Houve um tempo em que todos os continentes eram apenas um. Àquela Terra, o climatologista alemão Alfred Lothar Wegener, autor da teoria das placas tectônicas, deu o nome de Pangea. Segundo o estudioso, o mundo com a divisão de continentes que conhecemos naquele livro de Geografia do segundo grau, teve origem na fissura da única placa tectônica de Pangea. Esta deu origem, inicialmente, a dois grandes continentes: Laurasia, ao Norte, e Gondwanalândia*. Com novas fissuras nas duas placas, a terra ganhou seus novos continentes e imensos oceanos a separá-los. O homem, então, foi obrigado a queimar as pestanas para descobrir métodos de vencer as distâncias impostas pelo mar. Simplificando a história, depois de muitos séculos surgiram os aviões e embarcações marítimas. Tornou-se possível ir a qualquer lugar, com uma boa dose de espírito aventureiro e, é claro, dinheiro para bancar as viagens.

Mesmo assim, para nós brasileiros, até por volta de 30 anos atrás, conhecer outro país, outra cultura e outros hábitos gastronômicos, assim como agregar tudo isso ao nosso dia a dia, não era tarefa das mais fáceis. Basta pensar na dificuldade em se trazer qualquer produto importado para o Brasil nos anos 1970, 1980 e até mesmo 1990. Fosse uma iguaria francesa, italiana, roupas ou um simples longplay de conjunto americano – lembra da palavra “conjunto”?

O EXTERIOR JÁ FOI MAIS LONGE

O que se conhecia do exterior, exceto no caso das classes mais privilegiadas, resumia-se ao que era visto nos livros e catálogos. E mesmo com eles, quase sempre que se pedia para alguém trazer algo de fora, a chance de vir gato por lebre e um sonho de consumo acabar engavetado era enorme. Assim era o Brasil antes da abertura de mercado, antes da globalização e antes da Internet. Um gigante (como está na moda dizer) de porte continental, mas escondido do resto do mundo, que era bem mais longe naquela época.

Hoje, mesmo com o dólar passeando para cima e para baixo de elevador, ainda é bem mais fácil do que antigamente pegar um voo para fora. Por outro lado, você não precisa mais nem viajar para ter, digamos, alguns tipos de experiências d’além mar. Tudo ficou surpreendente mais simples. E mais próximo. A facilidade chegou para ficar e é irreversível, mesmo em tempos mais bicudos. Quer uma blusa, um tênis, um cd importado? Você está a distância de um simples “www” de tudo isso.

COZINHA MUNDIAL NA SUA COZINHA E FORA DELA

Aquele queijo Camembert que você tanto gosta não está mais na França, mas no empório da esquina. Quer fazer um jantar diferente para receber os amigos ou simplesmente curtir com a família? Não precisa mais peregrinar nos supermercados. Há locais especializados em tudo, absolutamente tudo, que é preciso para surpreender na cozinha, seja você um diletante das panelas ou um chef reconhecido nos quatro cantos do país. Sem falar nos milhões de receitas que se acha na internet, com as quais você pode preparar delícias do mundo todo.

Por outro lado, quem tem preguiça de cozinhar, mas não dispensa a experiência gastronômica, também não precisa se apertar. Diferente de antigamente, onde encontrávamos apenas uma meia dúzia de restaurantes estrangeiros, hoje as melhores cozinhas do globo estão por todo o Brasil, esteja você onde estiver.

Os restaurantes japoneses, por exemplo, saíram do bairro da Liberdade, em São Paulo, para ganhar o país. Encontrar um bom sushi, sashimi ou um temaki deixou de ser extravagância de fim de semana, para se transformar em almoço corriqueiro em dia de trabalho. E sem perder o charme.

A culinária grega também está a anos-luz do churrasquinho que lhe empresta o nome. Bateu uma vontade irresistível de comer uma Moussaka (lasanha grega com carne moída e berinjela)? Você a encontra em um bom restaurante e ainda mata aquele desejo de Portokolapita (torta de laranja grega) como sobremesa.

