Aceita uma xícara de história?

Uma colher de chá de aula de chinês: o caractere que você vê neste artigo é pronunciado como “te” no populoso país do Oriente. É o chá, que tanto lá como cá, tem muito a contar. Sirva-se.

O chá é a segunda bebida mais consumida no mundo. Só perde para a água. As opções são tão variadas quanto os momentos, motivos (e até desculpas) pra se tomar um chazinho. Gripe? Vovó indica o de limão e mel, e um cobertor. Calorão na praia? Olha lá o carrinho do mate gelado… Tá nervoso? Camomila. Dor de barriga? Boldo nela! Tem chá pra tudo, e pra tudo tem chá.

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Origem romanceada

O surgimento remonta a mais ou menos 5.000 anos, mas ninguém se atreve a bater o carimbo sobre a verdadeira história. A bebida teria nascido por puro acaso, durante o império chinês de Sheng Nong, que tem até o sobrenome controverso. Uns grafam-no com “o”, outros com “u” ou com “e”. Neng, Nong ou Nung, fiquemos apenas com Sheng, ou, como os súditos o chamavam, Curandeiro Divino, já que também atacava de cientista.

Durante a gestão Sheng, a China foi castigada por epidemias que fizeram o nobre soberano decretar que toda água fosse fervida antes do consumo. E num momento de descanso, curtindo sombra e água fervida, sua majestade teria descoberto o chá. Algumas folhas caíram sobre o líquido, deixando-o com coloração castanha. Sheng experimentou a bebida e gostou. Era refrescante e quentinho ao mesmo tempo. Como rei é rei, a bebida virou moda e viralizou – pra usar um termo moderninho – por toda a China.

As folhas na água de Sheng eram da Camellia sinensis, a árvore do chá, mas o uso do termo só viria na Dinastia Tang – de 618 a 607, quando se tornou a bebida oficial do país. Parece ter sido na mesma época, que o monge budista Lu Yu, entusiasta e estudioso da bebida, escreveu a primeira publicação do assunto, Ch’a Ching, onde aborda as formas de cultivo e também os diversos preparos.

Da China ao Japão

No século IX, monges japoneses visitaram a China e levaram sementes de chá para a Terra do Sol Nascente, de olho em sua importância para a meditação – e também no sabor, que monge não é de ferro. O chá fez sucesso e saltou ao status de arte e bebida sagrada, ganhando até cerimônia: o Cha-no-yu, influenciado pelo taoísmo e zen-budismo. Do Japão e da China para o restante do mundo, a bebida ainda contou muitas histórias. Mas para não tirar o “honolável” leitor da atmosfera dos monges, convidamos você a aguardar os próximos Almanaques. Até lá, fique bem, fique zen.

O Cha-no-yu

No Cha-no-yu, o chá é feito e servido do jeito mais charmoso, elegante e sofisticado, para que todos se desliguem do dia a dia. A coisa é levada a sério mesmo: o preparo perfeito requer anos de conhecimento, que incluem as variedades de chá, as vestimentas tradicionais e a iniciação em artes como caligrafia, arranjos de flores, incensos, cerâmica e regras de etiqueta. São mais de cem os procedimentos formais para o ritual. E até pra participar como convidado, é preciso conhecer gestos e frases específicas, além da maneira correta de se comportar. Alguém se habilita?

Texto: Paulo Samá

 

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