É curioso como hoje em dia continuamos falando, dentro do universo enológico, de vinhos do Novo e do Velho Mundo. Mas considero que, na atualidade, ambas as expressões são, no mínimo, antiquadas e de aparente semântica neocolonial. Por outro lado, é verdade que, hoje em dia, são utilizadas genericamente para definir dois grandes grupos de regiões vitivinícolas.

Os vinhos do Velho Mundo

Os vinhos do Velho Mundo constituem a produção da Velha Europa. Composta pela França e a Itália na frente, e Espanha, Portugal e Alemanha, além de outros produtores de seu entorno. Esse grupo conta com mais de 2.000 anos de tradição vitivinícola. Ali, o vinho é parte do dia a dia, de modo que sua cultura funde-se com o cotidiano das regiões vitivinícolas, convertendo-se em uma peça imprescindível do coletivo. Basta aproximar-se de qualquer região vitivinícola na Europa, para viver tais sensações.

Do outro lado, encontramo-nos com os denominados vinhos do Novo Mundo. Lá, não podemos identificar um líder, mesmo sendo a Austrália o país que, durante décadas, mais barulho fez – claro que com a permissão do resto dos grandes: Argentina, Chile, África do Sul, Estados Unidos e a Nova Zelândia. Estes países, com somente 500 anos de viticultura nas costas, contraem um menor peso histórico, por culpa do conceito mal interpretado de tradição – como se 500 anos não fossem tempo suficiente para ter tradição.

Embora entendamos que a origem do conceito é antiquado – um pouco, pelo menos – ele acaba sendo crucial para a interpretação de dois estilos muito diferentes de vinificação. Talvez não sejam mais que matizes, porém, a meu ver, as principais chaves para entendermos essas duas correntes vitivinícolas estão nas regulamentações administrativas e na interpretação do conceito de “terroir” – fruto de uma prolongada tradição e conhecimento de seu entorno e de seus vinhos.

Hoje em dia, podemos encontrar estilos similares de vinhos. Com varietais idênticos em qualquer dos dois mundos. E isso sim é preocupante – que a globalização converta-se em uma estandardização. Por isso, é importante colher o melhor de cada um desses mundos, para poder fazer os melhores vinhos e facilitar o acesso dos consumidores a eles.

O Velho Mundo

O nome “velho” é perfeito, porque assim é a Europa: velha, e não antiquada. Obviamente, seria um erro acreditar que tudo o que é novo é bom, e tudo o que é velho é ruim. O que o Velho Mundo aporta para a viticultura é muito mais que tradição. É um modelo de ordem, controle, conhecimento de origem do vinhedo, cuja máxima expressão se alcança graças ao renomado “terroir”.

É verdade que o Velho Mundo está cheio de normas, regulamentações e controles, que ordenaram de maneira milimétrica uma viticultura e uma enologia ocasionalmente com classificações complexas para o entendimento dos amadores. Os vinhos europeus pareciam dirigidos exclusivamente a uma casta superior de entendidos de vinho, acompanhados por um linguajar complexo e altamente especializado, que dificultava o acesso aos neófitos. Mas, em algumas ocasiões, por trás desse rebuscado estilo, só se encontravam vinhos singelos e defeituosos, maquiados com palavras grandiloquentes e histórias que buscavam preencher o vazio deixado pelo protagonista – o próprio vinho.

E tudo isso por quê? Devemos entender que o Velho Mundo não é somente uma localização geográfica unida a 2.000 anos de história, mas também uma atitude prática, uma somatória de valores, entre os quais se encontra o vínculo ancestral ao vinhedo, geração após geração. Quer dizer que o mais importante para um produtor do Velho Mundo, na hora de definir um vinho, é saber de que terra ele provém, qual é sua origem e, portanto, que implicações isso terá. É por isso que a maioria dos vinhos europeus exibe com clareza e orgulho a origem de suas uvas e, em segundo lugar, talvez, o varietal. A uva também é importante, ou, melhor dito, determinante. Porém, mais do que a uva em si, aquilo que se busca é a influência e a interação do terroir com a variedade plantada, que a fará única e singular.

Quando nos encontramos frente a uma garrafa europeia de vinho de certa qualidade; a ordem da informação em seu rótulo é geralmente a seguinte: primeiro, a sua origem; em seguida, provavelmente, a parcela (se é que se destaca em qualidade); e por último, continuará com a variedade (esta nem sempre aparecerá). Sempre observaremos que o mais importante será a sua origem, porque é onde a viticultura adquire seu verdadeiro valor, muito mais que o produtor ou o varietal. Há que se fugir daqueles vinhos do Velho Mundo onde não aparece, com clareza, a origem das uvas. Essa é a chave, a meu ver, da viticultura do Velho Mundo: a compreensão, a análise e a interpretação das singularidades que aportam uma parcela concreta a um vinho. E, é claro, isso não é ruim, mas sim, fruto da passagem do tempo, do conhecimento e de superação dos erros do passado.

