Revista Sobremesa
Texto: Pedro Javier Díaz-Cano
Fotos: Manuel Vill

Napoleão Bonaparte orgulhava-se ao dizer que chegava a sua pequena pátria pelo aroma de mil flores de maquis. Formação vegetal característica da ilha a qual os gregos chamaram Kallisté, “a mais bela”. Do mesmo modo, César, quando pisou em Córsega pela primeira vez, exclamou com seu sotaque impregnado do sol mediterrâneo; “é necessário estar insano para ir ao fim do mundo procurar o que temos ao nosso alcance! Aqui tudo é fascinante”.

PIGNA_02A orografia acidentada contribui muito para que a ilha receba tantos elogios, pois tem um visual diferente das outras do Mare Nostrum: é mais agreste, escarpada e áspera. As montanhas, com seus 1.700 picos, que oscilam entre 300 e 2.710 metros de altitude, conferem lhe um caráter firme e nobre, razão pela qual era chamada pelo geógrafo alemão, Ratzel, de “montanha no mar”.

Córsega reúne todos os ingredientes para ser saboreada com os cinco sentidos, na imensidade de sua beleza. Em Córsega, além da visão, do ouvido, do tato e do sabor, é o sentido olfativo que nos derruba a seus pés. Com seu manto de matagais e arbustos, tão impenetrável como uma mata tropical – entrelaçam se zimbros, mendronheiros, giestas espinhosas, madressilvas, urzes, lavandas e orquídeas – na primavera, desprende uma fragrância embriagadora cuja atmosfera converte Córsega na ilha dos mil e um perfumes.

CARÁTER INDOMÁVEL
AJACCIO_01Desde a mais remota antiguidade, Córsega sofreu contínuas invasões por estar localizada na encruzilhada marítima do mediterrâneo. Foi subjugada por ibéricos, etruscos, gregos, fenícios, cartagineses, romanos (esses últimos, rebatizaram-na com nome de “Corsica”), vândalos, bizantinos, lombardos, árabes, aragoneses, pisanos, genoveses, ingleses e.. franceses, seus atuais proprietários que, em 1768, compraram a ilha dos genoveses.

Não há dúvidas de que seus invasores não conseguiram submeter essa ilha, pois os corsos sempre se caracterizaram, assim como sua terra natal, por sua altivez e orgulho indomável. No caráter corso, está arraigado um temperamento tipicamente mediterrâneo, muito latino, mas que não prescinde de uma personalidade própria. Zelosos de sua independência, possuem um sentido de honra quase siciliano, mas em seu perfil, destacam-se traços de cavalheirismo, nobreza e culto à autoridade paterna. A família, presidida pelo patriarca, é modelada e conduzida pela mãe, sendo esta, o pilar básico sobre o qual se sustenta a sociedade. Vale uma citação de Stendhal para resumir esse jeito de ser: “(…) São, em suma, corações ardentes que, para sentir a vida, necessitam amar ou odiar apaixonadamente. ”

AZEITE DE OLIVA, QUEIJO E VINHEDOS
A paisagem abrupta é o que dá personalidade à Córsega profunda, que devemos explorar até o mais íntimo da ilha. Não sem razão, a população de pescadores da ilha, cansada das invasões, recluiu-se no interior e se reciclou, dedicando-se à agricultura e ao pastoreio. Córsega não conseguiu submeter-se ao trem da modernização do século XIX, e sua economia se sustenta, eminentemente, no setor agropecuário, mesmo que a entrada de divisas, em virtude do turismo, seja, hoje em dia, a mais relevante.

O azeite de oliva, o queijo (cuja parte da produção é enviada para Roquefort, para elaborar seu famoso queijo “azul” de intenso sabor), o fumo, os embutidos e o mel são artigos de exportação em ascensão. O mais puro espírito de Córsega se encontra em Corte, que foi capital da república independente, aproximadamente no ano de 1755. Aqui, foi onde Pasquale Paoli, pai dessa pátria, redigiu a primeira constituição democrática do mundo. Corte é encantadora, um povoado vivo, onde as crianças brincam até tarde da noite, quando faz tempo bom. O passeio pelas alamedas Paoli e Gaffori é delicioso e termina em um mirador da cidade, situado no topo de um penhasco a partir do qual se tem uma impressionante vista panorâmica, deixando aos nossos pés, dois lugares, de enorme beleza, que ladeiam a vila.

De um lado, o vale de Restonica, que nos leva ao lago glacial de Melo e de outro, as impressionantes gargantas do rio Tavignano. A propósito dos costumes, o canto coral remonta a tempos imemoriais. As polifonias corsas ajudaram a difundir e expressar toda a autenticidade dessa terra mundo afora (com a contribuição de Muvrini, Petru, Guelfacci, Jean-Paul Poletti, Patricia Poli e outros). As paghjellas são melodias peculiares, muito ancestrais, que se cantam a três vozes a capela, ou seja, sem acompanhamento musical. A cada ano, os laços entre os artistas da ilha e seus vizinhos se estreitam cada vez mais, graças ao festival de canto Festvoce, que se celebra na primeira quizena de julho no pitoresco povoado de Pigna, um marco tão evocador quanto a própria região de Balagne.

