“No mar tormentoso do Chile vive o rosado congro,

gigante enguia de nevada carne.neruda

E nas panelas chilenas, na costa,

nasceu o caldo grávido e suculento, proveitoso.

Enquanto se cozem com o vapor os régios camarões marinhos

e quando já chegaram a seu ponto, quando coalhou o sabor

em um caldo formado pelo suco do oceano e pela água clara

que desprendeu a luz da cebola,

então é que entra o congro e se mergulha na glória,

que na panela se azeite, se contraia e se impregne.

Já só é necessário deixar no manjar cair

o creme como uma rosa espessa,

e ao fogo lentamente entregar o tesouro

até que no caldo se esquentem as essências do Chile,

e à mesa cheguem recém-casados

os sabores do mar e da terra

para que nesse prato

conheças o céu.”

 

Neftalí Ricardo Reyes Basoalto recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford. Leu para mais de 100 mil espectadores no Estádio do Pacaembu. Foi cônsul na Birmânia e embaixador na França. Teve a sua casa saqueada e seus livros queimados após a deposição de Salvador Allende. Recebeu os prêmios Nobel de Literatura e Lênin da Paz, em 1971. Além de poeta e diplomata, Neftalí foi também um gourmet apaixonado. Ele era ninguém mais, ninguém menos, do que Pablo Neruda – pseudônimo que escolheu para homenagear o poeta tcheco Jan Neruda.

Engajamentos políticos à parte, a delicadeza e o sentimento emanam de sua obra poética, acentuadamente lírica, emotiva e humana. Homem cheio de paixões, o literato, um dos mais importantes da língua espanhola no século XX, também era um aficionado da carpintaria, do mar e da boa mesa. Tal fascínio pelo universo da comida veio bem depois da vida de pensão e estudante que teve, e da fome que passou em Santiago, vindo de Temuco, interior do país.

O tempo passou, tudo mudou e as viagens se sucederam. Neruda virou a página das privações, explorou e sorveu os prazeres gustativos, experimentou os melhores vinhos. Desprezou as dietas e gostava tanto de comer, que colecionou não só restaurantes em sua vida, mas versos que transformaram pratos em protagonistas, ingredientes triviais em escritos inspiradores, como as odes da cebola, da alcachofra e do tomate. Com maestria, rimou gastronomia e poesia. E o peixe era sempre o prato do seu dia. Em “Oda al Caldillo de Congrio”, Pablo Neruda acabou eternizando uma de suas preferências. A ode foi concebida num local bastante visitado por ele, o Restaurante Chez Camille de El Quisco, pequena cidade 60 km ao sul de Valparaíso.

O caldo de congro é uma iguaria tradicional da costa chilena, e usa o peixe como base, a exemplo da culinária nacional. O Genypterus Blacodes, ou congro rosa, assemelha-se a uma enguia e é bastante comum no litoral sul-americano banhado pelo Pacífico. Normalmente, o prato leva cebola, batata, tomate, pimentão, alho, azeite e vinho branco. Há versões que ainda incluem camarões ou salmão, e temperos como tomilho, coentro, louro e pimenta. No Chile, a receita e o preparo, que é relativamente simples, assumem as nuances próprias de cada localidade. Uma vez pronto, lembra bastante uma moqueca. Recomenda-se servir em travessas de cerâmica ou outras baixelas que preservem melhor a temperatura.

O congro rosa não é um peixe que você encontra em qualquer esquina do Brasil. Só importado. Por aqui, há um parente dele, um congro geralmente vendido com outra denominação: abadejo. Se por engano você levar a opção sem o “a” na frente, relaxe. Na verdade, o badejo é até mais sofisticado em sabor e textura e rende pratos mais elaborados, só que também custa mais. Por sua vez, o congro oferece um bom custo-benefício, e este caldo em particular tem certamente algo de nobre. Não fosse assim, a presidente Michelle Bachelet seguramente não o teria incluído no banquete que ofereceu ao Príncipe de Gales, na sua visita ao Chile em 2009.

Como diz Pablo Neruda em seu livro Comiendo en Hungria, “El desabor es como ele desamor”.

 

RECEITA: SOPA DE CONGRO (4 porções)

Chef Paula Larenas

Fotos: Ricardo D’Angelo

INGREDIENTES

CALDO DE CONGRO

  • 4 medalhões de abadejo (parecido com o kingklip ou congro)
  • 4 colheres (sopa) de azeite de oliva extravirgem chileno
  • 4 dentes de alho
  • ½ cebola
  • 2 tomates
  • 4 batatas coraila
  • 1 xícara de camarões
  • Coentro
  • 1 xícara de vinho Sauvignon Blanc
  • 2 xícaras de caldo ou fumet de peixe
  • 1 xícara de creme de leite
  • Sal e pimenta

 

PREPARO

  • Corte a cebola em tiras e os dentes de alho. Descasque os tomates e corte-os em 4 partes. Lave,
  • descasque, pique as batatas em 8 partes e coloque para ferver. Quando estiverem prontas, mergulhe
  • as batatas em água gelada e deixe repousar. Corte finamente o coentro.
  • Para preparar a sopa, aqueça o azeite de oliva em uma panela grande ou uma tigela de cerâmica.
  • Adicione a cebola e refogue até dourar. Acrescente o alho e os tomates, e mexa. Adicione o vinho
  • branco, o caldo e as porções de peixe. Quando terminar de cozinhar, coloque as batatas e os
  • camarões e cozinhe por mais 2 minutos. Tempere com sal e pimenta.
  • Para servir, coloque em um recipiente para sopa uma fatia de peixe, batatas e um pouco do caldo
  • com cebola, alho e tomates. Finalmente, adicione um pouco de creme de leite e coentro picado.

Texto: Fábio Rodrigues Angelini