Um dos utensílios mais usados na alimentação. A colher tem uma das histórias mais antigas entre os artefatos utilizados pelo homem. As primeiras tentativas do homem em fazer colheres talvez pareçam primitivas se considerarmos os padrões modernos. Mas eram eficazes. Escavava-se o final de um osso ou de um chifre. Ou amarrava-se um pedaço de vara a uma concha para criá-las. Durante toda a Idade do Bronze e do Ferro; as pessoas continuaram a utilizar esses materiais. Embora algumas colheres feitas de uma liga de cobre, tal como o bronze, tenham sido encontradas. Ao longo do tempo, colheres foram feitas também de chumbo. E, principalmente, de prata.

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As primeiras colheres foram encontradas em escavações na Mesopotâmia. As tumbas egípcias mais antigas também continham colheres. E os egípcios utilizavam-nas principalmente para aplicar cosméticos. Colheres também já foram presentes comuns. Especialmente em eventos como batismos. Também eram presenteadas em casamentos e funerais, como símbolos de amor e de fé.

Os primeiros exemplos de colheres usadas pelos romanos compreendiam uma superfície abaulada e redonda. Como uma bacia, ligada a um punho estreito, que afilava na ponta. Essa ponta era utilizada para espetar caracóis e os tirar de suas conchas. Modelos mais tardios dessas colheres já incorporavam uma espécie de cotovelo ao cabo, que impedia a colher de escorregar no prato, e a forma de uma pera, na porção que era levada à boca. Algumas colheres tinham cabos dobráveis, o que as tornava mais fáceis de carregar no dia a dia, já que eram um utensílio essencial e sempre à mão de seu dono.

Com uma longa história, desde o século XIV, as colheres de prata também foram produzidas em grande quantidade, e de todos os tamanhos — desde as pequenas, usadas para especiarias, até aquelas que mexiam as grandes panelas. Também tiveram formatos variados, desde conchas do mar até figuras emblemáticas. Foram, também, feitas em todos os cantos do mundo, pois parece não haver uma comunidade humana que não tenha criado a sua colher. E, na era vitoriana inglesa, passaram a ser item de colecionador.

As colheres de prata inglesas, fabricadas no início do século XVII; eram simples e sem adornos. Elas tinham a forma de uma concha oval, rasa, ligada a um cabo plano e com um leve estreitamento na porção frontal – a que é levada à boca. São chamadas de puritanas, porque pertenceram a um período muito específico, o do governo Cromwell, e se distanciam das colheres anteriores, com conchas em forma de figo, cabos mais robustos e hexagonais e porção frontal mais larga. Estas colheres mais antigas, aliás, eram obras de arte dos artesãos ingleses, que faziam pequenas esculturas em seus cabos, representando mulheres nuas, leões sentados ou cachos de uvas.

Esse tipo de adorno foi banido do período republicano inglês, e diz-se que as colheres de prata, assim como outros utensílios, tornaram-se mais pesadas e densas, como forma de acumular prata para não perdê-la no custeamento da defesa das cidades. Afinal, colheres eram consideradas utensílios essenciais e não era preciso se desfazer delas. Entre as variedades de colheres antigas, inclui-se a utilizada pelo rei inglês Henrique VI, cujo cabo achatado servia para selar documentos e cartas.

As colheres puritanas logo seriam substituídas pelas chamadas colheres trífidas, de onde se originaram todas as colheres modernas. Ao contrário das colheres puritanas, cuja concha, rasa, lembra um figo, as trífidas são ovais e fundas, e com um cabo aumentado na ponta, com um desenho fendido característico. Segundo Bee Wilson, no livro “Pense no Garfo”, “o desenho era francês: o trifólio é um eco da flor-de-lis, o lírio estilizado que se associa à monarquia francesa. Virando-se a colher, via-se que a haste batida continuava até as costas da parte côncava, terminando num sulco em forma de seta, às vezes chamado de ‘rabo de rato’”. Os plebeus ingleses tinham as suas colheres neste mesmo formato, mas feitas de material menos nobre do que a prata, tais como estanho e latão.

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No período eduardiano (1901-1910), no Reino Unido, colheres para ovos eram feitas de madrepérola. No tempo dos Hannover (1714-1901), havia colheres especiais para mostarda, o que mostra a importância que esse condimento tinha na dieta inglesa. Outros exemplos de colheres especiais incluem as colheres azuis e brancas de porcelana, usadas para tomar sopa de wontons, e pazinhas de prata, parecidas com mini-colheres de sopa, utilizadas para pegar sal. Kafgeer, por exemplo, é a colher afegã grande e achatada, lembrando uma pá, usada para servir arroz.

No século XVIII, conchas e colheres de prata foram desenvolvidas pelos ingleses especialmente para se comer tutano de boi assado. Mas nada mais emblemático do que a colher de chá. Inventada pelos ingleses na segunda metade do século XVII, quando estes começaram a acrescentar leite à bebida, tornou-se item essencial entre os talheres a partir do século XIX, e virou, mesmo, referência de medida para fermento e condimentos em boa parte do mundo.

No século XIX, com a passagem do serviço à francesa (no qual os pratos eram postos na mesa ao mesmo tempo, para que os comensais se servissem) para o serviço à russa (em que a refeição é servida em etapas, com utensílios próprios para cada uma delas), novas colheres surgiram, para outros fins: colheres diferentes para sopas e para bouillons (caldos), para servir ostras fritas, macarrão e batatas chips.

Colheres continuam populares em todo o mundo. E modernamente, ganharam novos materiais, como inox; plástico e madeira; como as nossas famosas (e bem antigas) colheres de pau. As pessoas hoje podem não carregar colheres nos bolsos ou no cinturão como antigamente. Mas ninguém vive sem uma.

Texto: Ana Caldeira

Fotos: banco de imagens

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