AJACCIO, A PEQUENA PÁTRIA DE NAPOLEÃO
CALVI_05Ironicamente, foi um corso, Napoleão Bonaparte, quem arruinou o sonho de independência de Córsega e a devolveu para a sua “mãe adotiva”, a França. Nascido em Ajaccio, em 15 de agosto de 1769, o “Grande Corso”, rompeu qualquer possibilidade de autonomia da ilha com seu afã de criar um império que chegou a abarcar boa parte da Europa. Não faltam aqueles que peregrinam pelos mesmos lugares onde o herói francês passou sua infância. Existem várias estátuas do imperador pelas praças. Também é possível visitar sua casa natal, assim como os salões napoleônicos do Hotel de Ville (atual edifício da prefeitura).

No entanto, o maior encanto de Ajaccio é passear pelo bairro antigo e comprar produtos regionais no mercado central que se instala, todas as manhãs, na Plaza de la Marina. E se falamos de traços de identidade de Córsega, além das torres, pontes e cidades legadas pelos genoveses, temos de citar a árvore emblemática dessa ilha: a castanheira. Ela dá nome a região de Castagniccia. Durante séculos, os frutos da castanheira foram a base alimentar de seus habitantes e de rebanhos de porcos, além de prover, com sua madeira, a fabricação de móveis e tonéis. Para maior desfrute da ilha durante o verão, entre as praias recomendadas devem estar as de Santa Giulia e Palombaggia (a 7 e 12 quilômetros, respectivamente, de Porto Vecchio) ou o paradisíaco areial de Saleccia, no setor litoral oriental do deserto de Agriates, ao norte da ilha.

Nesta última, frequentada por nudistas, foram filmadas as cenas do filme The Longest Day, de 1962. Qualquer visita à Cósega, pode dar-se por completa ao avistar o golfo de Porto, a partir da enseada de Ficajola. É o momento no qual rememoramos uma frase anônima e famosa, por aquelas terras, que diz: “Ver Córsega e morrer.” Das primordiais castanhas aos vinhos Muscat du Cap Corse, não se pode voltar de Córsega sem haver experimentado os embutidos ligeiramente defumados tipo lonzu (lombo de porco) ou copa (pescoço); os genuínos queijos brocciu (queijo branco fresco que é utilizado também para rechear massa e preparar uma sobremesa como o fiadone (à base de brocciu e limão) ou a falculella – doces típicos elaborados com farinha de castanha.

A gastronomia corsa se sustenta na trilogia mediterrânea: azeitona, cereal e vinho, ampliada pela utilização da castanha. Não se pode esquecer o que disse, Pascale Paoli, o pai da pátria corsas: “Enquanto tivermos castanhas, teremos pão. ” Ao que teríamos de acrescentar, a deliciosa torta de castanha. Alguns pratos típicos são o aziminu, uma variedade da bouillabaisse de peixe (sopa de peixe e marisco que se serve sobre pão), e o javali acebolado. Quanto aos vinhos, dizem que foram os gregos que introduziram os vinhedos em Córsega há, aproximadamente, 2.500 anos. A denominação entre “vinhos de Córsega” se aplica ao essencial da produção da costa oriental de Aléria, destacando também os excelentes vinhos doce Muscat du Cap Corse, ideal para aperitivo.

AGENDA
Onde ficar
Ajaccio. Hotel du Golfe (***). Boulevard du Roi-Jérôme, 5. Tel. 214 764. Com vista para o porto e de frente para o mercado central.

Porto-Vecchio. Hotel Castell´Verde (***). Baía de Santa Giulia-BP 24. Tel. 707 102. Situado estrategicamente a 8 quilômetros ao sul do Porto-Vecchio. Encontrase em uma bela baía que oferece a possibilidade de praticar esportes náuticos.

Calvi. Hotel Le Magnolia (***). Rue Alsace Lorraine (Place du Marché). Tel. 651 916. Um casarão com somente 12 quartos – todos eles com nomes que fazem referência à literatura.

Onde comer

Ajaccio. Le 20123 (Rue Roi de Rôme, 2) e La Plage d´Argent (Verghia, Plage de Mare e Sole). Île-Rousse. (Promenade A Marinella;). Para comer peixe fresco na beira da praia. Calvi. Calellu (Quai Landry – Port Landry;). Na marina.
Tradicional culinária marinha onde se dá evidência à matéria-prima local.
Lumio. Le Matahari (Ondari Soprane;). Cozinha criativa e moderna, com pratos como a salada niçoise (típica de Niza), as sardinhas ao brocciu e de sobremesa, o tiramisu.
Mais informações: Atout France.