A história da ex-publicitária paulistana Patricia Schmidt parece um conto de patricia schmidtfadas. Não só por causa dos bolos lindamente decorados que faz desde 1999, e que remetem aqueles que os devoram a um mundo encantado de bonecos, bichos e flores feitos de açúcar e quetais.

Depois de tornar memoráveis, no início de sua carreira nos anos 2000, as festas de famosos como Adriane Galisteu e Tom Cavalcanti  fruto de técnicas aprendidas com feras da confeitaria, como a inglesa Debbie Brown e a americana Colette Peters, Patrícia vive uma vida mágica em Barcelona.

Há quatro anos, casou-se com um dos maiores confeiteiros da atualidade, o espanhol Christian Escribà. Nesta entrevista, ela conta como conheceu o famoso pasteleiro, e o trabalho estonteante que a dupla realiza na centenária Pasteleria Escribà, cujo lema é “Não só fazemos doces, criamos ilusões”.

Como você se tornou boleira?
Quando era criança, meu presente preferido era um forninho da Atma. Tive um filho prematuro, e por isso ficava muito em casa. Até que um dia em 1999, vi uma revista de culinária, com bolos bonitos. Já tinha visto alguns deles nos EUA, em 1985, quando fiz intercâmbio. Naquela época, voltei e disse à minha mãe que queria decorar bolos. Então, quando tive meu filho, comprei uma revista e comecei a fazer bolo. Peguei uma receita de brownie e decidi fazer no formato de minibolo e dar para as pessoas de presente.Fiz a receita de pasta de açúcar da revista e melhorei da minha cabeça.

Fiz as caixas de presente, montei 15 minibolos e fui entregá-los. A primeira pessoa que entreguei quis comprar todos. Eu nem tinha calculado o preço! Um destes foi parar nas mãos de uma amiga da Claudia Bolla, filha do restaurateur (já falecido) Giancarlo Bolla, que resolveu fazer uma encomenda para o Natal. Daí peguei uma receita da minha mãe – a essa altura, eu já tinha feito um curso de cozinha na escola Wilma Kövesi. Errava a receita, não sabia fazer direito. Mas fiz um bolo que era um chapéu do Papai Noel, do qual saiam vários utensílios. Minha mãe viu e disse: se realmente você gosta disso, vá estudar.

Foi então que fez o curso na famosa escola Wilton, nos Estados Unidos?
Sim. Em abril de 2000, fui estudar na Wilton School of Cake Decorating, em Darian, um vilarejo perto de Chicago. Voltei encantada, e logo fiz um bolo para o filho de uma amiga. Acontece que na festa dele estava uma jornalista de uma revista chamada Faça e Venda que quis conhecer meu trabalho, e pediu para eu fazer minibolos. Acabaram virando capa da revista. Meu telefone não parava de tocar, em busca de aulas. Então, decidi dar aulas em alguma escola, para atender a demanda, e a Wilma Kövesi me aceitou em sua escola.

Comecei então a dar aulas lá. Mas queria aprender mais e não parei de estudar. Fui fazer curso de decoração de bolos na Squires Kitchen International School em Surrey, Inglaterra, com Debbie Brown, que atendia o parlamento britânico. Eu buscava uma disciplina, me fixava em quem trabalhava com a técnica, juntava dinheiro e ia para onde a aula estivesse acontecendo. Em março deste ano, fui a uma feira e aproveitei para fazer cursos com uma artesã de açúcar japonesa.

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Você participou de eventos e também lançou um livro, não?
Além das aulas, participei de algumas edições do evento Boa Mesa (criado pelo crítico gastronômico Josimar Melo, e já extinto), não só em São Paulo, mas também em Minas Gerais. Dei aulas em Curitiba, Lisboa,Porto,Tokyo Também lancei meu primeiro livro em 2001, “Minibolos Decorados”. O livro deu certo, vendi cinco mil cópias. Em 2009, me convidaram para cuidar da confeitaria artística do curso superior de Confeitaria e Panificação da Anhembi Morumbi. Sempre gostei de dar aulas.

Hoje você trabalha com o famoso confeiteiro espanhol Christian Escribà. Como foi esse encontro?Tinha ouvido falar do Christian, que atualmente é meu marido, quando houve o Jantar do Século em São Paulo, com vários chefs espanhóis, anos atrás. Tempos depois, quando fui dar aulas em Portugal, decidi ir a Barcelona ver os comentados anéis de caramelo que ele fazia. Liguei para marcar uma visita. No dia marcado, entro na loja e vejo um bolo enorme sendo decorado com caramelo. Eu tinha ido recentemente à Argentina para aprender justamente as técnicas de caramelo. Me apresentei ao Christian e ele logo me pede para assinar meu livro, que ele havia recebido de alguém aqui no Brasil. Nem acreditei.

