A intenção não era, de forma alguma, abrir este texto com um clichê tão… tão… clichê. Mas foi inútil. A tentação foi maior e o dito popular, maior ainda. Fui vencido pela força das superstições. E quem não as tem, que atire o primeiro dente de alho.

Sem títuloTodos nós – talvez com uma pequena margem de erro, diriam os senhores das pesquisas, já nos flagramos em algum ato supersticioso. Sabe aquela dificuldade absurda em passar por debaixo de escadas? Dizem que atrasa a vida, né? E você aí, que deu esse sorrisinho amarelo, talvez não deixe sua bolsa no chão nem sob tortura. Dizem que o dinheiro foge, afinal de contas. Ou aquele fulano que se diz cético até o último suspiro, mas não abre o guarda-chuva dentro de casa.

Há também os que não colocam o nariz pra fora na tal sexta-feira 13, e outros tantos que já se sentem condenados ao limbo por quebrar um espelho. Sem falar naqueles que têm horror aos gatos pretos que, mesmo quando não cruzam a nossa frente, levam a má fama. E olhe que todos sabemos que, atravessando ou não o caminho, os azarados são os pobres e incautos felinos, principalmente os de rua, que ou viram cuíca no morro, como diz a lenda, ou acabam na grelha de algum churrasqueiro de esquina.

De modo geral, as superstições não têm origem definida. É tudo muito específico. Por exemplo, se você diz “Deus te abençoe” quando alguém espirra, pode creditar essa ao Papa Gregório Magno, que comandou a Igreja Católica a partir do ano 590. Conta-se que ele dizia isso sempre que as pessoas espirravam durante o surto de peste bubônica. A frase sagrada afastava o mal e impedia que a alma “fugisse” do corpo após o espirro.

CRENDICES E TABUS. UM PRATO CHEIO NA MESA E NA COZINHA

Almas fujonas à parte e aproveitando o mês das bruxas, que tal xeretarmos as superstições mais comuns à mesa, na cozinha ou ligadas a alimentos? Além de divertido, talvez você se surpreenda ou já tenha visto algumas delas in loco. E o mais interessante é que algumas delas simplesmente não têm explicação. Simplesmente existem. Está pronto? Então, pé de pato, mangalô três vezes e vamos lá!

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  • NÃO CHORE SOBRE O VINHO DERRAMADO: embora a gente não goste de desperdiçá-lo, se cair um pouquinho, não se preocupe. É sinal de sorte e alegria.
  • SAL NO CHÃO: ARREPIOU A NUCA? Essa história de mau agouro vem lá do Império Romano. Como o sal era a única maneira de conservar os alimentos, ele era precioso. Além disso, os soldados romanos eram pagos em sal. Caso você não saiba, o “soldo” que cai na sua conta bancária todos os meses vem do latim salarium, justamente por causa disso. Portanto, derrubar o sal era sinal de desperdício e de pobreza vindoura, arquitetada pelo “Malvadão”, que, acreditava-se, estava atrás do infeliz que o derrubou. É por isso que, quando o sal cai no chão, costuma-se jogar um pouco por cima do ombro: pra cegar e espantar o “coisa ruim”.
  • DIA 29 É DIA DE INHOQUE. E de atrair dinheiro: se você ainda não ficou rico, é porque não fez direito. Dizem que a gente tem de comer as 7 primeiras garfadas em pé. E mesmo que você não acredite no Inhoque da Fortuna, o prato é uma delícia.
  • CAIU FARINHA NO PISO? Tente deixar um tempinho a mais antes de recolher. Dizem que é sinal de fartura.
  • vassoura
  • SEGREDOS REVELADOS: se você tem algo que não quer que ninguém saiba, não deixe beberem no seu copo. Isso vai desvendar seus segredos para o bebedor. Por outro lado, se você for apaixonado por alguém e a timidez o impede de se declarar, ofereça o copo sem medo.
  • TREZE PESSOAS NA MESA não é nada bom: aí está o 13 de novo. E essa vem da Santa Ceia. Jesus e mais 12 apóstolos. Um deles o traiu. Adivinhe quem simboliza o 13? Na dúvida, convide sempre 14 comensais. Ou peça para alguém comer na sala.
  • VOCÊ DEIXAVA COMIDA NO PRATO e sua mãe brigava? Isso também tem explicação, e talvez nem ela saiba. Os escravos acreditavam que restos de comida alimentavam os espíritos, que ficavam para sempre perto do perdulário que desperdiçava a boia.
  • ÍNDIOS E TOTENS: acredita-se que os indígenas brasileiros evitavam comer os animais que representavam em seus totens, por receio de ofender os deuses e perder sua proteção divina.
  • AH, OS COLONIZADORES… Muita gente acredita que grande parte das superstições alimentares brasileiras são devidas aos portugueses que, muitas vezes, criavam invencionices para que índigenas e escravos fossem mais educados ao se alimentarem. Nessas, incluem-se algumas originárias do credo católico (ao menos é o que eles diziam). Acreditava-se que Jesus, os Anjos da Guarda e os santos estivessem sempre presentes às refeições, portanto falar palavrões ou nomes feios à mesa, comer despido, sem camisa ou de chapéu não pegava muito bem. Em pé também não, aliás. Mas os simpatizantes do Inhoque da Fortuna discordam.
  • CANTAR NA MESA? JAMAIS! Segundo Câmara cascudo em “História da Alimentação no Brasil”, há um ditado que reza o seguinte: “quem come cantando, morre chorando”. Atenção, italianos, tarantella na mesa pode ser periogoso!
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  • JOGANDO LENHA NA FOGUEIRA: algumas superstições vêm do tempo em que ainda se usava o fogão a lenha, como praguejar ao acender o fogo. Isso, dizia-se, atraía “o cão” e seus asseclas. E quando havia faíscas, alho nelas! Era bom para afugentar os maus espíritos. Acreditava-se também que acender o fogo com papel deixava a comida insossa, sem gosto. Ainda sobre isso, se aparecesse um chato para o jantar, era recomendável jogar sal no fogo (o sal, mais uma vez). Dizia-se que a visita indesejada ia embora rapidinho.
  • CRENDICES GESTUAIS: na hora de comer e cozinhar, o que você faz com as mãos pode fazer com que os mais supersticiosos peguem no seu pé. Pegar os pratos com a mão direita para atrair fartura e devolver com a esquerda para espantar a miséria é só uma das crenças. Quer mais? Passar o saleiro (pobre sal, sempre ele) diretamente à mão de quem o pediu é fim de amizade na certa. Para mexer a comida, recomenda-se que seja sempre na mesma direção e pela mesma pessoa, senão desanda e fica sem gosto. Outros recomendam os movimentos para um lado e depois para o outro. Além disso, não servir a primeira porção ao dono da casa também não é bom agouro.
  • NEM A PANELA SE SALVA: dizem que, quando a comida queima duas ou mais vezes na mesma panela, é melhor se livrar dela porque está viciada. Em quê? Boa pergunta.

Assim como estas crenças, existem muitas outras que você não conhece. Outras, ao contrário, você provavelmente conhece e não estão aqui. As superestições à mesa são muitas e dariam caldo para mais de um artigo.

Mas, acreditando nelas ou não, uma coisa é certa: o folclore alimenta a imaginação e traz uma graça toda especial à vida. Lembre-se disso quando receber alguma visita inoportuna na hora das refeições. Se não tiver forno a lenha para jogar o sal no fogo, talvez uma vassoura atrás da porta resolva as coisas.

Texto: Paulo Samá

Fotos: Banco de imagens

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