sedução entre talheres

Conta a lenda que a divindade grega Afrodite (Vênus para os romanos). Conhecida como a deusa do amor; da beleza; da fertilidade e do prazer. Tinha um caráter dúbio para os gregos. Ao mesmo tempo em que era invocada pelos maridos para que o amor conjugal fosse preservado, também era idolatrada pelas cortesãs.

Assim como a deusa nascida das espumas do mar, os alimentos que derivam de seu nome, os afrodisíacos, também são vistos de duas formas pela ciência: ela não assina embaixo, mas também não desmente as propriedades estimulantes e desinibidoras da libido. Ao contrário, credita-as em parte aos componentes químicos dos nutrientes, e em parte a efeitos psicológicos, talvez causados pela cor, forma, sabor e aroma destes alimentos.

Alguns especialistas atribuem a fama dos afrodisíacos a componentes alimentares que contribuem com o aumento do fluxo sanguíneo, liberam hormônios e melhoram a qualidade da vida amorosa, desde que consumidos regularmente, ou seja, comer uma barra de chocolate não vai deixar você imediatamente apaixonado. O psicológico, pelo contrário, pode se manifestar com mais rapidez. Aqui entre nós, que nada temos a perder, tanto faz. Saber mais sobre esses alimentos e seus efeitos (reais ou imaginários) só vai aumentar nosso prazer em celebrar a vida.

A ARTE DA CONQUISTA PELA BOCA

Certamente você já ouviu a expressão “ela (ou ele) me ganhou pelo estômago”. No filme “Como Água para Chocolate”, por exemplo, a personagem Tita expressa seu amor pelo cunhado Pedro através de pratos como vistosas codornas ao molho de pétalas de rosas – rosas estas que ganhara do próprio Pedro. O inteligente roteiro mostra as insinuações do amor proibido por metáforas gastrônomicas.

Permitido ou não, comprovado pela ciência ou não, a história mostra que alguns alimentos e nutrientes têm mesmo relação com o amor e o desejo. Desde sempre, o homem busca “poções mágicas” para deixar a vida na intimidade mais emocionante. E como é pela boca que aprendemos a nos alimentar e a perceber os sabores, fica fácil entender por que o estímulo amoroso através dos alimentos é uma prática milenar.

No século XVIII, a cortesã francesa Madame du Barry oferecia pratos salpicados de gengibre ralado para estimular seus amantes. Ainda na França, outra madame, a de Pompadour, garfou literalmente o rei Luiz XV pelo estômago, preparando uma iguaria deliciosa composta de aspargos. Conta-se inclusive que Luiz XV ficou tão apaixonado pelo sabor, que chegou a manter uma plantação de aspargos particular.

Casanova, por sua vez, fartava-se de ostras antes de ir ao encontro de suas (muitas) amantes. Do lado de cá do oceano, o imperador Montezuma costumava deliciar-se com uma mistura de chocolate quente aromatizado com baunilha e outras especiarias, antes de visitar o harém onde mantinha suas mais de 600 mulheres.

O alho e a cebola também têm história na culinária de Afrodite. O primeiro era considerado um estimulante indispensável entre os egípcios, gregos, romanos, chineses e japoneses. Eles acreditavam, sobretudo, que suas propriedades pudessem melhorar a libido na andropausa e na menopausa. As cebolas, por sua vez, eram tidas como um estimulante tão poderoso no antigo Egito, que sacerdotes celibatários eram simplesmente proibidos de comê-las. E na França era costume dos recém-casados recorrer a uma boa sopa de cebola para repôr a libido e a energia gastas na noite de núpcias. Animou, é? Mas vá com calma e parcimônia: a não ser que os dois gostem muito de cebola e alho, a noite (de núpcias ou de aventura) pode se tornar insuportável, devido ao hálito.

O mel, que era conhecido pelo nada ingênuo epíteto de Néctar de Afrodite era como um manjar dos deuses na antiga Grécia, protagonista indispensável nos casórios gregos: era costume a noiva tomar uma colher de mel, para que saíssem apenas palavras doces de sua boca. Inclusive é daí que vem o termo Lua de Mel. E também não é de hoje que os indianos aconselham que se tome, todos os dias, um copo de leite com 6 pimentas pretas e 4 amêndoas esmagadas. Para eles é um tônico poderoso, ótimo para o sistema nervoso e também para revigorar o físico.

DELICIOSOS E PRAZEROSOSsedução entre talheres2

Se a receita dos indianos parece indigesta, o mesmo não se pode dizer de muitos outros pratos e ingredientes da culinária afrodisíaca.

Os cultuados frutos do mar são considerados estimulantes porretas no jogo do amor. Ostras, por exemplo, são amadas por nove entre dez apaixonados. E não se sabe se o suposto efeito afrodisíaco se origna do formato libidinoso, do jeito de comer ou do fato de conter zinco, que colabora com a formação de hormônios como a progesterona. Além disso, como dissemos, Afrodite nasceu das espumas do mar. Portanto, a fama da ostra e seus colegas marinhos é mais do que merecida.

Para alegria dos chocólatras de plantão, vale a satisfação de saber o porquê de ficarmos animadinhos com o chocolate: ele libera endorfina e serotonina, conhecida como o hormônio do bem-estar. Para ficar ainda melhor, o cacau presente no doce contém feniletilamina, que aumenta a sensação de prazer.

