almanaque cachaçaQuem gosta de uma boa branquinha talvez não imagine que o equipamento utilizado para sua destilação tenha origem curiosa.

Muitos bradam a autoria da cachaça como sendo coisa de brasileiro para brasileiro, original do Brasil, surgida talvez acidentalmente pelo trabalho dos escravos nas lavouras de cana-de-açúcar, como veremos mais adiante. Bem, se isso for verdade, não se pode dizer o mesmo do alambique.

Este, com uma certa licença histórica, pode-se dizer que é coisa de egípcio. Datam do antigo Egito os primeiros equipamentos parecidos com alambiques, que podem ser vistos em desenhos de um antigo templo de Mênfis, bem como o hábito de curar algumas doenças ao inalar líquidos aromatizados e fermentados, diretamente do bico de algo parecido com uma chaleira, em ambiente fechado.

Sim, você acertou ao lembrar daquela inalação caseira, feita com cânfora e vaporizadores de ar no quarto das crianças. O princípio é, de fato, o mesmo dos alambiques. Só não vale substituir a cânfora por cachaça.

O alambique é um equipamento de destilação semelhante a um vaso, que pode ser utilizado de forma doméstica ou industrial. Trata-se de uma caldeira que se conecta a uma serpentina de resfriamento através de um tubo. No fundo do recipiente recolhe-se o líquido destilado.

Quanto à destilação, é o método usado para separar misturas através do equilíbrio entre líquido e vapor. Trocando em miúdos, quando há duas ou mais substâncias formando uma mistura liquida, a destilação é usada para purificá-las, desde que as volatilidades sejam diferentes.

Anterior à criação dos alambiques, o processo vem de longa data: Aristóteles já falava sobre isso no século IV a.C., citando a possibilidade de obtenção de água potável destilando-se água do mar. Acredita-se que as primeiras destilações foram feitas por volta de 2000 a.C., provavelmente no Egito, China e Mesopotâmia.

Via de regra, o objetivo era medicinal, mas também eram feitos bálsamos, essências e perfumes pelo mesmo processo. Em 1810 a.C., por exemplo, o rei mesopotâmico Zimrilim já tinha sua própria perfumaria, de onde saíam  incensos, essências, cosméticos e até substâncias usadas em rituais e no embalsamamento dos falecidos importantes do reino.

clube de vinhos

Origem do alambique

O nome alambique vem da Grécia. O vocábulo “ambix” designava uma espécie de vaso com uma pequena abertura, que fazia parte do equipamento de destilação. Tempos depois, os árabes adotaram o termo, modificando-o para “ambic” e batizando o equipamento de destilação de “al ambic”, que significa, ao pé da letra, vaso destilatório.

Na Europa, por sua vez, o termo mudou para alambique. A propósito, também vem do árabe o termo álcool, de “al cóhol”.

Já no que toca a paternidade da invenção, chegamos à primeira controvérsia: Alguns historiadores creditam a criação do alambique a Maria, A Judia – não a de Nazaré -, por volta dos anos 200 ou 300 d.C.. Outros atribuem-na a Zósimo de Panóplia, alquimista egípcio cuja irmã, Theosebeia, inventara diversos modelos de alambiques. Por fim, há uma corrente que dá o crédito ao alquimista árabe Jabir ibn Hayyan, em 800 d.C..

Alquimia e alambique

A alquimia tem muita relação com os alambiques, pois o equipamento era essencial ao trabalho dos alquimistas. E, não por acaso, a destilação das primeiras bebidas alcóolicas é contemporânea deles.

Mas, calma, isso não implica que os efeitos do álcool tenham algo a ver com as tentativas de produzir ouro. Até porque a alquimia não se resumia à obsessão pelo raro metal amarelo.

Embora a ciência alquímica tenha surgido na Grécia, por volta de 300 a.C., o grande momento deu-se em Alexandria, no período entre 200 e 300 d.C.. Documentos dão conta de que, dada a proximidade com o Oriente Médio, os trabalhos dos alquimistas chegaram até os árabes, bem como o equipamento usado na destilação.

Também há relatos de que, mesmo antes do advento do alambique, muitos povos já haviam desenvolvido beberagens alcóolicas. Os chineses, que já eram “up to date” antes deste termo existir, já haviam destilado uma bebida a partir do arroz, em 800 a.C.. Isso confirma que a produção de bebidas alcóolicas ou espirituosas, como também são chamadas, já era feita na antiguidade.