O que mais te surpreendeu nesse encontro?
O showroom, na parte superior da loja, era indescritível. Tinha paredes de merengues pendurados, caramelos, pequenas vitrines com obras de chocolate… Falei a ele do meu interesse pelos anéis de caramelo e, de repente, ele desce uma cortina e surgem bolos enormes, lindamente decorados. Me fizeram sentar e assistir a um filme de apresentação da confeitaria, onde pude ver a diversidade do trabalho da confeitaria Escribà, que já está na quarta geração. Eles fazem bolos em paredes, os murais comestíveis, bolos que voam ou explodem, que somem e reaparecem… quando terminou o filme, não sabia o que falar. No dia seguinte, fiquei de voltar para levar alguns anéis de caramelo para o Brasil.

Quando retornei, o bolo que estava sendo feito no dia anterior seria apresentado num evento importante de gastronomia, chamado Gastronomika. Ele se chamava “pastel do futuro” e, utilizava, pela primeira vez, uma tecnologia chamada mapping (com computador e projetores) em confeitaria. A ideia era mostrar como o bolo de noiva praticamente não evoluíra desde a década de 1920. Quando vi um bolo de noiva em que eram passados trechos de filmes, fiquei maravilhada! Daí, nos apaixonamos. Tinha mil coisas que eu queria perguntar a ele sobre doces, então tínhamos muito o que conversar. Voltei ao Brasil e, algum tempo depois, ele foi ao Brasil me pedir em casamento e conhecer minha família. Então vim morar com ele em Barcelona, em 2010.

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A confeitaria Escribà é muito famosa, não?
Sim. Foi o bisavô do Christian, Mateu Serra Capell, que comprou a confeitaria Escribà do sogro, que existe desde 1906. O avô do meu marido, Antoni Escribà Casas, chegou a ganhar um campeonato de caramelo na França em sua época. O pai do Christian, Antoni Escribà Serra, que o sucedeu, cursou artes, e aplicou tudo o que aprendeu em artes no chocolate.

Durante o período da ditadura aqui na Espanha, havia uma espécie de comercial no cinema, antes do filme, e em um deles o pai do Christian aparecia. Seguindo os franceses, ele foi o primeiro a utilizar a manteiga para fazer croissants na Espanha, onde tradicionalmente se usava banha de porco. O que quero dizer com isso é que os Escribà sempre estiveram à frente dos outros espanhóis. O pai ganhou muitas medalhas, entre elas, a de melhor pasteleiro (que é a palavra espanhola para confeiteiro) da Europa. Quando perguntaram a ele onde queria recebê-la ele disse: no parlamento europeu. E assim foi. A última medalha que seu pai recebeu foi a medalha de ouro de Barcelona, de mérito cultural.

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Como é essa troca entre vocês, dois confeiteiros de formação e cultura tão diversa?
Christian é um artista, como eu nunca conheci. Ele não tem nenhum tipo de limite, e eu sou exatamente o oposto. Então, algumas vezes nossa relação é complementar e, outras vezes, é oposta. Em termos de decoração, por exemplo, sou muito mais minuciosa do que ele. Por outro lado, o Christian faz um trabalho em bolos que envolve tanta coisa merengues, telas, chocolate que você não presta atenção no detalhe, pois você se encanta com o todo. Então, nesse ponto, somos complementares. outro dia ele quis modelar, mas ele não para quieto. Dia desses, ele quis fazer bolos na parede, uma espécie de instalação, de mural: forramos a parede com isopor e cobrimos com merengue.

Daí colocamos de tudo: petit fours, frutas, doces, bombons em palito, plumas (plumas de verdade, não de comer). Quando ele me conheceu, o que lhe chamou mais atenção foi minha obsessão de querer que tudo no bolo seja de comer. Aqui na Espanha, eles se guiam muito pelas recordações da família, as lembranças.. Então, seguindo esse raciocínio, quando os espanhóis compram um bolo espetacular do Christian, o que eles compram é uma experiência, uma vivência, um momento, único e inesquecível. Depois dos bolos na parede, passamos a fazer mesas e paisagens comestíveis.

Você vai a muitos restaurantes espanhóis, e conhece vários chefs importantes. Esse é, inclusive, o aspecto que você explora na sua coluna Doce Mundo, na revista brasileira de gastronomia Menu. Quais são seus restaurantes e chefs preferidos atualmente em Barcelona?
Adoro ir ao tickets, do Albert Adrià, irmão do Ferran Adrià. Toda vez que vamos tem novidades. Ele é muito versátil nas combinações, e elas ficam na memória. Tomei uma espécie de sopa fria de laranja com azeitona, um tipo de combinação que jamais me passou pela cabeça.

Também gosto do Casa Paloma: é um restaurante com uma decoração linda, e um conceito que me encanta, que são os pratos de toda a vida revisitados, para o momento atual. O tartare e a floresta negra deles, por exemplo, são ótimos. E, entre tantos, do Dos Palillos, pequeno, de comida asiática e todo com balcões, e o Tapas 24, do Carles Abellan, para petiscar.

Texto: Ana Caldeira

Fotos: divulgação

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