Sabe aquela vitamina de frutas bem batidinha e homogênea, borbulhando de gostosa? Ninguém sabia o que era isso no início do século XX. Mas se existiu alguma, foi por milagre. Quem se atrevesse a prepará-la em casa deveria ter paciência de Jó para cortar, picar, transformar os alimentos sólidos em pedacinhos minúsculos, depois triturar, socar e chacoalhar até obter uma densidade bebível. O mesmo vale para as sopas, que eram muito mais pedaçudas do que cremosas, e até para os sucos de frutas: o espremedor só seria inventado em 1916. Na época, só se tinha à mão pilões, raladores e peneiras. Nada de liquidificador para obter consistências diferentes.

Em 1885, Rufus M. Eastman patenteou o primeiro tipo de misturador liquique se tem notícia. Mas tudo começou a mudar realmente a partir de 1910, com a chegada do liquidificador doméstico, que foi o primeiro aparelho de cozinha motorizado. Aliás, este motor (movido a correia de transmissão) era uma enormidade, acoplado a um pequeno carrinho de ferro, uma espécie de  monstro híbrido, meio liquidificador, meio batedeira.

Esta inconveniência foi resolvida em 1922, quando Stephen Poplawski teve a brilhante ideia de instalar lâminas giratórias no fundo de recipiente, movidas por um motor elétrico e compacto onde o copo era encaixado. Assim nascia a configuração clássica dos liquidificadores e também a Stevens Electric, primeira fábrica da história a produzir o item. A empresa abastecia a Soda Fountain, rede especializada em bebidas gaseificadas e vitaminas, muito popular nos Estados Unidos até os anos 50.

Enquanto os ianques concentravam seus esforços em incrementar receitas de milk shake – hábito que ajudou a vender e difundir o utensílio –, os laboratórios ingleses utilizavam-no principalmente para combinar substâncias químicas. No entanto, havia na América um cientista em particular que usava o liquidificador enquanto trabalhava: Jonas Salk, criador da primeira vacina contra a poliomielite. Outro nome importante para a evolução da peça foi Fred Osius, sócio-proprietário da empresa de equipamentos de cozinha Hamilton Beach Co. Além de promover melhorias significativas no design de Poplawski – agora já com um motor embutido e bem menor –, passou a produzir o aparelho em escala industrial. Em 1933, Osius finalizou e lançou o Miracle Mixer.

É aqui que entra outra figura marcante: Fred Waring, famoso integrante da big band “Fred Waring and the Pennsylvanians”, mas também ex-estudante de arquitetura, engenharia e apaixonado por engenhocas. Ele entrou com inputs novos, dinheiro e marketing para auxiliar Osius. Ao final dos anos 30, Waring redesenhou o produto, adquiriu seus direitos, descartou Osius, renomeou a empresa e o liquidificador, agora o Waring Blender. O instrumento continuou avançando sob sua liderança, que trouxe motores mais potentes, modelos mais compactos, copo de plástico com alça, novos designs e até o mixer manual. A quilometragem de Waring como músico foi de grande ajuda para disseminar seus produtos entre bares, restaurantes, bartenders, chefs e lojas de departamento. Em 1954, o Waring Blender atingiu a marca de 1 milhão de unidades vendidas. E a Waring Co prossegue em atividade.

Hoje, a disputa pelo mercado de liquidificadores é bem mais feroz, assim como as estratégias de marketing implementadas. Maior exemplo disso é o programa viral “Will it Blend?”, do You Tube, patrocinado pela fabricante Blendtec. Nele, o próprio fundador da empresa aparece colocando os mais diversos gadgets dentro dos seus potentes eletromésticos. Vuvuzela, smartphones e tablets já foram as vítimas deste barulhento teste de resistência. Praticamente todas viraram pó. Mesmo as que passam no teste ficam irreconhecíveis, quando as lâminas param de girar.

Guerrilhas à parte, a mensagem principal permanece: a utilidade da invenção tornou a arte culinária mais prática e criativa, transformando ingredientes sólidos, originando receitas apetitosas, conferindo a velocidade que os tempos modernos exigem. São tortas, bolos, mousses, waffles, pães, drinques, pizzas, sorvetes, batidas, pudins, panquecas, uma variedade sem fim. Experimente pesquisar no Google, você vai ver.

Ao percorrer lojas e sites em busca de um novo aparelho, também nos deparamos com uma imensa lista de modelos, tipos e características. E além dos liquidificadores, há os mixers e processadores. Como escolher o certo? O essencial é optar pelas marcas tradicionais. E quanto ao material da jarra? Plástico é mais leve, mas deixa odores residuais. Vidro é mais caro, bonito e pesado, meio preocupante com crianças e idosos em casa. Inox pode ser a melhor opção, porque elimina todos os problemas anteriores, além de durar muito mais.

Quando criou o termo “liquidificador” no Brasil, em 1944; Waldemar Clemente, dono de uma empresa de produtos elétricos chamada Walita. Não poderia imaginar a dimensão que o negócio ganharia. Nem a revolução que ele traria ao cotidiano doméstico. Misturando tudo isso, temos um retrato fiel da atualidade; a cozinha, que durante muitos anos foi vista como uma prisão. De rotina pesada e monótona, virou um ambiente cercado de experiências tecnológicas fascinantes, que valoriza o bem receber e o prazer do preparo.

Nada agradável, porém, é a tarefa da limpeza. Nem todos os liquidificadores vêm com a função autolimpante. Se o seu não tem; evite limpar o fundo da jarra com esponja, não adianta. E se ele também não veio com pino de segurança, não aperte o “pulsar” por engano.

Texto: Fábio Rodrigues Angelini

Fotos: banco de imagens

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