Caso tenha uma veia árabe em você, é muito fácil ir além da tradicional esfiha e experimentar um Ataif (panquecas recheadas de nozes ou queijo), o Baba Ghanouj, pasta de berinjela simplesmente imperdível, e finalizar com uma boa Baklawa, sobremesa de frutas secas embebida em calda de maçã e limão. Se preferir atacar algo alemão, para digerir e se vingar daqueles 7 a 1 de 2014, pode escolher o quase impronunciável Schlachtplatte – Chucrute Garni (joelho de porco tipicamente alemão, acompanhado de carré suíno, salsichão Schublig, salsicha de vitela e blutwurst acompanhado de batatas cozidas e chucrute).

É fã de um bom Golubtsi? Não há a menor dificuldade para encontrar este prato russo que traz arroz, carne suína e bovina envoltos em folha de repolho, ao molho de dill e tomate cremoso. Também não há mais necessidade de garimpar para degustar um colorido Chu Chee Pla, iguaria tailandesa preparada com curry vermelho, leite de coco e relish de pepino. Da mesma forma que não é preciso ir a Portugal para curtir um legítimo bacalhau à moda; à Espanha para saborear tortillas, paellas, puchero, arroz negro ou a deliciosa sopa de Gaspacho, nem descer até Buenos Aires para experimentar uma parrilla trazida da terra de los hermanos e preparada com sotaque argentino.

As bebidas também não ficam atrás. Para ficar apenas em dois exemplos, com a mesma naturalidade que visualiza a casa do seu amigo que mora na Irlanda pelo Google Street View, você degusta a mesma cerveja que ele. O mesmo vale para champanhe francesa, whisky escocês e… Bem, quando o assunto é vinho, nem precisamos dizer, mas dizemos: a Sociedade da Mesa traz até você os melhores e mais inusitados vinhos do mundo.


UM EXTERIOR PRA CHAMAR DE NOSSO

E por falar em degustar o mundo sem sair da sua casa, não podemos esquecer de algumas iguarias que vieram de fora, mas já são “especialidades da casa”. Já viraram coisa de brasileiro. Da Itália, temos as cantinas e as mammas, que muitas vezes nem são italianas legítimas, mas preparam uma macarronada mais do que especial, e as pizzarias brasileiras, que nada ficam a dever às da “bota” europeia. Do Oriente, temos, entre outros, os endereços de comidas árabes que multiplicaram a cultura das já citadas esfihas pelo país, e os pastéis, que apesar de vindos do Japão, já são tão brasileiros que você encontra em qualquer feira livre. Do México vieram, para ficar, os tacos, a guacamole, os nachos, os burritos e as paletas.

O número de casas é enorme. E nosso paladar está ficando tão mexicano, que muito em breve, é bem capaz de instituírmos também a “siesta”. O que não seria nada mal, convenhamos. Já a comida chinesa segue o mesmo caminho da japonesa; tornando-se mais nacional a cada dia. Entre num restaurante chinês e confira os cozinheiros. O mais chinês deles é brasileiríssimo. Dos Estados Unidos temos o hambúrguer. Que é moda desde o século passado e vem ficando ainda mais notório com as hamburguerias. E da Austrália temos diversos restaurantes tradicionais com temperos bem picantes. Que já soam como coisa de brasileiro.

O cardápio, enfim, é imenso e tem exemplos inesgotáveis. Sirva-se e aproveite a internacionalização. Hoje é tudo fácil, tudo perto. Mais perto mesmo, só se as placas tectônicas se juntarem novamente.

(Olhos)

“As melhores cozinhas do globo estão por todo o Brasil”

“Hoje é tudo fácil, tudo perto”

TEXTO: Paulo Samá

FOTOS: Banco de imagens

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