Texto: Paula Couto

negra

No Brasil Império, Jean-Baptiste Debret (1768-1848) veio trabalhar no país e retratou como ninguém
o cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, onde viveu por 16 anos. Mas nem só os tipos humanos e a arquitetura fizeram sucesso na obra deste artista francês. As frutas brasileiras também encantaram o europeu. Uma de suas gravuras famosas é a da “negra vendendo caju”.

Toda enfeitada, com turbante, pulseiras e pinturas no rosto, a negra pintada por Debret, com uma cesta repleta de cajus, representa as atividades varejistas das mulheres no Rio de Janeiro do século XIX. Ela faz parte de um imenso grupo formado por homens livres e escravas forras, as chamadas escravas de ganho, que fomentavam um intenso mercado interno nos espaços urbanos da agora ex-colônia portuguesa.

Entre tantos produtos que vendiam, como pratos de acento bem africano, estavam as frutas nativas do Brasil, como o ananás (abacaxi) e o caju. Esta última agradou desde cedo os viajantes europeus e os estrangeiros que visitaram ou viveram no país. Já no século XVII, o padre Claude D’Abbeville, em missão no Maranhão, elogiaria o fruto, “de suco muito doce e bastante agradável”, e a castanha-do-caju, “tão saborosa quanto amêndoas”.

Johan Jacob Nieuhof, viajante holandês que permaneceu em Pernambuco por nove anos, durante a ocupação holandesa no país, também no século XVII, escreveu em sua obra Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil: “O mais excelente legume de todos são umas castanhas que chamam de caju, muito gostosas de comer e de muito nutrimento e que se comem assadas, em lugar de amêndoas”.

O caju (Anacardium occidentale) é originário do Baixo Amazonas e do Nordeste do Brasil. Em seu livro No Rastro de Afrodite, o botânico Gil Felippe comenta que os indígenas brasileiros contavam as estações do ano pela florada do cajueiro. A fruta foi levada do Brasil para a África no século XVI, e, desde então os habitantes de Moçambique pegaram gosto pelo vinho de caju.

cajuO que se come ao natural não é seu fruto, mas o pedúnculo intumescido, chamado de falso fruto, rico em vitamina C e ferro. O fruto verdadeiro do cajueiro é a castanha, rica em carboidratos e vitamina A. Quando verde, ela encerra uma substância cáustica e venenosa. Só quando a castanha alcança seu tamanho total é que o pedúnculo se desenvolve. O fruto é um tônico valioso, e diz-se que as flores são afrodisíacas.

Mas é na castanha-de-caju que está o maior valor econômico desta cultura agrícola. O Brasil está entre os cinco maiores produtores de caju do mundo, atrás do Vietnã e da Índia – neste último país, a fruta entrou pelas mãos dos portugueses, no século XVI. Vietnã, Nigéria, Filipinas e Costa do Marfim também são importantes produtores mundiais. O principal mercado para a castanha-de-caju são os Estados Unidos, seguidos da União Europeia.

Bahia e Piauí são os principais centros produtores da castanha industrializada no país. A maioria da produção in natura destina-se aos estados nordestinos, em particular o Ceará. Na época da colheita do fruto, as crianças do nordeste usam folhas de flandres como suporte para assar a castanha e saboreá-la pura, com mel ou com o doce feito do falso fruto.

Embora seja uma outra espécie, o cajuzinho-do-cerrado (Anacardium humile), também conhecido como cajuzinho-do-campo ou cajuí, pertence à mesma família do caju comum. Típico do bioma do cerrado, está ameaçado de extinção.

Além de consumido ao natural, o caju é versátil, entrando na composição de doces, sucos, mel, sorvetes, licores e compotas, ou mesmo acompanhando peixes. Símbolo da cidade de Teresina, a cajuína é uma bebida preparada a partir do suco do caju, e muito comum no Ceará, em Alagoas e em Pernambuco, embora esses estados tenham modos diferentes de fazê-la. No Ceará, por exemplo, a forma tradicional é refrigerante.

Na Indonésia, o caju é ingrediente do rujak. Uma salada de frutas apimentada. As castanhas-de-caju também compõem pratos típicos em vários países. Como na Índia, onde é ingrediente de curries e doces, como o delicado kaju barfi. Feito em forma de losango com leite, açúcar e especiarias.

Além de estar presente em várias cozinhas tropicais, o caju virou planta famosa por outros motivos. Originário de mutação genética, o cajueiro de Pirangi, em Parnamirim, município próximo a Natal (RN), tem o tamanho equivalente ao de 70 árvores. E produz cerca de 75 mil frutos por ano. Seus galhos crescem para os lados. E, com o peso, descem para o solo. Ao tocar nele, os galhos começam a criar raízes e crescem. Como se fossem uma nova árvore. O cajueiro, portanto, além de produzir um fruto gostoso, pode ser um dos belos espetáculos da natureza.

Conheça as vantagens de fazer parte da Sociedade da Mesa, clube de vinhos! Associe-se!