Certa feita, dois amigos resolveram abrir um restaurante em Florença: a Taberna das Três Rãs. A intenção era que ela fosse totalmente diferente do que existia então. E realmente foi. Porque tornou-se o primeiro estabelecimento vegetariano que se tem notícia. Porque apresentou pela primeira vez um cardápio a um cliente. Porque, ao lado dos pratos, eram dispostos panos dobrados com a função de limpar a boca, hoje universalmente conhecidos como guardanapos. E porque seus sócios eram nada mais, nada menos do que Botticelli e Leonardo da Vinci.

Não é de se estranhar que o visionário e curiosíssimo Leonardo, a mente que se destacou em todas as áreas possíveis e imagináveis, estivesse anos à frente do seu tempo inclusive à mesa. Tão à frente que ninguém entendeu porque aquela taberna do século XV não servia carne, símbolo de status social, nem o que significava aquele menu, um pergaminho ilustrado com os desenhos de Botticelli e textualizado com a escrita invertida de Da Vinci. Os cidadãos renascentistas não estavam preparados para tudo isso. E o restaurante fracassou.

De forma alguma este fato arrefeceu a atração do gênio italiano pela gastronomia e o seu desejo de revolucionar a comida naqueles tempos. Além de introduzir novas regras de etiqueta e criar acessórios de cozinha (como o esmagador de alho), ele tornou-se expert em decorações festivas e banquetes na corte de Sforza, em Milão. E foi ali, entre 1495 e 1498, que ele também pintou A Última Ceia, na parede do refeitório do mosteiro Santa Maria delle Grazie. Tampouco Da Vinci, que amava os animais, deixou de lado sua dieta vegetariana e seu prato favorito do dia a dia: minestrone.

O minestrone – que vem de minestra (sopa), acrescido do aumentativo “one” – é essencialmente um sopão de legumes picados, mais arroz ou macarrão. Sem dúvida, um alimento prático, rápido e ideal pra quem tinha tantas ideias na cabeça e tão pouco tempo para esboçar, pintar, estudar, projetar, pesquisar, inventar, teorizar e profetizar. Não há uma receita definitiva de minestrone, pois ele é normalmente feito com os legumes da época e da região. Os ingredientes mais habituais: tomate, feijão, cebola, cenoura, aipo, toucinho, alho, repolho, ervilha e macarrão. Mas também abobrinha, vagem, salsão, batata e pimenta-do-reino dão um bom caldo. E o prato pode, inclusive, conter alguma carne, contrariando nosso mestre nascido na cidade de Vinci.

Essa alimentação vegetariana, simples e nutritiva, pode ter contribuído para a longevidade de Leonardo, que viveu quase o dobro da média da época. Foram, indubitavelmente, 67 anos que entraram para a história das artes e das ciências. Mesmo tendo escrito um livro chamado “Notas de Cozinha de Leonardo da Vinci”, seu legado ao mundo da gastronomia permanece à sombra da mais incrível coleção de inventos e soluções de engenharia já imaginadas por um único homem. A sua paixão culinária pode estar em segundo plano para a maioria de nós, mas ao que parece, ele levava a matéria muito a sério. Tanto que Da Vinci deixou uma parcela considerável de seu patrimônio a Battista de Villanis.

Ela era a sua cozinheira particular.

O MINESTRONE

Rendimento: 8 porções

Dificuldade: média

Ingredientes:

  • ¼ de xícara de azeite extra virgem;
  • 2 cebolas médias em fatias finas;
  • 1 colher de chá de açúcar;
  • 2 cenouras médias em cubos;
  • 2 talos de salsão em cubos;
  • 2 batatas médias tipo Asterix sem pele e cortadas em cubos pequenos;
  • 150g de vagem em fatias de 1cm;
  • 2 abobrinhas em cubos;
  • 2 xícaras de tomate sem pele e sem sementes;
  • 2 xícaras de caldo de carne caseiro;
  • 2 xícaras de água;
  • Alecrim, tomilho e manjericão frescos a gosto;
  • 1 xícara de feijão cannellini cozido;
  • ½ xícara de macarrão tipo gravatinha;
  • Parmesão em lascas;
  • Sal e pimenta-do-reino.

 

Preparo

  • Em uma panela, aqueça o azeite e coloque as cebolas fatiadas com o açúcar;
  • Em fogo moderado, cozinhe até ficarem bem escuras e caramelizadas, por aproximadamente 40 minutos;
  • Adicione a cenoura, salsão, batatas e as vagens. Cozinhe por 10 minutos;
  • Adicione a abobrinha e cozinhe por mais 5 minutos;
  • Coloque os tomates, o caldo, a água e as ervas. Tempere com sal e pimenta;
  • Levante fervura a abaixe o fogo para cozinhar com a panela tampada por 30 minutos;
  • Adicione os feijões e cozinhe por mais 15 minutos. Desligue e reserve aquecido;
  • Cozinhe o macarrão e adicione ao Minestrone;
  • Acerte os temperos e sirva em pratos fundos ou tigelas;
  • Acrescente as folhas de manjericão e as lascas de parmesão.

Leonardo da Vinci  –  Minestrone
Fábio Rodrigues Angelini