Já o amendoim é aquele que fez fama e deitou na cama, por ser altamente energético e calórico. Assim como o aspargo de Luiz XV, ele contém vitaminas que contribuem para a dilatação dos vasos sanguíneos, aumentando a libido e o apetite.

O cardápio é variado e tem de tudo um pouco: massas, carnes, peixes e saladas fáceis de fazer, além de bebidas, frutas e sobremesas. Com os temperos certos, facilidade na execução, aromas inebriantes e o clima que você criar, tudo fica ainda melhor.

Entre as frutas, a romã contém polifenóis que melhoram a circulação sanguínea; a cereja e as uvas ajudam a estimular o tato e o paladar. (Além de terem uma aparência muito sensual); e o morango é considerado um dos frutos mais afrodisíacos. Por conta de sua textura e do vermelho vivo. Sem falar nas tâmaras, peras, nos pêssegos e na maçã. O fruto proibido pode até ter destruído o Éden, mas a gente pode tranquilamente culpar a serpente, porque a maçã, assim como os outros citados, contém boro mineral, que aumenta a produção de estrógeno e progesterona. No cardápio de uma noite de verão, vale incluir uma boa salada de frutas, de preferência com laranja, kiwi e morango que, no mínimo, vão atender às suas necessidades de vitamina C, irrigar os vasos sanguíneos e esquentar o clima.

“E o álcool, não ajuda?”, você deve estar se perguntando. Na dose certa e moderada, ajuda, sim. Mas a bebida pode ser uma faca de dois gumes, pois em quantidades exageradas, possivelmente vai levar você pra cama. Para dormir.

VAI UM TEMPERINHO AÍ?

Quanto à pimenta; os temperos ardidos e especiarias como açafrão, tomilho, coentro, gengibre, cravo, noz-moscada, jasmim, canela e mostarda, diz a lenda que são vistos como afrodisíacos pois podem acelerar os batimentos cardíacos e aumentar a temperatura do corpo e o suor, que são reações físicas típicas do ato de amor. Talvez seja daí que se originam expressões como “apimentar” e “temperar” a relação.

A erva ginseng também merece do rol juntamente com o açafrão, mas um estudo feito pela Universidade de Guelph, em Ontario, Canadá, pelo professor Massimo Marcone, resgatou a posição dos dois temperos na lista, comprovando que o ginseng, além de outras propriedades, aumenta a libido e equilibra os níveis de testosterona e estrogênio. A erva foi amplamente difundida como tempero pelos sempre sábios orientais, que utilizam-na, inclusive, em sopas. E a gente bem sabe que uma sopa acompanhada de vinho pode dar um caldo e tanto num jantar romântico, certo?

Por falar em vinho; é justamente nele que está o que consideramos um verdadeiro pecado do professor canadense. Marconi tenta derrubar a mística do vinho como contribuição para uma noite caliente. Dizemos “tenta”, porque nós, é claro, discordamos.

DICAS PARA EVITAR SAIAS JUSTAS

Uma roupitcha caprichada, um jantar à luz de velas, música romântica e tudo mais podem ir por água abaixo, se o que for servido não combinar com as intenções de conquista do casal. Alguns nutricionistas alertam quanto a frituras, alimentos muito gordurosos e carnes gordas. Bem, acreditamos que ninguém disposto a uma noite mais romântica vá iniciá-la numa churrascaria – até porque os garçons não dão chance nem tempo para conversa -, portanto não há perigo. Mas não custa avisar.

– Alhos e cebolas: como dissemos lá em cima, é bom maneirar. A não ser que você seja a reencarnação de uma antiga divindade egípcia ou uma noiva grega à moda antiga.

– Repolho, couve-flor, feijão, brócolis e outros: alerta vermelho. E você bem sabe o porquê.

Por último, sempre tenha em mente que, para uma boa conquista gastronômica, o que vale mesmo é preparar uma bela refeição, com muita cor e aroma, e usar o seu estimulante mais poderoso: o cérebro.

E o ovo de codorna?

Você não achou que iríamos pular este clássico, achou?

Bem, o ovo de codorna como afrodisíaco, por incrível que pareça, é um mito. Não há nada, nem um detalhe, que comprove sua eficiência neste sentido. Mesmo assim, é um alimento rico em proteínas e vitaminas, que vai muito bem numa saladinha provocante. E sempre nos restam os versinhos de Severino Ramos, imortalizados na voz do Rei do Baião Luiz Gonzaga: “(…) Passei da flor da idade / Mas ainda tenho / Alguma mocidade / Vou cuidar de mim / Pra não acontecer / Vou comprar ovo de codorna pra comer… Eu quero ovo de codorna pra comer /

Receita para namorar

O chef Allan Villa Espejo, da Rede Don Pepe Di Napoli, indica esta receita para um jantar a dois:

Preliminares: salada à base de bifun – macarrão japonês fininho e branco, com camarão, coentro e gengibre ralado, como ensina a clássica Madame du Barry.

Prato principal: coco ou minimorangas para combinações com camarão. Amendoim e pimenta vão bem para acompanhar.

Sobremesa: aqui a indicação é nossa. Morangos com chocolate ou chantili são uma boa pedida. Deguste, use a imaginação e bom apetite.

TEXTO: PAULO SAMÁ

IMAGENS: BANCO DE IMAGENS

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