Feijão Maravilha

Setenta por cento dos brasileiros consomem feijão diariamente. Um dos símbolos da culinária do país, o feijão nomeia uma grande variedade de sementes de plantas de alguns gêneros da família das Fabáceas. Ao contrário do que muitos pensam, o feijão não é um grão. Plantas como feijão, ervilha e amendoim não podem ser chamadas de cereais – portanto, suas sementes não são grãos. A razão é bem simples: eles não fazem parte da família das gramíneas e, sim, das leguminosas. feijao

O Brasil é o maior produtor mundial do ingrediente, originário das Américas. Por aqui podem ser encontrados aproximadamente 40 tipos desta leguminosa. Mais do que suficientes para agradar a qualquer paladar: carioca, preto, branco, vermelho, fradinho, manteiga e por aí vai… E a procura não é pequena: o consumo do produto por pessoa chega, em média, a 17 quilos por ano.

A combinação de arroz com feijão, ao lado da famosa mistura (tudo  que entra no prato além destes dois ingredientes), reina absoluta em todo o país. Outra preferência nacional é a feijoada, uma mistura de feijões pretos com carnes de porco e de boi: já virou tradição comer feijoada nos finais de semana em São Paulo. Em Goiás (além de Minas Gerais e São Paulo) é comum o preparo do feijão tropeiro, que leva também farinha de mandioca, torresmo, linguiça, alho e cebola. É um prato criado pelos bandeirantes e tropeiros, que faziam o transporte de mercadorias em cavalos e burros.

Cada região brasileira prefere uma variedade de feijão: o feijão preto é mais consumido na região Sul, no Rio de Janeiro, no sudeste de Minas Gerais e no sul do Espírito Santo; já o feijão carioca é aceito em praticamente todo o Brasil; na Bahia, o fradinho é a base do acarajé – tradicional bolinho frito, feito com o feijão e servido com camarão seco; e o feijão caupi ou feijão-de-corda é o mais consumido nas regiões Norte e Nordeste, e recentemente vem sendo exportado para vários países.

Enquanto no Brasil o feijão é utilizado em pratos salgados, em alguns lugares do mundo ele é usado no preparo de doces: em Portugal, por exemplo, usa-se o feijão branco misturado com amêndoas para fazer um delicioso doce; no Japão, o feijão azuki é a base do anko, um doce muito famoso; e no Vietnã, o doce de feijão é consumido até com sorvete de chá verde!

No México, o segundo maior produtor do mundo de feijão, os frijoles (como eles são chamados por lá) estão, ao lado do milho, entre as culturas agrícolas mais importantes do país. São servidos frequentemente com um pouco do líquido do cozimento em purê ou fritos com óleo ou banha de porco. Aparecem também em molhos e sopas, como vagem. Da variedade de pratos mexicanos com feijão, um dos mais famosos é o frijoles borrachos, feito em várias regiões do país e que leva feijão (cuja variedade varia conforme a região) preparado com chile (como se chama a pimenta no México), tomate, cebola, alho, coentro, toucinho e cerveja.

O feijão está entre as primeiras plantas domesticadas e cultivadas, há aproximadamente 10 mil anos. Estudos recentes, feitos a partir do genoma do Phaseolus vulgaris, o feijão comum, indicam que ele foi domesticado simultaneamente nos Andes e na Mesoamérica (provavelmente na área onde se situa o México). Em suas mais diversas variedades, é considerado um dos mais antigos alimentos utilizados pelo homem, tornando-se parte importante da dieta de várias civilizações.

As ruínas da antiga Tróia revelam evidências de que os feijões eram muito consumidos pelos guerreiros troianos. Na Roma antiga, os feijões eram utilizados não só na elaboração de sofisticados pratos para imperadores (existem registros de receitas com feijão no famoso livro de Marco Gávio Apício, De Re Coquinaria, do século I d.C.), mas também como moeda, em jogos de apostas. Algumas tribos indígenas da América do Norte consideravam o feijão como um dos três “irmãos”, responsáveis pela base de sua alimentação: feijão, milho e abóbora. Os budistas, na busca por uma dieta ideal sem carnes, encontraram no feijão um grande aliado para manter sua alimentação saudável. Na Grécia Clássica, o alimento era oferecido como um lanche em simpósios, quando os homens se reuniram para discutir política ou filosofar depois do jantar.

A maioria dos historiadores atribui a disseminação dos feijões no mundo às guerras, uma vez que esse alimento era parte essencial da dieta dos guerreiros em marcha. Os grandes exploradores ajudaram a difundir o uso e o cultivo de feijão nas mais remotas regiões do planeta.

No Brasil, o cultivo do feijoeiro (a planta do feijão) data de mais de 2 mil anos. Sementes de feijão escondidas em cavernas desse período são as mais fortes evidências disso. Mas as atividades de pesquisa com o feijão no país são recentes. Pois começaram apenas na década de 1950. Nesse período, de acordo com o censo; a população brasileira teve um aumento significativo. Mas o mesmo não ocorreu com a produção do feijão. E foi a escassez da leguminosa no mercado que despertou a atenção de pesquisadores, que procuraram, então; desenvolver variedades mais produtivas e técnicas que aumentassem mais rapidamente a sua produção.

O feijoeiro é uma planta com raiz delicada. Mas seus benefícios o tornam um alimento poderoso. Proporciona nutrientes essenciais como proteínas; ferro; cálcio; vitaminas (principalmente do complexo B) e carboidratos. É também uma ótima fonte de fibras. O que contribui para baixar o colesterol e também impede que os níveis de açúcar no sangue subam muito rapidamente após uma refeição. Isso faz do feijão um alimento especialmente benéfico para os indivíduos com diabetes. Resistência à insulina ou hipoglicemia. Quando combinado a cereais integrais como o arroz, o feijão fornece uma proteína de qualidade praticamente livre de gordura.

Preto; fradinho; carioquinha. Doce ou salgado. Sozinho ou acompanhado. É só escolher e se deliciar com essa maravilha chamada feijão.

Texto: Paula Mendonça

Fotos: banco de imagens