A música é mágica. Mexe com os sentidos, com as emoções. Produz sorrisos tão facilmente quanto lágrimas. Não importa o estilo, acompanha momentos e nos traz à memória detalhes de acontecimentos, tanto quanto o aroma de um perfume. A música é universal. Se você conhece alguém que não gosta, conhece alguém amargo.

Mas nosso ponto aqui é outro. Trata-se de saborear música. Servi-la como aperitivo, acompanhamento, prato principal,
sobremesa e, por que não, como um gostoso e quentinho café pós-refeição. Se até aqui você já identificou alguma sensação ou lembrou de algum sabor acompanhado de uma canção que aprecia, já começamos a atingir nosso objetivo: a música é sensorial, portanto deve ser saboreada junto a um bom prato, potencializando a memória do momento e também do sabor. Principalmente em ocasiões especiais.

Batuques, javalis e outros bichos

Desde sempre, a fartura é vista como motivo de comemoração. É quase possível enxergar cenas de nossos antepassados das cavernas festejando o resultado de uma boa caçada, com algo muito aproximado do que hoje conhecemos com dança. Afinal, encontrar sustento para o clã era razão mais do que suficiente para comemorar. Além disso, sons guturais emitidos em uníssono e batidas ritmadas em pedras ou cascas de coco têm lá seu ritmo, concorda?                                                 

“MÚSICA E COMIDA CAMINHAM JUNTAS”

Indo mais adiante no tempo, celebre conquistas e saques com os bárbaros,

visualize uma tribo festejando dádivas de algum deus, ao som de tambores rudimentares e cantos indecifráveis. Avance mais e espie uma festa de casamento de uma princesa qualquer – provavelmente arranjado para garfar um robusto dote -, com muita comida e dança, acompanhada pelas canções do menestrel da corte. Continue viajando no tempo e chegue aos jantares dançantes e aos populares cantores de churrascaria. Passe pelos bailes de debutantes e os de formatura, onde se degusta alegrias ao som de ritmos diversos…

Música e comida caminham juntas. Mesmo quando a música não é, digamos, bem-vinda. Quem já leu as aventuras de Asterix, dos autores René Goscinny e Albert Uderzo, certamente lembra do final de absolutamente TODAS as histórias,  onde festas regadas a vinho e muito javali assado acabam invariavelmente com o bardo Chatotorix amordaçado e pendurado a uma árvore, após encher a paciência dos truculentos gauleses que, com o perdão da expressão, querem mais é encher a pança em mais uma celebração de vitória frente aos neuróticos romanos.

Tem estudo científico, simcd

O trabalho Sinfonia de Sabores: Música e Comida em Concerto, realizado em 2012 na Universidade de Cabo Verde, aponta alguns dados interessantes. Som e gosto têm uma ligação especial, pois a música e a comida se apresentam juntas nos mais diversos momentos de nossas vidas, indo da sensação do soberbo ao repulsivo, apelando a nossos gostos e nossa sensibilidade, além de tocar nossos instintos básicos e de sobrevivência. É nesta ligação que muitos artistas inspiram-se e expressam, não apenas sentimentos como amor e desejo, mas também conotações étnicas, ambientais e até de classes, uma vez que a comida – e a fome – são tão universais quanto a música.

O estudo cita, entre muitos outros, a “Mensa Sonora” de Heinrich Biber (1860) – não confundir com “aquele” Bieber, por favor -; “Chicharrones” de Compay Segundo (1977) e até o hip-hop “All You Can Eat” dos Fat Boys (1985), como canções que transformam em música atos como cozinhar, temperar, preparar, escolher ingredientes e, é claro, comer, tratando tudo como fatores fundamentais de influência entre indivíduos e seus grupos sociais e culturais. Talvez seja por causa desta relação tão íntima, que encontramos culturas onde a relação comer-cantar-dançar seja mais profunda; outras onde é simplesmente inconcebível o ato de se alimentar sem um fundo musical e outras – o que é ainda mais curioso – que relacionam a insuficiência de comida à música. Neste caso, a música é criada para ser “comida”, segundo o estudo.