No entanto, foi somente nos séculos XIV e XV, que os segredos do alambique – e muitas outras tradições e costumes – disseminaram-se pela Europa, através das invasões turcas. Assim, o álcool foi finalmente introduzido no mundo cristão, como componente de bebidas e remédios.

Quando perceberam a impossibilidade de produzir ouro via alambique, restou aos alquimistas a realidade de utilizar o equipamento na obtenção do álcool. A primeira destilação nesses moldes é atribuída ao alquimista Ibn Yasid, provavelmente depois do século X.

De qualquer forma, o uso, digamos, recreativo do álcool ainda não era conhecido e, portanto, as beberagens produzidas nos alambiques eram utilizadas para fins medicinais, como mostram seus outros “apelidos”: Eau de Vie (água da vida), Acqua Vitae ou Elixir da Vida. Acreditava-se, então, que a substância aumentava a longevidade e curava uma grande gama de males.

O famoso médico e filósofo árabe Avicena também descreve o alambique e suas utilidades médicas em suas obras, com riqueza de detalhes. Embora não cite o álcool em seus escritos, a utilização fica implícita no contexto.

Outra crença da época era que o álcool fosse mágico e tivesse características rituais, provavelmente pelos efeitos de relaxamento e bem-estar que provocava, de acordo com o nível de consumo nas “poções mágicas”.

Com o tempo, a criatividade e o gosto nato dos europeus pelas bebidas ardentes, o alambique foi sendo utilizado para a criação de novas bebidas alcóolicas, como a bagaceira portuguesa, por exemplo. O consumo das tais bebidas relaxantes aos poucos virou moda, favorecendo, e muito, as relações sociais.

O “elixir da vida” ganhou vários nomes e fórmulas país a país, como a Grappa (Itália), Cognac e Eau de Vie (França), Whisky (Escócia e Irlanda), Schnapps (Alemanha), Aguardente (Portugal) e por aí vai. Tendo o uso do álcool como combustível, o alambique alçou novos voos e já era possível encontrá-lo em casas de nobres, embalando – com muita gente alegre – grandes festas e eventos sociais.

Modernização

O tempo passou e o alambique evoluiu. Em 1526, Paracelsius criou o que conhecemos por banho-maria, evitando a abertura de fendas nos recipientes enquanto estes se aqueciam e estabilizavam a temperatura dos líquidos.

O sistema de arrefecimento também melhorou, com o tubo funcionando através de recipientes com água fria. Já em 1771, o químico alemão Christian Ehrenfried Weigel (não tente pronunciar o sobrenome em voz alta) inventou o equipamento que originou os condensadores de hoje. Nele, o tubo que leva o destilado para fora do alambique ficava dentro de outro tubo cheio de água.

Chegando aos nossos dias, os alambiques tradicionais foram substituídos por aparelhos de destilação mais modernos e adequados à produção industrial. Porém, os tradicionais alambiques de cobre ainda são muito utilizados.

Se você já foi a uma das dezenas de destilarias espalhadas pelo Brasil, deve ter percebido que a tradição ainda fala alto. Até porque, todos sabemos, a cachaça de alambique tem um charme – e uma alquimia – toda especial.

Cachaça no Brasil

A origem do nome cachaça tem várias versões e, portanto, muita polêmica. Alguns dizem que vem do termo castelhano cachaza (vinho elaborado a partir da borra de uva), outros evocam o cachaço (aguardente usada para amaciar carne de porco) e, outros tantos seguem a versão da cagaça.

Esta última, defendida por muitos brasileiros, reza que a cachaça é genuinamente nacional, abordando como história os primórdios da indústria açucareira, quando empregava-se mão de obra escrava para produzir o açúcar nas lavouras.

A cana era moída e dava um caldo que era aquecido e depois resfriado em fôrmas, originando a rapadura. Porém, a coisa nem sempre funcionava. Às vezes a mistura desandava e ficava azeda, originando a chamada cagaça, que era jogada fora.

A hipótese é que este líquido era bebido pelos escravos, resultando num substancial aumento do ânimo e disposição deles para o trabalho. Daí por diante, o consumo da cagaça teria se tornado comum e até incentivado pelos senhores de engenho, que, com segundas, terceiras e quartas intenções, vislumbraram uma forma de fazer os escravos trabalharem mais, graças ao entusiasmo causado pela bebida.

