apressie sem pressaTendências voltadas à origem e consumo de alimentos com sabores familiares estão em alta no universo gastronômico. Pegue um taça de vinho, corte um pedaço queijo e deguste sem pensar no tempo, mas na origem de cada alimento.

Agenda cheia de compromissos. Trânsito e caos consomem parte do tempo da rotina de uma grande parcela das pessoas que vivem nas metrópoles do país. Na hora da refeição, muitos mal entram no restaurante. Já fazem o pedido e em menos de 20 minutos saem para voltar às suas atividades. Se você leu e se identificou com essas ações, saiba que há duas tendências no cenário da alimentação que pretendem transformar e modificar esses hábitos de consumo. São a Slow Food e a Comfort Food. Que visam possibilitar uma alimentação sem pressa e com mais informações sobre o que é consumido em cada prato. E trazer aquele gostinho de comida caseira, resgatando o tempero familiar para os estabelecimentos. Onde os chefs são os responsáveis por escolher a dedo cada alimento que entra na cozinha.

A Comfort Food nada mais é do que a culinária caseira. Que associa aromas e sabores que fizeram parte da rotina e da infância das pessoas. Ocasionando sensações inesquecíveis de momentos vividos em família ou com os amigos. A teoria aponta que a comida das avós são as mais associadas pela tendência. Que nos Estados Unidos também é conhecida por Pleasant Food. E vem sendo colocada em prática nas criações do famoso chef inglês Jamie Oliver. Que inclusive lançou o livro Comida Caseira, pela editora Globo, no ano passado. Nos restaurantes é colocada em prática através da produção artesanal dos alimentos. Releitura de receitas de família e das pesquisas que envolvem cada prato.

Antigo, porém atual
Já o conceito “comer sem pressa” surgiu há quase 30 anos. Através do Movimento Slow Food. Idealizado pelo italiano Carlos Petrini, ressaltando a filosofia de que a forma sobre como nos alimentamos tem profunda influência nos fatores que nos rodeiam, desde a paisagem à biodiversidade da terra e as tradições. Através de informações e ações, o conceito pretende melhorar a qualidade da alimentação em diversos lugares do planeta e conscientizar as pessoas para arranjar mais tempo para saborear e tornar o hábito vital e cotidiano de se alimentar, ainda mais prazeroso. Outro princípio básico do movimento também é proporcionar o direito ao prazer da alimentação, utilizando produtos artesanais de qualidade, produzidos de forma que respeite tanto o meio ambiente, quanto as pessoas responsáveis pela produção, os produtores,
fundamentais para que os alimentos que cheguem à mesa.

slow foodArticulador do Slow Food no país e membro da Rede Sementes Livres Brasil, o biólogo Glenn Makuta avalia que o acesso à informação ocasionado pela internet tem potencializado a conscientização e o questionamento na hora de se consumir alimentos. “O movimento tem como um dos pilares a Educação do Gosto, que consiste não apenas numa educação alimentar ou nutricional propriamente ditas, mas uma abordagem mais holística, considerando toda cadeia e cultura alimentares envolvidas. Muitas iniciativas mesmo não estando diretamente relacionadas ao Slow Food, inspiram-se no movimento e em sua filosofia, de forma que esta mensagem tem um alcance bem difícil de mensurar, mas que o acesso à informação tem potencializado essa mudança de comportamento”, destaca.

Aderindo ao slow food
Substituir temperos industrializados por especiarias naturais pode ser uma porta de entrada para quem quer começar a aderir `a tendência em casa, segundo Makuta. Como são utilizados em muitas receitas, é possível produzi-los em abundância, por serem práticos. “As versões ultraprocessadas dos alimentos substituíram seus correspondentes que um dia já foram artesanais e feitos em casa. Bolos, massas, sorvetes, condimentos, iogurtes, cervejas, pães, embutidos e até salgadinhos são passíveis de serem produzidos em casa. Depende muito mais da disposição da pessoa para a produção e processamento desses alimentos do que qualquer outro fator. É claro que alguns desses alimentos citados necessitam de técnicas e equipamentos adequados ou adaptados, mas nada que seja impossível de se praticar”, ressalta.

Algumas ações sociais também fazem parte do conceito Slow Food, realizadas em diversas regiões. Em São Paulo, região onde Makuta atua diretamente, há três sensibilizações que ocorrem, como o Chef na Feira, evento onde apresentam ao público alguns produtos da Feira Orgânica do Modelódromo do Ibirapuera, bairro da capital paulista, que são preparados por um chef convidado. Há também o Disco Xepa, que são banquetes gratuitos ou disponíveis a preços simbólicos. Usando alimentos que seriam descartados por não satisfazer ao padrão estético que o comércio convencional impõe sobre o grande público, e a Festa Junina Livre de Transgênicos, que traz ao público questões sobre os impactos dos transgênicos na agricultura e alimentação e a necessidade de rotulagem adequada desses produtos, apresentando alternativas e releituras do tradicional receituário junino.

