TORRAR, v.t.d. (do Lat. torrere). Ressequir, tornar excessivamente seco.

Queimar de leve, tostar.

Manteiga, geleia, requeijão, azeite, patê, leite condensado, caviar, vinagrete e mesmo pasta de amendoim parecem ter nascido para lambuzar torradas crocantes, sequinhas e levemente chamuscadas. Você pode achar que o contrário é mais verdadeiro. Mas o resultado da degustação é o mesmo: uma das onomatopeias mais gostosas da linguagem gastronômica.

Antes da torrada assumir seu posto nos cafés da manhã de lares, hotéis, lanchonetes e outros estabelecimentos, um bom espaço de tempo transcorreu entre o pão e a torradeira (uns 12 mil anos mais ou menos). Em algum momento da história, o homem percebeu que o pão queimadinho se conservava por muito mais tempo. E como, felizmente, era dotado de paladar, interessou-se por esta nova forma de consumo, diferente e prazerosa.

Sabe-se que no Antigo Egito já usavam e abusavam do processo, e que ele se espalhou rapidamente entre outras culturas. O pão torrado era bastante apreciado pelos romanos, que acabaram carregando o hábito com suas conquistas, até aportarem na Grã-Bretanha, e os colonos ingleses, mais tarde, o exportarem para a América. Assim, fica mais fácil entender a disputa entre Reino Unido e Estados Unidos: ambos reivindicam a invenção da torradeira elétrica.

Antes da chegada dela, as pessoas foram se virando com o que tinham à mão, em sua época. Os primeiros pães foram provavelmente torrados sobre pedras aquecidas no fogo. Mas a maneira mais usual foi utilizar forquilhas, armações de arame e espetos, girando-os sobre a fogueira ou lareira para obter uma tostagem uniforme.

torradeiraAo final do século XIX, a América tornou-se eletrificada. Thomas Edison, George Westinghouse e Nikola Tesla concentravam-se em correntes contínuas, correntes alternadas e estações de geração. Veio a exposição mundial de Chicago em 1893, onde uma cozinha moderníssima exibiu grill elétrico, cafeteira e rechaud. Mas nada de torradeira. No mesmo ano, o escocês Alan MacMasters inventou uma torradeira elétrica chamada Eclipse, e também um novo risco de incêndio: a fiação de ferro derretia. Este era o desafio científico, conceber um dispositivo que pudesse ser aquecido rapidamente e várias vezes sem queimar ou quebrar. O próprio Edison torrou os miolos até encontrar um fio à prova de altas temperaturas, ideal para instalar no vácuo do bulbo da lâmpada. Mas a torradeira precisava de um elemento que funcionasse em contato com o ar.

Então, em 1905, o engenheiro Albert Marsh patenteou uma liga de níquel e cromo, que viria a ser conhecida por Nicromo. Era o  componente que faltava, de alta resistividade ao calor, talhado para produzir fios de resistores elétricos. Se Marsh não foi o pai da torradeira elétrica, ao menos foi o padrinho. Com o elemento de aquecimento adequado, tudo ficou mais fácil. Após vários exemplares desenvolvidos, tanto por empresas quanto por inventores de garagem, Frank Shailor, técnico da General Electric, desenhou em 1909 a primeira torradeira elétrica bem sucedida comercialmente, apesar de tostar o pão apenas de um lado e de seu nome um tanto frio: D-12 Toaster.

Na sequência, as inovações mais quentes do produto aconteceram também na América: em 1913, veio o modelo que torrava o pão de ambos os lados; Charles Strite, cansado de torradas queimadas, cria em 1921 a Toastmaster, primeira torradeira com ejeção automática; na década de 1940, foi a vez das versões cromadas; e em 1950, outras mais automatizadas e econômicas em consumo de energia.

No meio do caminho, a introdução do pão de forma ajudou a impulsionar a torradeira como acessório do breakfast. O responsável foi Otto Frederick Rohwedder, que trabalhou em um fatiador automático de pão desde 1912, e finalmente concluiu a máquina em 1928. Ela cortava e embalava o pão, mantendo as fatias fresquinhas. O que os produtores de torradeiras não gostaram nem um pouco, foi da invasão das torradas industrializadas e a chegada das sanduicheiras. O brasileiro, aliás, parece ter uma ligeira preferência por esta última, que tosta o pão junto com algum recheio.

Assim como outros eletrodomésticos, as torradeiras evoluíram com os avanços tecnológicos e ganharam novos recursos: bandejas porta-migalhas, vários níveis de temperatura, aberturas para todos os tipos de pães, função descongelamento, ejeção eletrônica, versão digital. Sem mencionar aquelas que ainda não passam de protótipos, como a Internet Toaster, comandada à distância pela rede; a Selfie Toaster, que pode imprimir sobre a torrada rostos e imagens; a Jamy Toaster, equipada com termômetro e barômetro, que desenha sobre a superfície do pão a condição climática do dia, e uma outra torradeira inteligente, que substituiu o timer por um sensor de cor, permitindo que se escolha numa tela a tonalidade de marrom desejada na fatia.

Ideias engenhosas não faltam. Uma das mais recentes é o Foaster, aparelho em formato de torradeira que recarrega smartphones e até tablets. Só que neste caso, não lança os dispositivos pra cima quando eles estão no ponto.

Texto: Fábio Angelini