Nosso Brasil tem quase 203 milhões de habitantes, segundo o IBGE. Que todos eles são técnicos de futebol, a gente já sabia. Se alguém aí tem dúvida, basta perguntar a qualquer garçom, empresário ou taxista se ele não teria todas as soluções para a Seleção Brasileira triunfar, se estivesse sob seu comando em 2014.

Esses mesmos milhões são também farmacêuticos e médicos, vide aquela sua vizinha que não pode ver você de nariz vermelho, que já vem com uma receitinha milagrosa contra a gripe – afinal, é claro que nariz vermelho é gripe. A receita pode ser homeopática, alopática ou artesanal. Vale tudo: do comprimidinho que a prima da tia-avó da irmã da amiga dela indicou, até a beberagem milenar do tataravô xamã, cujos ingredientes foram passados de geração em geração e ela garante que é tiro e queda contra a gripe.

É, tudo isso faz parte do jeitinho brasileiro de ser. E as pessoas têm mesmo as melhores intenções ao indicar isso ou aquilo. São as tais lendas urbanas, que ninguém sabe ao certo de onde vêm, mas um repete aqui, outro ali, mais um acolá e pronto: está criada mais uma “verdade” daquelas que “dizem que…”. Até alguém questionar, dizer que provou o contrário e surgir outra.

De uns anos para cá, principalmente em função da internet e do Facebook, a culturado “sabetudismo” (termo cunhado agora mesmo) cada vez mais agrega novas disciplinas a seus conhecimentos: hoje somos 203 milhões de conselheiros matrimoniais, psicólogos, cabeleireiros, personal trainers, consultores de beleza, boa forma e qualidade de vida, além de gurus da saúde e autoajuda, críticos musicais e analistas políticos. Se você acha que é exagero, tire a prova: abra seu perfil na rede social e conte quantos segundos demora para achar uma frase digna de biscoitinho da sorte ou uma dica antirrugas. Ou até mesmo quantos banners aparecem na internet sobre um novo equipamento milagroso que fará você perder 10 quilos em 13 minutos.

Sim, o volume de informações, conselhos infalíveis e verdades absolutas é enorme, por vezes, esquisito e até hilário. Nesta coluna do Almanaque, abordamos alguns deles, com a científica e legítima curiosidade de descobrir como seria nossa rotina se um de nós fosse seguir tudo isso, ao menos por um dia, independente de ser homem ou mulher. Afinal, todos, sem exceção, já demos atenção e aplicamos (ou tentamos aplicar) recomendações assim no dia a dia. Portanto, mãos à obra, sem mais delongas. Porque fazer tudo vai dar um trabalhão e tenho a impressão que vão faltar horas nessas 24 horas.

Pela manhã

Bem, para você não desanimar antes de começar, vamos deixar para determinar no final a que horas você vai acordar para fazer tudo direitinho. Se é que você vai ter tempo para dormir…diabinho

Comecemos pelo café da manhã: digamos que alguém bateu o martelo dando a receita definitiva para um desjejum saudável e você acreditou. Um suco, um pão com manteiga (sem derreter no forno nem na chapa, porque desdobra as moléculas de gordura da manteiga, o que não é nada saudável) e uma generosa xícara de café – você precisa acordar, afinal de contas. Biscoito recheado? Sonho de padaria? Dizem, naquele site, que é quase um suicídio, então nem pensar. Ah, não esqueça das frutas! Pronto, seu café da manhã “comeu” uns 40 minutos. Isso se você não encasquetar de ler todo o jornal do dia.

Acabou? Mais 15 minutos escovando os dentes. Tudo isso? Sim, seu dentista prega que a escovação ideal leva mais ou menos esse tempo, para que cada dente ganhe uma higiene individual e bem feita. O fio dental também é fundamental, assim como um bom enxaguante bucal.

Ok, agora é hora de dar um pulinho na academia para queimar umas kcals. Compute aí mais uma hora e meia, pelo menos, afinal, seu personal trainer quer fazer valer cada centavo que você paga, e não deixará você arredar o pé do recinto antes disso. Calma, não se sinta torturado. Pense que um dia você pode ter o corpinho esculpido como o dele.

