Em abril de 2014, a Sotheby’s leiloou, em Hong Kong, uma xícara da dinastia Ming com mais de 500 anos de idade. A notória peça, denominada “copo de frango”, exibe um galo, uma galinha e seus pintinhos num jardim florido, mede 8 cm de diâmetro e foi arrematada por U$ 36,05 milhões. Não se discute o valor artístico ou histórico do artefato, mas nos faz pensar se algum líquido servido nela ganharia sabor sobrenatural e nos transportaria para uma nova dimensão.

Muita gente parece não se importar em tomar seu habitual cafezinho no copo americano da padaria, no descartável do escritório ou mesmo numa caneca de plástico pega às pressas na cozinha, com o logotipo do Superman gravado. No entanto, uma considerável parcela nem cogita abrir mão da xícara – mesmo lascadinha –, pois ela não só ajuda a manter a bebida quente, como a preservar suas qualidades gustativas e aromáticas, prolongando o prazer que um bom café, chocolate ou chá proporcionam.

A xícara faz parte da história da civilização e até permite pontuar o período e o lugar em que vivemos, a exemplo de outros utensílios vinculados ao preparo ou consumo de comida. Muitas vezes, essas engenhocas têm função meramente decorativa, mas também podem nascer por uma questão de sobrevivência. Foi provavelmente isso que ocorreu com os recipientes ancestrais concebidos para acondicionar alimentos de consistência bebível. De início, feitos em pedra, madeira ou cabaças trabalhadas, foram substituídos ainda na Pré-História pela cerâmica, o material artificial mais antigo fabricado pelo homem.

Entre os vasos de barro de 10.000 anos, e passando pelas tigelas com alças da Grécia xicaraAntiga, um bom tempo transcorreu até que a xícara começasse a ganhar asas. Tal fato está intimamente ligado à chegada do chá ao Velho Continente, no século XVII, vindo do Oriente de mãos dadas com as porcelanas chinesas e japonesas. Na época, a maioria dos povos orientais tomava suas infusões diretamente dos bules ou em tigelas (bowls, segundo os ingleses). Por seu lado, as canecas e jarras europeias de vinho e cerveja mostravam-se inadequadas para as novas bebidas, que deveriam ser apreciadas bem quentes e em pequenas doses. Não demorou muito e logo surgiram as primeiras xícaras sem alça. Também foi mais ou menos por aí que os espanhóis importaram a palavra xikáli (“vasilha de umbigo”) do náuatle, língua nativa asteca, convertendo-a para o castelhano jícara.

Na sua aurora, a xícara era confeccionada preferencialmente em porcelana e prata, com designs específicos para chá, café e chocolate, até então um privilégio dos nobres e abastados. Mas um problema persistia e incomodava: pessoas queimando os dedos. Isso seria resolvido para sempre em 1750, quando o arquiteto inglês Robert Adam sugeriu ao seu amigo e ceramista Josiah Wedgwood que incluísse alças nas laterais: estava criada a xícara como a conhecemos. Nove anos depois, Wedgwood (que viria a ser avô de Charles Darwin) fundou uma fábrica de peças de porcelana e faiança que prospera até os dias de hoje. A louça inglesa, aliás, tornou-se um ícone da Era Vitoriana, objeto de desejo em cristaleiras, aparadores e museus.

A popularização da xícara; e consequentemente do chá e café. Ganhou impulso com a evolução da cerâmica ao longo do século XVIII. E que popularização! Atualmente, são consumidos na Inglaterra 60 bilhões de xícaras de chá ao ano. No Brasil? Em torno de 260 bilhões de xícaras de café. A maioria delas vem acompanhada de seu respectivo pires e tem fundo plano. Mas existem variedades com pezinhos. Além das tradicionais argila, cerâmica e porcelana, são produzidas também em vidro reforçado, plástico, aço inoxidável e até pedra-sabão. Há versões japonesas sem alça e modelos mais funcionais, outras revestidas de ouro e raridades disputadas dólar a dólar por colecionadores.

Apesar dessa enorme diversidade e distinção material, em termos rituais e socioculturais as xícaras guardam semelhanças na simbologia. Independente da geografia. Significam hospitalidade e amizade; o prazer da companhia; o aquecer e o compartilhar; estão presentes em visitas e reuniões corporativas, nos fins de festas e refeições, no café da manhã, no chá da tarde ou no chocolate da noite. Mas o que talvez iguale com maior precisão todas as xícaras do mundo é a sua função medidora. Em meados do século XIX, elas suplantaram totalmente os sistemas volumétricos vigentes na cozinha. E hoje quase toda receita grafada e repassada, da Índia à Austrália, pede uma xícara (de chá) disso ou daquilo.

xicara2Com os avanços tecnológicos; este simples utensílio doméstico invadiu outras esferas do conhecimento humano. Virou um grande chafariz na Praça da Xícara; atração turística de Paranavaí; e personagem na animação “A Bela e a Fera” da Disney. Inspirou uma ação publicitária para divulgar “Harry Potter e as Relíquias da Morte”. Colocaram o livro sobre mesas de lojas e em cima dele, uma xícara cuja colher girava sozinha. E foi até protagonista de uma homenagem a Steve Jobs. Quando o designer croata Tomislav Zvonarić criou o iCup, protótipo com o formato do logotipo da Apple, que se mantém aquecido via USB.

Na medida em que as sociedades se transformam, seus produtos também se sofisticam. Com a xícara não é diferente. Seja através de motivos vintage; canecas térmicas; xícaras moderninhas ou copos padronizados de franquias. Tudo originou-se de um hábito secular que ainda conecta o mundo, os amigos e negócios, as sensações e reflexões. Quer saber como será a do futuro? Peça para um especialista ler as folhas de chá ou a borra do café que estiverem no fundo de sua próxima xícara.

Texto: Fábio R. Angelini

Fotos: banco de imagens