfeita com o sabor amargo do café e com a borra desagradável que restava no fundo da xícara, a esperta dona de casa decidiu fazer mais uma de suas experiências.

Primeiro, fez furos num caneco de latão. Pegou uma tampa e também fez furinhos nela, para que o café fosse distribuído de maneira homogênea sobre o caneco. Depois, para que o café que seria passado ali ficasse límpido, Melitta teve outra ideia: apanhou um pedaço de papel mata-borrão do caderno de seu filho mais velho, Willy, cortou-o sob medida, colocou-o no caneco de latão e tampou o caneco.

Nascia ali o filtro de papel, que futuramente levaria o nome de sua criadora e mudaria para sempre o jeito de coar café em todo mundo. Sua primeira experiência foi um sucesso: o café passado no caneco de latão com filtro saíra sem borra. O artefato se transformaria nos protótipos do filtro e porta-filtro de papel que, por sua vez, originariam uma das empresas mais conhecidas no mundo do café, a Melitta. A história, contada no livro comemorativo O Centenário da Melitta, mostra como o produto também não foi aceito de maneira imediata.

O pequeno empreendimento de filtros de papel começou na sala do apartamento da família Bentz. Para alavancá-lo, Melitta contratou um latoeiro para fazer os potes, agora de alumínio, que serviriam para filtrar o café.
Para melhorar a absorção das partículas do pó de café, Bentz substituiu o papel mata-borrão por um de fibras mais porosas.

No início, seus dois filhos, Willy e Horst, eram responsáveis pelas entregas nas redondezas. Mas não era tão fácil vender um produto que ninguém conhecia: assim, a melhor maneira de ganhar clientes era demonstrar pessoalmente o funcionamento da nova invenção. Das demonstrações de porta em porta, o casal passou a demonstrar o método de coar café nas grandes feiras e exposições comuns à época. No ano seguinte ao da invenção, Melitta e Hugo Bentz venderam 1.250 porta-filtros na feira em Leipzig.

Na Alemanha daquela época, o café já se tornara um hábito cotidiano. Os grãos de café, torrados e moídos, costumavam ficar em infusão e só depois eram filtrados, geralmente em coadores feitos de pano, os quais permitiam que, junto com a bebida, passassem também as partículas do café, deixando uma borra no fundo da xícara. No começo da preparação de café, a regra era colocá-lo moído na água e deixar ferver.

Isso era um princípio mais relacionado à saúde do que ao gosto, pois ferver a água – geralmente contaminada – era uma maneira de evitar doenças.
Mais tarde descobriu-se, porém, que o sabor do café ficava melhor quando se adicionava a água ao pó depois de fervida. A ideia do filtro de café era fácil de ser copiada.

Por isso, em junho daquele mesmo ano, o casal Bentz patenteou a invenção. Mesmo assim, em 1925, uma firma de Leipzig lançaria filtros de papel no mercado alemão. Em Berlim, um fabricante colocaria à venda um novo filtro, o “Filtro-Relâmpago”, com formato de um funil, tecnologicamente mais avançado. A estratégia para minar a concorrência foi simples: no início dos anos 1930, a empresa da família Bentz comprou a fábrica que produzia o Filtro-Relâmpago. Assim, em 1932, o filtro original Melitta, em forma de disco, passa a ser cônico e com ranhuras internas.

O novo formato aumentava a superfície de contato e fazia com que o café passasse mais rápido – e rapidez parecia ser a palavra de ordem para as donas de casa daquela época, que eram motivadas a realizar suas tarefas da maneira mais eficiente possível. Poucos anos depois, o porta-filtros passaria a ter apenas um orifício de passagem para a bebida, como o conhecemos até hoje.

Além disso, a mudança do formato redondo para o cônico parecia ser uma resposta a outras questões. Nos contextos de crise, como nos anos que se seguiram à quebra da bolsa de 1929, outros produtos funcionavam ou como substitutos do café ou como ingredientes de sua composição, como a chicória e os cereais torrados, que eram misturados ao pó de café. Esses produtos acarretavam problemas nos filtros arredondados, entupindo facilmente os orifícios de passagem da água. O material dos porta-filtros também mudaria ao longo dos anos. Já em 1918, a Melitta introduziria porta-filtros de louça e de porcelana, eliminando o sabor metálico residual na bebida do material previamente utilizado.
Mais durável e mais barato, o porta-filtro de plástico surgiria na década de 1960.

A partir dos anos 1980, na onda da consciência ambiental, surgiriam os filtros de papel não alvejados com cloro, e os filtros de papel contendo fibras de bambu em sua composição. Outros desenvolvimentos do filtro de café viriam décadas depois da invenção de Melitta Bentz. Um deles é o Hario V60, criado há alguns anos pelos japoneses. Trata-se de um similar ao porta-filtros convencional, mas com algumas pequenas diferenças. A primeira delas são os sulcos em espiral na parte interna, que conduzem melhor o fluxo de água que passa pelo café moído.

A segunda é uma abertura inferior maior do que as dos suportes de filtro tradicionais, para a saída da bebida. A combinação destas características produz uma xícara de café mais limpa na boca. O Hario V60 tem versões em acrílico, cerâmica e vidro, e um filtro de papel específico, de formato também cônico. Atualmente, é um dos gadgets indispensáveis para os aficionados por café.

Outra criação recente são os filtros permanentes. Em formato cônico ou circular, que se adaptam, ainda, a diferentes cafeteiras. São finas tramas feitas em inox. E, em alguns casos, até banhados em ouro. O que lhes dá ainda mais durabilidade. Como são permanentes, têm o apelo ambiental, embora custem mais caro. E vêm sendo adotados pelos apreciadores de café coado. Especialistas garantem que os cafés feitos com esse tipo de filtro têm maior complexidade. E são mais vivazes do que feitos em filtros de papel. Uma das melhores invenções dos últimos anos, que se utiliza de filtros de papel, chama-se Aeropress.

A engenhoca foi criada em 2005, pelo engenheiro mecânico Alan Adler. Dono de uma empresa de brinquedos esportivos que também inventou o Aerobie. Uma espécie de frisbee em formato de anel, que foi um tremendo sucesso de vendas. A Aeropress é uma espécie de seringa gigante; nela, o café moído, misturado com a água fervida em separado. É pressionado pelo êmbolo e extraído através de um filtro de papel pequeno e circular, disposto em sua base.

A combinação de filtragem rápida e pressão ajuda a extrair os óleos essenciais do café e seus açúcares. E evita a extração prolongada da cafeína, que confere sabor amargo à bebida.
Melitta Bentz mudou o modo de se preparar o café no início do século 20. Cem anos depois, fanáticos pela bebida em todo o mundo ainda utilizam seu método. E não deixam de agregar a ele novidades constantes.

Texto: Cris Couto

Fotos: Banco de imagem