Depois de suar a camisa, é hora de cuidar da aparência e se preparar para a labuta. Que tal uma hidratação nos cabelos, para começar? Sabia que você pode fazer uma hidratação capilar com maionese? Sim, você leu certo: mai-o-ne-se(!) Dizem por aí que esfregando levemente um pouco do produto nos cabelos por 20 minutos, consegue-se uma hidratação rápida e eficaz. E se você quiser aumentar o poder da maionese (eu disse “poder da maionese”?), use o secador de cabelo. Bem, 20 minutos de aplicação, mais a preparação do processo, podemos arredondar para… Anote aí: meia hora.

Não gosta de maionese? Que tal um detox capilar usando argila? A cada tipo de argila, como acontece com os shampoos, é atribuída uma função e um tipo de cabelo. Oleosos ou com caspa? Argila verde neles! Está ficando careca? Argila negra pode ajudar. Secos e sensíveis? Argila rosa é uma boa pedida. Por último, não menos poderosa é a babosa (a rima é proposital) também indicada contra a caspa e queda de cabelo. Ao menos é o que diz a cultura popular.

Se você for mulher, talvez ao olhar no espelho tenha visto alguma celulite nunca dantes notada, certo? Sossegue. Aquele site que viu no mês passado reza que grãos de café são excelentes esfoliantes naturais. É só esfregar nas regiões afetadas, o que vai lhe tomar, no máximo, 10 minutos.

Some a isso mais 10 de banho (cinco minutos por conta da economia de água e mais cinco para remover a maionese ou argila ou babosa do cocoruto) e já temos mais 40 minutos ocupados antes de você sair para trabalhar. Só não esqueça de passar protetor solar no rosto e nas partes do corpo que ficarão expostas. E daí que está chovendo? Todo mundo anda dizendo que os raios ultravioleta estão lá fora em qualquer temperatura, prontos para fritar a sua pele sem que você perceba. Convencido? Ok, operação protetor solar, 10 minutos.

Hora do almoço

Chegou o momento do “coma isso, não coma aquilo”, “tal alimento controla o colesterol”, “a clara do ovo é mais saudável do que a gema”, “não coma muito pesado para não ficar com sono à tarde”, “não esqueça a salada”, “nem se atreva a pensar em refrigerante”, “cuidado com a quantidade de açúcar no seu suco”, “controle os carboidratos”, “vá com calma com as proteínas”, “não esqueça das vitaminas”… Ufaaa! Chegamos à parte mais difícil. Seguir uma dieta regrada não é para qualquer um. Aliás, gostaria de conhecer alguém que pese, um por um, os alimentos do prato, para contar as calorias com exatidão e não cometer nenhuma gafe nutricional.

O cardápio começa a ser definido quando você levanta e comunica aos colegas que vai almoçar. Em questão de segundos, alguém manda uma dica de lugar saudável para comer, embora não se ofereça para ir junto – afinal, é você que está precisando se cuidar, não é mesmo? Nunca são os outros…

Já no elevador, o monitor de TV mostra que o açafrão possui Crocin e Safranal, que ajudam a evitar certas doenças. Em poucos andares, você descobre que o suco de limão tem apenas 25 calorias, além de ser rico em nutrientes como potássio, cálcio e vitamina C. Fica sabendo também que a pimenta, o gengibre e produtos com ômega 3, como os peixes, aceleram o metabolismo. E, de quebra, constata que o wasabi é ótima fonte de vitaminas e minerais, além de fazer muito bem para o fígado. Aquela sua vontade de comer algo mais… ousado, digamos, começa a diminuir. É só fazer uma forcinha para acreditar que tudo aquilo vai deixá-lo feliz. Quase no térreo, o monitor-guru aconselha você a hidratar o corpo bebendo água ou chá verde, enterrando na cova da vergonha e da fraqueza aquela sua vontade de tomar uma coca gelada.

O golpe final vem pelo seu smartphone: um amigo acaba de tuitar que a maneira correta de almoçar é sem líquidos, pois eles estufam e reduzem o apetite. Melhor comprar uma garrafinha d’água e beber meia hora depois de almoçar. Para encurtar a história, no restaurante você come de forma saudavelmente correta, com salada, grãos, carne branca grelhada – vermelha você pode comer um pouquinho no fim de semana, combinado? – e frutas. Um almoço balanceado e rápido, que você faz em 40 minutos.

