Texto: Fábio Angelini

Dizem que Simón Bolívar seria capaz de iniciar uma revolução por um prato de dobradinha. E que Michael Jackson não passava sem o autêntico frango frito do Kentucky Fried Chicken. Einstein era vegetariano, e pelo visto, Hitler também. Abraham Lincoln, frugal da mesma forma: maçã e café quente. Conhecer as preferências gastronômicas de personalidades reais, pessoas que mudaram o curso da história, os mapas e as ciências, ou influenciaram gerações, é fascinante.

Existe uma outra esfera de personagens. Alguns deles, com hqpotencial para modificar comportamentos e causar sensações, outros que nos fazem pensar. A maioria nascida mesmo para alimentar a imaginação e o bom humor, com seus traços fantasiosos, as aventuras épicas e idiossincrasias da psicologia humana. Não são carne e osso, são papel e tinta, figuras que ganham vida pelas mãos de autores e ilustradores. Eles habitam as histórias em quadrinhos.

O padrão moderno e a linguagem dos gibis tiveram seu capítulo inicial quando o ex-desenhista técnico de Thomas Edison, Richard Outcault, bolou a série “The Yellow Kid” em 1895. Só que o garoto careca de camisolão amarelo não tinha nenhuma conexão especial com os domínios da culinária. A primeira associação de um personagem popular à sua comida favorita só aconteceria em 1929, com Popeye.

Até então, as HQs ainda eram vistas como má influência para as crianças. O marinheiro caolho chegou e ajudou a amenizar o preconceito: no auge da fama, o herói não só salvou o espinafre do esquecimento e enfraqueceu sua imagem de vilão junto aos pequenos, como elevou o consumo da verdura em mais de 30% nos Estados Unidos. As mamães deveriam é agradecer ao cartunista Elzie Segar, o pai do Popeye. Curiosamente, o principal amigo do Popeye nunca foi modelo de etiqueta ou saúde: Wimpy (no Brasil, Dudu), o maior devorador de hambúrgueres da história em quadrinhos.

Ainda que um hábito alimentar funcione como holofote e marque para sempre um personagem, as vendas de melancia não dispararam porque a Magali engole a dela em duas bocadas, nem chegou a faltar cenoura no mercado por causa do Pernalonga. Claro que os tempos e o politicamente correto eram outros, mas a nossa cabeça está lá, mastigando, assimilando, trabalhando sem parar.

Como não lembrar de Hagar, “o Horrível”, o viking de Dik Browne que preferia conquistar uma cozinha a qualquer reino? É um mundo maravilhoso, igualmente pródigo em tipos antropomórficos bons de garfo. A rica dieta à base de lasanha ajudou a celebrizar Garfield, o felino mais preguiçoso e cínico das tirinhas. Já para Leonardo, Donatello, Raphael e Michelangelo, as quatro “Teenage Mutant Ninja Turtles”, programão é se reunir em frente à TV para falar bobagens e comer pizzas, pizzas e mais pizzas.

Fora isso, outros projetos deram uma pitada diversa ao gênero. No mangá “Kami no Shizuku” (“As gotas de Deus”), lançado em 2004, dois herdeiros de um famoso enólogo têm o desafio de identificar 12 vinhos míticos. Yves Camdeborde, aclamado chef francês, virou desenho e protagonista em “Frères de Terroirs – Carnet de Croqueurs”, um verdadeiro roadbook culinário onde o super-herói cozinheiro percorre aventuras como a busca pela trufa de Gramenon. É também francesa a HQ “Get Jiro!”, roteirizada pelo apresentador de programas gastronômicos Anthony Bourdain. Nela, os chefs governam como gângsteres uma Los Angeles futurista.

Nacionalmente, temos um “Guia Culinário do Falido” publicado em formato de quadrinhos. Coletânea de 7 histórias em PB vividas pelos cinco autores da obra, que dão o passo a passo de receitas inusitadas como “brigadeiro monstro” e uma coxinha inspirada no filme “Mad Max: Estrada da Fúria”.

Muitos outros personagens gulosos foram criados. Não para convencer crianças ou impactar a moral e os bons costumes. Mas simplesmente para divertir. O corpulento e carismático Obelix, que nutre uma profunda compulsão por javalis, que o diga. Aliás, praticamente todos os álbuns de “Asterix” são recheados de alusões ao mundo da comilança, desde a poção mágica do druida Panoramix (a sopa secreta que dá força sobrenatural aos gauleses) até os animados banquetes da aldeia, que finalizam todos os títulos da coleção.

Enquanto o único temor desses gauleses invencíveis é que o céu caia sobre as suas cabeças. O de Obelix é que falte um gordo, colorido e suculento javali na sua mesa.

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