Para o biólogo, repensar no modelo de distribuição, consumo e descarte e entender seus desdobramentos nas esferas social, ambiental, política, econômica e cultural são requisitos básicos para mais qualidade de vida no planeta. “Podemos exigir e fomentar modos socioculturais e ambientalmente regenerativos de produção. A informação é revolucionária. Os consumidores ainda são muito desprovidos de informação acerca do alimento, colocando a alimentação em segundo plano nas prioridades. Por isso, a educação alimentar infantil também é essencial para que haja mudança a longo prazo no padrão de consumo”, expõe Makuta.

Tendências na prática
Colocando em prática as tendências no restaurante Banana Verde, especializado em culinária natural em São Paulo, a chef Priscilla Herrera é adepta das tendências Slow Food e Comfort Food por buscar novidades para a cozinha do restaurante inaugurado há 8 anos. “Eu percebi o quanto era importante manter as raízes e inovar alimentos poucos conhecidos. Quanto mais novidades produzíamos em nossos pratos, mais atiçava a curiosidade do público. Com o tempo, esses pratos tornaram-se campeões de vendas em nosso restaurante, como o risoto de arroz vermelho com gorgonzola, nozes, pera e shitake. O arroz vermelho foi esquecido de alguma forma em nossa história. Hoje ele é presente todos os dias em nosso restaurante”, conta.

A chef, que ingressou na carreira em 2004, cursando gastronomia pelo Senac, avalia que a população vem buscando mais opções saudáveis, como os alimentos orgânicos, deixando os produtores mais otimistas. Ela também conta que trabalhar com culinária natural requer um estudo aprofundado na composição dos nutrientes e combinações de cada prato. Por isso, aproximar o contato com os produtores e manter um cardápio sazonal, além da logística de como organizar, comprar e preparar os alimentos, deixando as receitas o mais frescas possíveis, são diferencial para a qualidade da alimentação dos consumidores.

Tempero caseiro fora do lar
Trazer os sabores caseiros, resgatando a culinária de família para o restaurante é uma das ações da chef. Que aponta que as pessoas cada vez mais estão sem tempo para cozinhar. “A pessoa se identifica com a proposta e se sente acolhida em um restaurante. Isso fideliza o cliente, que procura uma comida de verdade, que remeta a alguma lembrança boa. Comida tem ligação muito forte com a família e amigos, comida é cultura e educação. Comida aproxima as pessoas”, opina.

Priscila também aponta que uma medida para incentivar, e quem sabe no futuro priorizar a alimentação saudável. Além de buscar informação sobre os produtos consumidos; é incentivar as crianças desde cedo a frequentar feiras orgânicas e hortas comunitárias. A chef também deixa um recado aos profissionais de alimentação que desejam ter mais qualidade na elaboração dos alimentos. “Estudar mais, testar, visitar seus produtores e procurar, de alguma forma controlar o desperdício e ajudar o planeta de uma forma sustentável, pode ser uma maneira de mudar o rumo das coisas”, conclui.

Japa orgânico
Pegando carona nas tendências que valorizam os alimentos, o idealizador da marca Sassá Sushi Delivery, Alexandre Saber. Acaba de lançar um cardápio natural e orgânico para os restaurantes e serviço delivery. Por lá, os peixes e os frutos do mar são adquiridos de uma marca que controla a procedência. Certificando que as iguarias possuem baixo teor de gordura saturada e ômega 3 em excesso. Além disso, o arroz utilizado na produção de sushis e temakis é orgânico e integral. E as embalagens das entregas delivery são feitas em papel reciclado. Indicando o valor nutricional do prato. “Tudo foi preparado visando o bem-estar e a qualidade de vida. Além de ser um pedido dos próprios clientes da rede”, comenta o chef.

Saber também conta que foi necessário estudar e testar os ingredientes para conseguir aprimorar o cardápio da marca, que surgiu em 2003. “Depois de muita pesquisa, encontramos os ingredientes para uma linha de sushis, começando pelo arroz, que é a base e, sendo orgânico e integral, demandou algum tempo até conseguirmos deixá-lo no ponto em grande volume, depois = escolhemos peixes selvagens com regras de sustentabilidade, como os peixes do Alasca e peixes criados no Brasil, como o Bijupirá e o Pirarucu. Temos uma linha focada em redução de sódio, maior teor de fibras, com açúcar demerara utilizado no tempero do arroz e todos os legumes e hortifrutis orgânicos”, expõe.

Apreciar as comidas levando em consideração a origem e a história que envolvem cada prato, são aspectos primordiais para degustar as iguarias. Com informação e, claro, sem pressa, como ditam as tendências.

Texto: Amanda Ivanov