Tivemos neste ano um dos verões mais quentes de nossa história. Para quem pôde viajar e curtir uma praia, ótimo. Para quem não teve a mesma sorte, restou o consolo do ar condicionado do escritório, da piscina do prédio nas horas vagas, do sabadão no parque aquático ou… Refrescar-se com um bom sorvete.

Ou será picolé? Ok, os dois são gelados e refrescam, mas qual é qual?

picolé

Sorvete, por definição, é aquele que chamamos sorvete de massa. O de palito é picolé. Quem é paulista pode até discordar e defender o vernáculo sorvete com unhas e dentes para ambos os tipos, mas não adianta espernear: picolé é aquele do palitinho. Aquele que, quando criança, a gente corria atrás do carrinho na praia – depois de se esbaldar no mar ou brincar na areia – gritando para o sorveteiro (ou “picolézeiro”?) esperar, enquanto pedíamos dinheiro aos nossos pais. Aquele que derretia mais rápido do que podíamos tomar. Aquele do palito que a gente fincava no topo do castelo de areia. Do palito marcado, da promoção que dava bicicleta.

Para comprovar tudo isso, vamos até as origens. Não há mais de 3000 anos, quando se produziu na China a primeira coisa parecida com um sorvete. Isso é assunto para um outro almanaque, quem sabe no verão que vem. Nossa viagem é mais curta. Afinal, o sorvete já existia quando foi criado o primeiro picolé da história.

Criado por acaso

Muita gente acredita que a palavra picolé vem de “picollo”, que é menino em italiano, e poderia muito bem ter vindo. Só que não, como dizem por aí. A coincidência começa e termina aí. Por quê? Simples: o picolé foi criado por um menino de 11 anos. E foi sem querer. Em uma noite muito, muito fria de 1905, Frank Epperson, um garoto americano de São Francisco, esqueceu um copo de suco com uma colher no quintal. A poderosa e implacável Providência fez a sua parte: pela manhã, o suco havia congelado em volta da colher, formando um gelo com sabor de fruta. Porém, Epperson não virou sorveteiro. Já crescido, ingressou no mercado imobiliário.

Só muitos anos depois de sua primeira experiência (as fontes discordam quanto às datas), é que Epperson mostrou sua receita, ao acaso – novamente o acaso – em uma festa de amigos. O suco congelado e espetado na colher acabou fazendo um enorme sucesso e, pouco tempo depois, surgia o Eppsicle, um trocadilho em referência ao nome de seu criador, que finalmente patenteou a invenção, e a palavra icicle – pingente de gelo. O nome logo mudaria para Popsicle, algo como “gelinho do papai” (pop’s icicle), que era como os filhos de Epperson chamavam o picolé.

Um ano após patentear o produto, no entanto, Epperson passou a enfrentar graves problemas financeiros e acabou tendo de vender os direitos da marca para uma companhia de Nova Iorque. O criador do picolé veio a falecer em 1983, mas seu legado gelado permanece. Ao longo do tempo, a marca Popsicle mudou de proprietário várias vezes, mas continua sendo uma das mais reconhecidas nos Estados Unidos e também no Canadá.

Delícia tropical

picoleNo Brasil, apesar do sorvete já ser moda desde 1834/35, quando surgiu a primeira sorveteria, o picolé propriamente dito só ganhou força a partir de 1941, quando a U.S. Harkson chegou ao país. A empresa assumiu os galpões da Gato Preto (fábrica de sorvetes que havia falido) e iniciou verdadeiramente a produção e distribuição industrial de sorvetes e picolés.

Em  1942 os carrinhos de sorvete e picolé da empresa começaram a tomar conta das ruas brasileiras, trazendo lançamentos como o Eski-Bon e o picolé Chicabon, que se tornaram paixões nacionais. Pelo nome dos produtos, já podemos imaginar em qual marca de sorvetes e picolés a U.S. Harkson se transformou 18 anos depois: a Kibon. Logo, novos players surgiram no mercado, e se formou o que por décadas seria a tríade dominante no mundo do picolé, com Kibon, Yopa (hoje Nestlé) e Gelato – alguém aí lembra do saudoso Fura-bolo? Ou do Gol, que vinha dentro de uma minibola de futebol? Hoje, a concorrência é maior e encontram-se diversas marcas de picolé por aí, como Diletto, Rochinha, Melona, Kopenhagen, que transformou alguns de seus grandes sucessos em picolés, e as agora famosas paletas mexicanas.

Paleta é “cult”

Sim, saborear paletas mexicanas já se tornou uma febre em locais do Brasil como São Paulo; Paraná; Santa Catarina e outros. Tradicionalíssimos em sua terra natal, os picolés quadrados são maiores do que o normal e trazem entre seus sabores, especialidades naturais e inusitadas, como hibisco; rum e tamarindo. A aceitação no Brasil foi imediata. E, hoje, já há redes de paleterias nadando de braçada nessa gelada onda. Os sabores, além dos “importados” manga com pimenta; mojito e outros inspirados em drinques mexicanos, já incluem os tupiniquins açaí, maracujá, doce de leite com coco, melancia etc.

Curiosidades geladas

  • No início de 2013, o Bloco Picolé de Manga, de João Pessoa, bateu o recorde brasileiro de maior picole de fruta: 227,1 kg, sabor manga, é claro.
  • No Guinness Book o recorde é de 1997. Uma empresa da Holanda produziu um picolé de 21 pés (aproximadamente 6,40 metros de comprimento).
  • Em 2005, na cidade de Nova Iorque, tentou-se bater o recorde dos holandeses, com um picolé de 25 metros de altura e 17,5 toneladas. Infelizmente, o sorvetão derreteu rapidamente e desabou, provocando uma verdadeira enchente de suco de kiwi e morango. O Guinness não registrou a proeza.

Texto: Paulo Samá

Fotos: banco de imagens

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