Por Paula Couto 

Conhecida como a semente da sorte, a lentilha está na mesa da maioria dos brasileiros nas festas de final de ano. A tradição, trazida pelos italianos que emigraram para o Brasil, diz que a lentilha deve ser o primeiro alimento a ser consumido na ceia, logo após a meia-noite, para que não falte dinheiro no ano que está por vir. Alguns atribuem essa crença à semelhança da lentilha com as moedas. Outros vão buscar numa passagem bíblica o seu significado simbólico. Esaú, filho de Isaac e irmão de Jacó, abdicou dos todos os seus direitos de primogênito por um simples prato de lentilhas e, mesmo assim, tornou-se um homem rico.

A lentilha é uma pequena trepadeira da família das leguminosas. Existem vários tipos, que se distinguem pela cor: além das verdes – as mais consumidas no Brasil –, encontramos lentilhas amarelas, vermelhas ou castanhas, negras e laranjas. Fácil de digerir por sua alta quantidade de fibras, ela é consumida pelo homem desde o período neolítico.

De acordo com os especialistas, as lentilhas foram cultivadas, provavelmente, há cerca de dez mil anos na Ásia, seu lugar de origem. Há registros de sua utilização desde essa época, no norte da Síria. Seu cultivo parece estar associado ao início do cultivo do trigo e da cevada no Oriente. Com o desenvolvimento da agricultura, elas passaram a ser consumidas na Grécia e no sul da Bulgária, chegando à Creta cerca de seis mil anos antes da era cristã. As lentilhas também foram muito apreciadas pelos egípcios, e estão representadas nos baixos-relevos do túmulo de Ramsés II.  Documentos indicam, ainda, que elas foram cultivadas nos famosos jardins suspensos da Babilônia, no século 8 a.C..

Índia, Oriente Médio e África do Norte foram alguns dos países que utilizaram a lentilha como base da sua alimentação. No século 16, a leguminosa foi introduzida na América, mas somente com o fim da Primeira Guerra Mundial é que passou a ser cultivada nos Estados Unidos e no Canadá – este último, um de seus maiores produtores e exportadores mundiais (o maior produtor da leguminosa é a Índia). Atualmente a lentilha é cultivada em todo o mundo, especialmente em países como Turquia, Índia, Bangladesh, China, Egito, Israel e Síria. No Brasil, seu maior produtor é a região Sul, pois a cultura de lentilha prefere os solos férteis de regiões frias, ao mesmo tempo que suporta bem períodos de seca.

A lentilha é um alimento rico em benefícios para a saúde. Cerca de 25% de suas fibras são solúveis, o que ajuda a diminuir o colesterol no sangue. Ela também é muito rica em nutrientes: 60 % dela é composta por carboidratos complexos, que ajudam na diminuição do açúcar no sangue. Tem alta concentração de fibras, ácido fólico, vitamina B6, magnésio e ferro. Além disso, tem poucas calorias e nenhuma gordura. Ao lado dos grãos de soja, é também o vegetal mais proteico (cerca de 25%). Talvez por isso a lentilha tenha tido um papel tão importante na Ásia, e nos países católicos durante o período da quaresma. Isto levou, inclusive, à considerações de conexão entre seu nome (lentil, em inglês) e a observância católica (lent, na mesma língua). Entretanto, a origem do nome parece ser outra: lent deriva do latim lens, através do diminutivo lenticula, e do francês lentille.

O poder benéfico da lentilha. Hoje, comprovado por pesquisas, já era considerado por muitos povos na Antiguidade. Durante os séculos 14 e 15, por exemplo, as folhas da lentilha eram utilizadas em preparos para conter hemorragias. O escritor latino Columella, que viveu na Roma do século 1, deixou textos sobre o uso de uma pasta feita com farinha de lentilha para curar a tosse dos cavalos.

Além de rica em nutrientes, a lentilha é um alimento barato e versátil. No Brasil, é mais consumida como substituta do feijão. Geralmente acompanhada de paio, ou como sopa e salada. A salada da sorte do ano novo leva lentilhas, romã e, em algumas versões, uvas. No Egito, a lentilha é um dos ingredientes do kushari. Que combina arroz, lentilha, grão-de-bico e macarrão, cobertos por cebola picada bem frita e molho de tomate. Na culinária árabe, o majadra, um arroz feito com lentilhas, é um dos pratos mais famosos.

Na Índia, especialmente em Mumbai, a leguminosa é ingrediente do chaat. Uma mistura de lentilha, cebola, arroz, batatas e molho, que deve ser consumido apenas com as mãos. Os indianos consomem as lentilhas rosadas, assim como os paquistaneses. Já os franceses a apreciam como purê. É na França, também que a lentilha ganhou status de iguaria. Na comuna de Le Puy-en-Velay produz-se as famosas lentilhas de Puy, bem pequenas, verdes e relativamente caras. Os italianos a utilizam nos molhos, para massas e antepastos. A lentilha pode não trazer dinheiro. Mas, certamente, enche a vida de sabor e e saúde.

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!