“Foi ao Pará, parou; Bebeu açaí, ficou!” Este versinho, secular, foi reproduzido pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, de 1954, para exprimir a importância do açaí (Euterpe oleracea) no modo de vida do paraense. Conhecido por vários nomes – açaí, açaí-do-pará e açaí-de-touceira – o fruto desta palmeira de origem amazônica é utilizado tanto na alimentação diária quanto na de festa. A versão popularizada no sul do país, o açaí doce na tigela, com banana e cereal, não dá a menor ideia de seu uso entre os habitantes do Pará, o maior produtor e consumidor do fruto. Até o início dos anos 70, não havia demanda para o palmito. O produto extrativo mais importante do açaizeiro era, então, seu fruto. Enquanto o palmito é principalmente exportado para fora do país, o “vinho” de açaí é um produto fundamental na dieta alimentar do paraense.

Para se ter uma ideia de sua importância, uma família de quatropessoas consome, em média, dois litros de vinho de açaí por dia – vinho é como chamam o suco extraído do açaí. Órgãos oficiais estimam que, só no Pará, cerca de 300 mil pessoas façam do açaí seu ganha-pão. Entre as populações ribeirinhas, que vivem ao longo dos cursos dos rios e igarapés, a fruta é a principal fonte de renda para cerca de 70%. Maranhão e Amapá, entre outros estados, também produzem açaí, e no Amazonas, ele é de outra espécie (Euterpe precatoria), o chamado açaí-do-amazonas ou açaí-da-mata.Ingredientes - Açaí

No cotidiano dos ribeirinhos, come-se a fruta, geralmente transformada em vinho, em pratos salgados, como peixe frito com açaí, acompanhado de farinha-d’água, ou mesmo com arroz e feijão. Além do vinho, do açaí se fazem doces, licores, sabonetes e até cosméticos e creme dental. Seu caroço já é largamente utilizado na confecção das chamadas “biojoias”. Jovens chefs passaram a explorar a fruta em criações inventivas. O paraense Thiago Castanho, dos restaurantes Remanso do Peixe e Remanso do Bosque, em Belém, prepara uma tigelinha de bacalhau com farofa de açaí, ou usa seu vinho como tinta em alguns pratos.

Todo um comércio e um modo de vida giram em torno do açaí. No Porto do Açaí, em Belém, aportam diariamente embarcações trazendo, entre outros produtos da Amazônia, açaí vindo de lugares próximos, como a Ilha de Jussara e a Ilha do Combú. Do porto, a fruta é levada às casas de açaí. O frescor do produto é tão importante que bandeiras ou placas vermelhas anunciam nos locais de venda, a sua chegada. No tradicional Mercado Ver-o-Peso, junto ao cais, acontece a feira do açaí – uma feira dentro da feira. Pesquisadores arriscam que a feira do açaí envolve o trabalho de 500 pessoas – incluindo aqueles que alimentam os vendedores e transportadores do fruto. No verão, auge da boa safra, as festas ou festivais da fruta acontecem em vários municípios do Pará.

Da terra à mesa, o açaí percorre um longo caminho, envolvendo muitas pessoas, em várias funções. O trabalho com a extração do açaí na região Amazônica, em geral, é baseado em técnicas tradicionais, adaptadas às condições locais. Nas ilhas paraenses, a maior parte dos açaizeiros são selvagens. Pela manhã, os coletores de açaí, ou “peconheiros”, coletam o fruto escalando as altas palmeiras, com a peconha (espécie de cinto) nos pés e armados de luvas e facões. Cortam o cacho e, depois, com a mesma agilidade com que subiram, descem escorregando pelo tronco. Os cachos são então debulhados: os frutos maduros são separados manualmente e colocados nas rasas, que são cestos de fibra vegetal onde se transportam os frutos do açaí após a debulha, feita geralmente por mulheres.

É este cesto, com capacidade para cerca de 28 kg; que chegará ao porto (embora os órgãos sanitários proíbam seu uso, orientando a utilização de basquetas, feitas de plástico). A rasa é transportada na cabeça, às vezes por dentro dos igapós. E sua forma oval permite que os peconheiros consigam andar em equilíbrio. No porto, o açaí tem dois destinos; segue para a indústria, que a transforma em cosmético ou alimento (vendido para todo o Brasil e mesmo para o exterior). Ou para a venda ao mercado local. Nos mercados, logo de manhãzinha, os frutos são vendidos por lata. Como se chamam as cestas de vime menores, de 14 quilos. Nestes locais, é possível ver também o trança-trança de carrinhos de madeira. Que transportam as sacas de açaí, parecidas com sacas de café.

Os batedores de açaí, outra das tantas especializações dentro da produção e comércio do fruto. Serão responsáveis, depois, por bater o açaí, demolhado em água, para transformá-lo na polpa, ou “vinho”. Alguns, mais ciosos de seu produto o peneiram, para tirar a burra; como se chama o resíduo das cascas do fruto, que lhe conferem uma textura arenosa. Há açaís de vários tipos. Que designam sua qualidade. Para usá-lo como bebida, pode-se comprar a polpa (pura, sem adição de água e sem filtrar). Ou escolhe-se entre os tipos grosso; médio e fino. Que são filtrados e têm adição de água, sendo o grosso o mais denso e mais caro deles. O açaí batido no dia é fresco. Completamente diferente daquele que conhecemos no sul do país, misturado a xarope de guaraná. Para saboreá-lo,  no entanto, é preciso visitar o Pará. Boa viagem!

Texto: Ana Caldeira

Fotos: banco de imagens