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Se o fogão é o coração da cozinha, a geladeira é o seu pulmão. Sabe qual é a premissa básica da refrigeração? A rápida expansão dos gases – provocada pela compressão do líquido que se transforma em vapor – é que causa o resfriamento. Mas antes de se descobrir isso, o pensante ser humano se virava como podia. Este princípio da evaporação já era e ainda é utilizado na África há séculos. Consiste em colocar mantimentos cobertos com um pano úmido dentro de um vaso de barro ou cerâmica, e este dentro de um vaso maior. Depois, preenche-se o espaço entre eles com areia molhada. Ao evaporar-se, a água expulsa o calor e baixa a temperatura interna. É um tipo de geladeira rudimentar que funciona sem eletricidade. Nada mau.

Outro recurso para conservar alimentos é quase tão antigo quanto o próprio Homo sapiens e 100% natural: retirar gelo de lagos e rios congelados, do alto de montanhas e onde mais estivesse. Foi o meio de refrigeração mais longo, perdurando até o final do século XIX. Os primeiros depósitos de gelo e as primeiras adegas eram verdadeiros bunkers lotados de neve, porões recobertos de palha ou serragem como isolantes. Por volta do século XIII, uma importante descoberta: a adição de sal ao gelo fazia a temperatura cair abaixo de zero.

Na sequência, as chamadas ice boxes chegaram com tudo. Autênticos armários de metal ou madeira revestidos com estanho ou zinco, cheios de nichos para alimentos na parte inferior, e compartimentos para blocos de gelo na parte superior. Guardados os pesos e as medidas, eram as caixas térmicas ou de isopor de seu tempo.

A indústria extrativista de gelo era um grande negócio e prosperava, sólida e aquecida, no mundo todo. Em boa parte, foi a sua influência que inibiu a aceitação das primeiras geladeiras lançadas. Sorte que elas não demoraram tanto a chegar, senão Polo Norte e Antártida talvez não passassem de amontoados de icebergs hoje em dia.

Somente após a contaminação industrial do gelo e a sua escassez – provocada por invernos mais quentes, especialmente na América do Norte – é que um batalhão concentrou seus esforços em encontrar um meio mais prático e confiável de refrigeração. A sucessão de aparelhos e melhorias acontece vertiginosamente e até 1880, já existiam mais de 3 mil patentes. Por isso, é muito difícil apontar um único inventor, já que a geladeira teve vários pais.

  • 1748 – O químico e físico escocês William Cullen demonstra na Universidade de Glasgow o primeiro refrigerador artificial conhecido.
  • 1805 – O americano Oliver Evans projeta a primeira máquina de refrigeração movida a vapor.
  • 1818 – Os experimentos do físico americano Jacob Perkins comprovam a compressibilidade da água.
  • 1834 – Jacob Perkins aperfeiçoa o projeto de Evans e obtém a primeira patente de uma máquina de refrigeração.
  • 1851 – O americano John Gorrie abandona a medicina e cria uma máquina de fazer gelo. É considerado o mentor do ar-condicionado.
  • 1854 – Fabrica-se em Chicago o primeiro sistema refrigerador, para a indústria de carnes.
  • 1856 – A refrigeração comercial é inaugurada com o engenheiro americano Alexander C. Twining. E o australiano James Harrison usa o princípio da compressão do vapor em sua máquina refrigeradora, para atender às empresas de cerveja e carne processada para exportação.
  • 1859 – O francês Ferdinand Carré concebe um compressor que usava amônia, um refrigerador mais eficiente, para fins industriais.
  • 1891 – Enquanto na América, o novo design proposto por John Standart deixa os refrigeradores da época bem mais próximos do eletrodoméstico que conhecemos hoje, na Alemanha, o engenheiro Carl von Linde aperfeiçoa a invenção de Gorrie, interessa-se pela fabricação de refrigeradores domésticos e chega a vender 12 mil unidades.
  • 1894 – A pedido da cervejaria Guinness, Von Linde desenvolve um método revolucionário para liquefazer grandes quantidades de ar, estabelecendo a base da tecnologia moderna de refrigeração e facilitando os posteriores estudos de criogenia.

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A partir de 1913, a paisagem das cozinhas e os hábitos alimentares do mundo são alterados para sempre. Surgem as primeiras geladeiras domésticas, como a Domelre (Domestic Electric Refrigerator), não exatamente um êxito comercial, a Kelvinator em 1916, e a Frigidaire em 1918, estas sim popularizando o utensílio nos Estados Unidos, e a Monitor-Top, sucesso mundial. Nos anos 1920, aparecem as geladeiras a querosene, que continuam a ser usadas onde não há eletricidade. Até mesmo Einstein idealizou, em 1930, um modelo que se valia da pressão de gases e não consumia energia.

Mas o grande porém na vida da geladeira sempre esteve relacionado aos gases que empregavam. Por isso que 1928 é considerado um marco: foi quando Thomas Midgley desenvolveu o CFC e o freon, que substituíram os gases refrigerantes potencialmente tóxicos até então vigentes, como a amônia, o cloreto de metila e o dióxido de enxofre. O que ele não sabia é que o CFC detonava a camada de ozônio do planeta. A humanidade só ficou a par em 1973, mas as proibições quanto ao seu uso em aerossóis, aparelhos de ar condicionado e geladeiras só foram protocoladas em 1989. Hoje, a maioria delas traz hidroclorofluorcarbono (HCFC) ou hidrofluorcarbono (HFC).

O fato essencial é que a geladeira adicionou conveniência, economia e saúde. Da sua evolução, vieram os freezers. Aplaudimos o sistema frost-free, o frigobar, a geladeira side by side, o dispenser externo de água e o display digital. Dizem que as geladeiras do futuro vão pelo caminho dos supercondutores.

E o pinguim de geladeira, onde entra na história? Bem, ele surgiu em 1950 nas lojas yankees, com a missão de diferenciar geladeiras de armários de louça e despensas, cuja estrutura era bem parecida naqueles tempos.

O pinguim foi tão bem sucedido que ainda é visto no topo das geladeiras mais tops da atualidade.

Texto: Fabio Angelini

Fotos: banco de imagens