Pronto, você já pode voltar ao trabalho. Mas antes, faça uma caminhada para contribuir com a digestão e ajudar no controle do colesterol e triglicérides. Porém, atenção: muitos grupos de debate que você andou xeretando na internet dizem que os médicos recomendam caminhadas contínuas, sem parar. Caso contrário não serão efetivas. Que médicos? Ora, se o grupo disse, você acredita, certo? Portanto, escolha um caminho onde não precise parar e esperar a mudança de semáforos e nem tenha pessoas cruzando a sua frente, para não perder o ritmo. Mais meia hora investida na sua saúde.

À tarde

De volta ao escritório, marque no alarme de seu smartphone um intervalo de três horas para comer um lanchinho light ou uma fruta. O ideal, você e o mundo sabem, é consumir quantidades menores de alimentos, de três em três horas. Frutas secas e sementes são ótimas e não engordam, conforme dizem as comunidades e os experts do Facebook. Prefira sementes de girassol, uvas-passas, castanhas e outros alimentos de baixa caloria. E não deixe de escovar os dentes nesses intervalos, usando os 15 minutos recomendados lá no início. Imagine só se você conserta um lado e estraga o outro…

Lembre-se também de parar outros 15 minutos, de hora em hora, para descansar seus olhos do uso do computador. Ou você esqueceu o conselho do seu oftalmologista na última consulta? Aproveite e pingue 3 gotas de soro fisiológico em cada olho. Só faz bem, mesmo que você não tenha problemas de vista.

À noite

anjinhoParabéns! Depois de um exaustivo dia de trabalho, você tem a certeza de que continua são e saudável, pois se comportou como manda o figurino da saúde e qualidade de vida. É hora de uma refeição leve. Comer muito à noite dá pesadelos, qualquer avó confirma isso, por mais cyber e moderninha que ela seja. Você provavelmente está um tanto estressado com tantas regras, mas não precisa ter medo de abrir a geladeira e ser atacado por uma maionese assassina, como disse José Simão no rádio, dia desses. Faça um sanduíche de pão integral com peito de peru e queijo branco. Pode até usar a maionese, se quiser. Só um pouco, claro. Tempo do lanchinho: meia hora.

Alimentado, vem o que talvez seja a melhor hora do dia: que tal uma cervejinha ou uma taça de vinho? Sim, está liberado. Até porque estudos recentes alegam que a cerveja protege as células do cérebro da degeneração, reduzindo o risco de males neurológicos. O mesmo ocorre com o vinho, no qual o consumo de uma taça por dia ajuda a prevenir contra doenças cardiovasculares, segundo 99,99% dos sites relacionados ao assunto. Cheers! Dedique – com gosto – mais uns 40 minutos exclusivamente a esse momento saudável e relaxante.

Por fim, dê mais uma hidratada no corpo tomando um bom copo d’água e deite-se. Mas espere… Ainda faltam os 15 minutos finais na companhia de sua escova de dentes. Pronto? Ok, antes de dormir, dedique 20 minutos a uma consultada no Facebook para dar uma boa bisbilhotada em como os amigos estão terminando suas noites. E não deixe de ler algumas frases de autoajuda no feed de notícias. Pule os comentários dos chatos, os acontecimentos tristes, as críticas ao governo e durma com pensamentos bons. Amanhã você estará renovado.

Será? (Conferindo o seu timing)

Como vimos, cuidar de nós mesmos acreditando em tudo que nos dizem e fazendo tudo à risca, sem desvios ou escorregões, pode ser uma rotina bem dura. Em todas as atividades e conselhos que seguimos aqui, utilizamos nada menos que aproximadamente oito horas e meia. Sem contar o tempo que você utiliza levando os filhos para a escola, as horas no trânsito e as sete horas que passa no trabalho, o que totalizaria umas 18 horas. Se contar que sempre tem uma tarefazinha ou distração em casa à noite, como estudar ou brincar com as crianças, passear com o seu pet, assistir ao noticiário, à novela e a um bom filme, seu tempo de sono vai ficar um tanto comprometido. Em compensação, se a opinião de todos estiver certa, você ficará mais saudável. E mais bonito(a). E mais sexy. E mais tudo.

Cansativo? Talvez. Estressante? Provavelmente. De qualquer forma, sempre fica a alternativa de se alistar no exército em busca de uma rotina mais light. Ou, seguindo uma recomendação que não faz mal a ninguém, apenas seja feliz. Talvez não dê muito certo fazer tudo “certo”.

Texto: Paulo Samá

Fotos: banco de imagens

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