Música, comida e metáforas

A música relacionada à comida pode ser entendida como receita para muita coisa que vai além da culinária. Os exemplos, metafóricos e literais, dariam para escrever uma revista inteira. São infindáveis e vão do histórico ao clássico, passando por vários estilos. Que tal a maravilhosa “Feijoada Completa”, de Chico Buarque, para acompanhar, obviamente, o mais brasileiro dos pratos, ao som do refrão “Salta a cerveja estupidamente / gelada para um  batalhão / E vamos botar água no feijão”?

Se você prefere um sabor mais picante, que remete ao amor quente da Bahia, coloque na sua playlist alimentar o que tem “No Tabuleiro da Baiana”, na memorável e imortal interpretação de Carmen Miranda e Luiz Barbosa.

Já no campo do rock, quem nunca degustou “Brown Sugar”, dos Rolling Stones? Apesar de controversa por sua alusão metafórica à Canabis sativa, a música fala do açúcar mascavo, tido como mais saudável do que o refinado. Outro exemplo é “Cherry Pie”, da banda de hard rock Warrant que, em uma letra repleta de duplo sentido, comparando uma garota a uma torta de cereja.

“OH, SUGAR, SUGAR… OH, HONEY, HONEY”

Voltando ao lado mais brasileiro e regionalista, vale também citar os maranhenses Wellington Reis e José Ignácio, e a dupla mineira Célia e Celma. Os primeiros gravaram um CD musicando receitas maranhenses. Graças a eles, “Arroz de mariscos no Lelê” e “Peixe frito no samba”, entre outros pratos, agora são hits na mesa e nas rádios. Já as moças de Minas fizeram a mesma coisa, mas com um plus: lançaram o CD acompanhado de um livro de receitas. Experimente e ouça “Língua com molho” e tire suas conclusões.

A ocasião faz a canção. Ou será o contrário?

Letras à parte, os ritmos e escolas musicais também têm suas combinações gastronômicas, ditadas pela prática, pelo tempo e pelo bom senso (ou falta dele). Para um primeiro encontro, por exemplo, por que não preparar um jantar à luz de velas com música romântica? A voz doce de Marvin Gaye em “Sexual Healing” pode dizer muita coisa, inclusive acompanhando uma sobremesa com morangos e chantili. Doce, afinal de contas, tem tudo a ver com com amor e com música. Que o digam também The Archies – “Oh, sugar, sugar… Oh, honey, honey… You are my candy girl”.

Por outro lado, dependendo da parceira (o), a música clássica ou uma boa coletânea de canções da MPB podem dar o recado. Sendo um pouco mais radical, algo mais pop também pode criar um clima. Só não coloque tudo a perder com um batidão.

Almoço em família, churrasco, recepção, coquetel, tudo pede música. E nem precisa ser um ritmo específico. Basta ser algo que agrade os ouvidos e sirva como um bom fundo musical para o ruído dos talheres e o tilintar dos copos e taças. O grupo reunido é quem manda. Tem coisa mais gostosa do que uma tarantella acompanhando a macarronada de domingo? Ou uma trilha sonora árabe ou libanesa como aperitivo junto a um tabule, um homus ou gostosos charutinhos de folha de uva ou de repolho? E que tal um jazz ou soft blues como fundo musical para aquela sua recepção elegante? Hamburguer, combina com rock and roll retrô? Pode ser.

Se sim, prepare seu topete e o rebolado. E um sambinha enquanto você assa uma carne no sábado à tarde? O som pode ser na caixa de som ou na caixa de fósforos, de acordo com o ânimo da rapaziada.

A verdade é que, sofisticada, elegante ou despojada, boa comida sempre vai bem com boa música. Escolha a combinação que mais gosta e coma com os ouvidos.

Bonito, lindo e joiado

A culinária brasileira exótica e inusitada também tem seu representante na música. “Rei Contemporâneo do Brega”, o célebre arquiteto-cantor Falcão é um gastrônomo diletante e de paladar peculiar, como mostra parte da letra de seu mega-hit “A Cura da Homeopatia pelo Processo Macrobiótico”: Panelada, buchada / Sarrabulho, tripa de porco / Fuçura, linguiça, rabada, miúdo / Bife, passarinha, mocotó, carne de lata / Chouriço, tutano, sarapatel, mão de vaca / Hoje eu estou mudado / Bonito, lindo e joiado / Alegre, gordo e corado / Pareço um artista (…)

TEXTO: Paulo Samá

FOTOS: Banco de imagens

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