a palabra

A instigante expressão “à moda de”, uma das mais utilizadas na cultura culinária mundial, pode sugerir algo passageiro, tendência, inspiração temporária. Talvez uma receita ou outra tenha nascido como modismo, mas a verdade é que muitas delas transcenderam seus tempos e tornaram-se eternas nas páginas gastronômicas e nos livrinhos da mamma, da nonna e dos chefs, de Singapura ao Canadá.

Claro que a geografia muda, mas o sentido universal permanece. Alla marinara. Huîtres (ostras) à Nantes. Huevos a la flamenca. Carne-de-sol à moda de Goiás.

Até que alguém invente outra reforma ortográfica na língua portuguesa, “à moda de”, “à maneira de”, é assim craseado, desde que sejam locuções adverbiais, inclusive antes de palavras masculinas, como é o caso do bife à Camões, também denominado bife a cavalo. Aquele mesmo que leva um ovo estrelado em cima. Foi batizado assim pelos cavaleiros sulistas do Brasil.

Em certa época, era corrente escrever algo do tipo “polenta aa moda de Trento”. A crase surgiu com a evolução natural do idioma, da necessidade de atender ao ouvido moderno e evitar o estranho hiato das vogais “a’’. A palavra vem do grego “krâsis” e significa fusão, mistura.

Hoje, conhecemos e apreciamos várias dessas misturas, desses pratos com o toque da crase. Bacalhau à moda de Lisboa. Filé à parmegiana. Frango à caipira. Berinjela à milanesa. Sejam mais populares ou elitizados, o acento agudo invertido empresta algo de nobre, tempera a curiosidade e até parece evocar mais sensações, estimulando a imaginação, o paladar. Contrariando a regra, de vez em quando topamos com algum “à moda da casa”, uma receita desconhecida de combinações duvidosas e preço exótico.

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As histórias que cercam certas criações são deliciosas. Se você pedir um espaguete à bolonhesa em Bolonha, o garçom vai olhar com cara de tacho. Embora seja amado (especialmente pelas crianças) e esteja nos cardápios do mundo inteiro, ele não existe por lá. Há o ragù alla bolognese, molho à base de cenoura, bacon e vinho branco, servido com a massa típica da Emilia Romagna, o tagliatelle.

Já com o virado à paulista, a coisa aconteceu de forma mais simples e espontânea: junto com os alfanges, bacamartes e montarias, os bandeirantes carregavam feijão cozido, farinha de milho, carne-seca e toucinho, que acabavam virando e revirando no calor da expedição. Daí veio o nome. Quanto ao molho à putanesca, nem tente explicar a sua origem, desafio até para os estudiosos. Uma intrincada rede de teorias picantes, bordéis espanhóis e uma cafetina napolitana que se autointitulava Yvette, a Francesa.

No mais, a crase continua a ser um prato cheio nas mãos de professores, revisores e corretores de provas, porque grande parcela dos nossos estudantes, infelizmente, ainda teima em comer o acento.

Texto: Fábio Rodrigues Angelini
Fotos: banco de imagens

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