O Novo Mundo

O Novo Mundo foi originalmente uma entidade produtora. Cuja realidade legislativa facilitava a exploração e o conhecimento de novos territórios agrícolas e enológicos. Isso lhe trazia certa vantagem frente ao modelo do Velho Mundo; e abria novas portas para a enologia que estava ancorada no século passado, por grande parte dos produtores europeus.

O Novo Mundo soube produzir vinhos acessíveis e compreensíveis. Que comunicavam, de forma simples, o que o consumidor estava a ponto de degustar; um varietal, uma marca, uma etiqueta, um país sem fronteiras nem histórias do passado que pudessem confundi-lo. Um vinho sem enfeites, um vinho autêntico. Este modelo vitivinícola, que na origem parecia perfeito, foi se derivando, fruto da obsessão em rentabilizar o processo e do apetite por satisfazer o gosto do consumidor, unido a normativas, em muitos casos, inexistentes.

Ninguém gosta da ideia da imposição de normas quando, até então, fez o que foi considerado oportuno para elaborar seus vinhos. Até porque são normas que, em muitos casos, foram criadas por administradores alheios à realidade do setor, convertendo a sua articulação em uma camisa de força, que condiciona seu desenvolvimento de maneira natural. Mas a realidade é outra no mundo do vinho: como em outros setores, existe um mundo real, onde a inexistência de normas facilita que a personagem com menos valor ético abuse do controle. E é assim que uma ideia pura em origem, a qual tem por objetivo avançar, explorar, experimentar e aprender, vai paulatinamente se desvirtuando. E como já ocorreu no Velho mundo, alguns acabam se aproveitando desse vazio administrativo para fazer como quiser.

Também é verdade que as coisas mudam e, progressivamente passam a ser tomadas como referência, modelos das normas e regulamentações existentes na Europa, que levam anos sendo consideradas e implementadas no Novo Mundo. Trata-se de um claro passo na direção da proteção de suas regiões vitivinícolas, já que é evidente que os tempos onde tudo valia para o Velho e o Novo Mundo acabaram.

Com qual você fica?

Bem, possivelmente você ficará com um pouco disso e um pouco daquilo, caso seja um enólogo inquieto, com vontade de experimentar e avançar. Sem dúvida, o modelo do Novo Mundo me atrai mais, por ser mais aberto. Porém, temos que entender que a elaboração de vinhos precisa ter um objetivo claro, uma produção em busca da satisfação do cliente, através de produtos atraentes e com garantias.

É necessário que o viticultor e o enólogo decidam onde cultivar as uvas. Quais variedades e qual estilo de vinho elaborar. Deve-se ser livre na hora de tomar decisões importantes. Mas também deve-se facilitar a regulamentação desses aspectos com objetivos claros. Para que a viticultura seja sustentável economicamente no tempo; não podemos esquecer que trata-se de um cultivo de ciclo longo (25 a 50 anos). E que o consumidor, ao adquirir uma garrafa de vinho, deve ter garantias de que esteja comprando um produto de qualidade. Adaptado a seu gosto. É esse equilíbrio entre produtor e consumidor que as normas devem articular; a fim de proteger os dois lados.

Curiosamente, as coisas estão mudando e estamos aprendendo uns com os outros. Bendita globalização, neste caso. Por um lado, os produtores do Velho Mundo simplificam os rótulos e destacam a variedade com a qual se elaborou o vinho. Para facilitar a compreensão por parte do consumidor que não deseja complicações na hora de eleger um vinho. E quer ter somente os conceitos básicos em sua mente; para facilitar essa eleição. Já por outro lado, os produtores do Novo Mundo; viram como o conhecimento de seu entorno e de seu terroir ajudam a expressar as diferentes características e singularidades de suas uvas; classificando as regiões vitivinícolas e aplicando normas que garantam a origem dos vinhos. Assim como fizeram anteriormente os do Velho Mundo.

A chave está em conhecer o vinho pelos seus matizes; sua personalidade; sua singularidade. Não pelo seu varietal nem pelo lugar onde se colheu. Mas sim pelo resultado da união dessas variáveis. Como exemplo, podemos citar um Malbec, da Argentina, ao qual, de maneira geral, ninguém colocaria um sobrenome internacional. Simplesmente é isso. Um Malbec da Argentina mais ou menos saboroso. Mas, se na mesma equação introduzirmos mais dados, como por exemplo; a Indicação Geográfica Mendoza, da zona de Tupungato, certamente falaremos de um Malbec argentino com características bem diferentes de outro. Por exemplo, da região de San Juan, ou Salta. E isso não o torna melhor nem pior, mas simplesmente diferente.

No fundo, trata-se de fugir da globalização. Oferecendo ao consumidor ferramentas que permitam que ele conheça e desfrute de vinhos. Escapando de terminologias, para aprender com os erros e os acertos de ambos os mundos vitivinícolas.

Texto: Alberto Pedrajo

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