A arte de servir teve início nos primórdios do homem. Quando cabia às mulheres do grupo trazerem ao centro da roda alimentos acondicionados em cuias improvisadas; folhas de plantas; cascas de frutas e até em crânios de animais e inimigos abatidos. Hoje, em qualquer restaurante do mundo, o que se vê são aquelas figuras solícitas e uniformizadas circulando lepidamente entre as mesas. Garçons desafiando as leis da gravidade com suas bandejas de pratos empilhados e toda a sorte de alimentos e bebidas, ao melhor estilo Cirque du Soleil.

Como cerimonial, o servir na bandeja manteve a sua essência praticamente inalterada desde a Pré-História. Ganhou até uma licença poética em quadras, nas mãos de alas, pivôs e armadores de basquete, que gentilmente soltam a bola em direção à cesta. Mas quando ela surgiu de fato? A bandeja etrusca de barro negro do Museu Hunterian, em Glasgow, sugere que o conceito do artefato é anterior ao século VII a.C.. Já a origem da palavra parece ser mais recente: bandeja é uma derivação regressiva de bandejar, que significa “sacudir de um lado para o outro”. E bandejar vem do provençal “banda”, que quer dizer “lateral, flanco”, carrega consigo a interpretação de sacudir, deslocar o conteúdo de um dado recipiente de um lado para o outro.

bandeja2A bandeja desempenhou e desempenha uma tarefa ativa na história da culinária, desde a Roma Imperial. Ela nasceu como instrumento estritamente utilitário, para transportar pra lá e pra cá utensílios de cozinha, comidas e bebidas. E bacias, jogos de chá, copos, pratos, frutas, xícaras, a lista é imensa. Na Idade Média, eram quase sempre feitas de madeira e quadrangulares, mas há relatos de bandejas ricamente ornamentadas, como as de cobre gravado, no Irã, ou com incrustações de prata, à época da Dinastia Islâmica Ayyubid, no Egito, ambos por volta do século XIII.

De fato, a partir da Renascença a utilização das bandejas de prata ganha brilho, elas são sofisticadamente trabalhadas pelos melhores ourives disponíveis, em sua maioria italianos. Bem ao contrário dos alemães, que preferem materiais incomuns e rústicos, como ossos e chifres de rinoceronte, que você pode conferir ao vivo e em cores na Casa do Tesouro Real de Munique. No século XVI, a cerâmica branca (faiança) predomina como matéria-prima, e até o Papa Pio V prescreve o uso litúrgico da bandeja para apoiar o vinho e a água destinados à consagração. Depois, entre os franceses, destacam-se as bandejas adornadas com pinturas esmaltadas de Limoges, cidade notória pela sua indústria de cerâmica desde o século XVIII.

Ovais, redondas ou retangulares, de metal, madeira ou plástico, com ou sem alças laterais e pés, as bandejas de servir como são conhecidas hoje evoluíram a partir de uma prima próxima, a salva, do latim salvare. Quem nunca ouviu o nome “salva de prata”? Era este o termo utilizado na Inglaterra para designar bandejas planas de prata. Quando os alimentos eram servidos nela, é porque já haviam sido testados pelos servos – não continham veneno – e estavam prontos, “salvos” para serem consumidos pela realeza sem medo. Essa mesma realeza viu a prataria ser substituída pelas porcelanas chinesas e japonesas no século XVIII, enquanto os súditos contentavam-se com bandejas de papel marchê enfeitadas com padrões florais e frutais (às vezes com camadas de madrepérola), populares tanto na Europa quanto na Ásia.

Na primeira metade do século XIX; bandejas de metal laqueado com bordas de ouro produzidas em Zhostovo, subúrbio de Moscou, ganharam o status de arte. Sobre o tradicional fundo preto, flores, paisagens e cenas folclóricas eram pintadas à mão e assinadas por mestres. É o glamour sobrepondo-se à praticidade, o design tomando a frente e o valor das peças se multiplicando, seja por ostentarem brasões reais gravados no centro, seja porque foram moldadas em 1840 com a antiga prata Sheffield. E também há quem pague uma pequena fortuna pelas bandejas decorativas de Coca-Cola, produzidas entre 1897 e 1957.

As transformações mais profundas, no entanto, ainda estavam por vir. bandejaCom o avanço dos processos de produção e, principalmente, a criação do polímero sintético em 1909. Inicia-se a era do plástico e a pluralidade de estilos. A bandeja de mordomo cede espaço para as moderninhas bandejas compartimentalizadas. As bandejas de bandejão, que dispensam o uso de pratos. Na Segunda Guerra Mundial, a melamina; uma resina termoplástica reluzente e durável. Vira companheira diária dos marinheiros norte-americanos à mesa. E também cai nas graças dos brasileiros pelo seu preço e sua semelhança com a porcelana. Em 1970; a Alitalia inova ergonomicamente as cabines de primeira classe com modelos de bandeja novos, que tornam muito mais confortável o ritual das refeições.

O objeto passou pela art deco e pela art nouveau. Converteu-se em desafio e bibelô nas mãos de designers e decoradores. Há modelos para servir café feitos de fibra de vidro e outros de vime. Que incrementam lavabos e aparadores; penteadeiras e até escritórios. Bandejas cirúrgicas de aço inoxidável e tipos bucólicos. Com azulejos de porcelana pintada. Bandejas de sementes que propagam alimentos e plantas. E bandejas de fast food multicoloridas. Criatividade, funcionalidade e simplicidade para todos os gostos e serviços, de bandeja.

Agora, imagine que você está num restaurante de Londres; e o seu pedido chega numa bandeja voadora. Sim, até isso já existe. O iTray (na tradução livre, iBandeja) possui um drone controlado por garçons via iPad. Mas não se alarme, dificilmente deslizará um prato de fish and chips ou um Bife Wellington sobre a sua cabeça. Toda bandeja que se preze tem bordas elevadas.

Texto: Fábio Angelini

Fotos: banco de imagens