Enquanto Moscou segue firme e forte registrando os maiores engarrafamentos do mundo, um turista italiano recém-chegado à Cumbica observa, ao longe, a ponta de uma árvore de natal muito alta, sem saber que ela foi construída com 5.580 garrafas PET. Enquanto o belga, Oliver Vandevalle, recebe via Facebook uma resposta à sua mensagem, 33 anos após lançá-la ao mar dentro de uma garrafa, um abastado colecionador arremata por R$ 1,7 milhão a vodca escocesa, Diva, tridestilada e filtrada em areia fina de diamantes e pedras preciosas. Joias também adornam o interior da extraordinária garrafa.

Apesar de não se conhecer de forma precisa onde nem quando surgiram as primeiras garrafas da história, pistas indicam que elas têm possivelmente mais de 3.500 anos, foram confeccionadas em barro e transitavam, de início, entre os egípcios. A própria palavra parece ter origem no árabe karafâ, “frasco bojudo”.

Conchas, crânios de inimigos, chifres, bexigas de animais, troncos ocos e outros materiais ofertados pela natureza já foram utilizados pelo homem como recipientes para transportar ou armazenar líquidos, mas foi nas garrafas de todos os tipos, cores, formas e volumes – especialmente as de vidro – que se encontrou a embalagem mais nobre e adequada para bebidas, perfumes e óleos. Embora alguns historiadores atribuam a descoberta do vidro a mercadores ou navegadores fenícios, pesquisas arqueológicas indicam ser uma invenção anterior: o fragmento mais antigo que se tem notícia é um amuleto de vidro em que está escrito o nome de Antef II, faraó da 11ª dinastia.

Impermeável, higiênico, inerte, formatável, durável e infinitamente reciclável, o fato é que o vidro mostrou-se a matéria-prima ideal para guardar, exibir e carregar vinhos, uísques, cervejas, aguardentes, azeites, essências, remédios e outros líquidos. Mesmo com todas essas superqualidades, o vidro não é invulnerável e todo cuidado é pouco numa eventual queda: ao se quebrar, suas partículas de sílica espalham-se a uma velocidade de quase 5 mil km/h.

As garrafas de vidro começaram sua jornada por volta do ano 100 a.C., na Síria. Com a criação do método do sopro, que permitia dar a forma que se desejasse àquele novo objeto. Ao longo dos séculos, essa técnica aprimorou-se e tornou-se imortal nos lábios dos artesões da ilha de Murano, a partir de 1200. O homem da Idade Média, entretanto, nem pensava no vidro para portar líquidos. Para ele, o material era caro e frágil demais. Mais comum era topar com miniaturas contendo licores raros e perfumes. Na Alemanha do século XV, a preferência era pelas garrafas de madeira e metal, e na Europa toda, de maneira geral, as vasilhas de pele e os odres reinavam nas mesas dinásticas, plebeias e burguesas.

O que é impossível é separar a popularização e a adoção definitivas do vidro da própria história moderna do vinho. Ao se perceber as virtudes da rolha de cortiça como tampa e a evolução dos vinhos assim preservados, não houve mais volta. As garrafas de vidro assumiram o posto que ocupam até hoje. Ao final do século XVII, a Revolução Industrial trouxe consigo fornalhas mais potentes. Primeiro na Inglaterra, capazes não apenas de produzir um vidro mais duro e resistente, mas em série. O fundo protetor de palha, então presente nas tradicionais garrafas de Chianti, de soda e certos espumantes, ficou obsoleto. E, mais ou menos nessa mesma época, nasceram o Champagne; os grandes Châteaux de Bordeaux e os vinhos do Porto.

Sempre foi assim, a trajetória do beber e do comer ditou o desenvolvimento dos nossos utensílios. A produção artesanal, que rendia duas garrafas por minuto até o fim do século XIX; saltou para mais de 600 unidades quando, em 1903, o americano Michael Owens inventou a primeira máquina automática. Que soprava a garrafa de vidro usando ar pressurizado. Um pouco antes disso, em 1894, era feita a primeira garrafa de Coca-Cola do mundo. No Mississipi, quase ao mesmo tempo em que o físico-químico, James Dewar, apresentava a garrafa térmica.

A evolução das embalagens está tão relacionada às necessidades de transporte e armazenamento; quanto ao estágio tecnológico vigente. Com a invasão do politereftalato de etileno, ao final do milênio passado, há quem diga que a Humanidade vive atualmente a Idade dos Plásticos, que hoje protagonizam transformações socioambientais importantes. Pode até ser; mas por ora, não veremos Cabernet Sauvignons, maltes escoceses e cervejas belgas confinados em PET; não existe, ainda, garrafa plástica no planeta que não altere o sabor do seu conteúdo.

Texto: Fábio R. Angelini

Fotos: banco de imagens