Por outro lado, a corte portuguesa não gostou nadinha disso, chegando a proibir o consumo entre os negros, temendo rebeliões. Esta teoria justificaria a clandestinidade atribuída à cachaça, durante longo tempo definida através do epíteto de “bebida de gente de baixa renda” e “beberagem sem qualidade”.

clube de vinho

Outras correntes defendem que a paternidade da cachaça residiria, na verdade, em Portugal, que afinal de contas, já produzia a chamada “aguardente” muito antes de seu Cabral aqui aportar. Por outro lado, o termo “aguardiente” já era usado na Espanha desde 1406.

Mas, como diz Sérgio Rodrigues em seu blog “Sobre Palavras”, da revista Veja online, “o sentido literal de aguardente está mais próximo do holandês vuurwater, ou água de fogo”. Fato é que a mistura entre álcool e água não é exclusividade brasileira, como todos sabemos. Tudo isso torna ainda mais temerário bater o martelo consolidando a cachaça, de forma unânime, como produto originariamente brasileiro.

Mas não nos tira, de forma alguma, o mérito de país produtor de uma das bebidas que oferece a maior variedade de sabores e estilos. Somente no Brasil é possível encontrar cachaças ardentes e doces; fortes e fracas; branquinhas e douradas como o ouro que os alquimistas tanto sonharam; com nomes engraçados e absurdos como “Busca Vida”, “Velho Barreiro”, “Amansa Corno” e “Tomba Carro”; ou inusitadas como as que levam cobras, escorpiões, caranguejos e outros bichos dentro, o que acentua o sabor da cachaça, como diz (mais uma) lenda.

Etimologias à parte, nossa produção de cachaça ultrapassa 1,3 bilhões de litros, dos quais apenas 0,4% são exportados. Tais dados, somados ao Decreto 4702, assinado em 2002 pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso, que declara a cachaça como destilado de origem nacional*, servem para dissipar algumas dúvidas. A cachaça é, sim, coisa de alquimistas. Mas também é coisa nossa.

Para bebericar lendo ou ler bebericando: curiosidades cachaceiras

  • Bebidas alcóolicas não são chamadas de espirituosas por nos deixarem alegres e rindo à toa. A origem provável do termo está no século XIII, quando a expressão “espírito do vinho” era amplamente utilizada.
  • O primeiro alambique chegou ao Brasil a bordo de um navio-pirata, do inglês Richard Hawkins, em 1590. Era usado para destilar água do mar.
  • A indústria brasileira de cachaça emprega 450 mil pessoas*.
  • Dia 13 de setembro é o Dia Nacional da Cachaça.

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É nome pra mais de um copo

Existem mais de 400 nomes para a cachaça usados no Brasil. Confira alguns deles: cátia, cajibrina, cana, marvada, água-que-passarinho-não-bebe, mé, branquinha, a-do-diabo, a-que-matou-o-guarda, aquelazinha, marafo, água-de-briga, aguardente, agundu, alicate, biriba, brava, bichinha, birinaite, café-branco, caninha, cobertor-de-pobre, caxaramba, chá-de-cana, engasga-gato, garapa doida, gasolina, goró, forra-peito, homeopatia, iaiá-me-sacode, levanta-velho, maria-teimosa, parati, purinha, remédio, quebra-goela, venenosa, três-tombos, tome-juízo, ximbica, zuninga, urina-de-santo e tira-vergonha, entre muitos outros.

Apreciadores brasileiros notórios da “marvada”

Cachaça também é preferência nacional. Que o digam alguns dos fãs da aguardente mais ilustres. Como o queridíssimo e saudoso Mussum; Zeca Pagodinho; os ex-presidentes Jânio Quadros e Lula. José Luiz Datena; João Canabrava (personagem de Tom Cavalcante); Adoniran Barbosa; Marinósio Trigueiros Filho (autor da marchinha “Você pensa que cachaça é água”, que escreveu num guardanapo de boteco); os cantores Leonardo e Noel Rosa. O escritor Lima Barreto; Bezerra da Silva e até Paolla Oliveira, que, segundo o namorado Joaquim Lopes, “senta com você no boteco e toma uma cachaça”.

* Fonte: www.alambiquedacachaca.com.br

Texto: Paulo Samá

Fotos: banco de imagens