Texto: Fábio Angelini

Dizem as línguas afiadas que o nome original do olho de sogra era olho de cobra. Metáfora irônica e bem ao gosto do brasileiro, esse doce infalível em aniversários e casamentos. O beijinho encaixado na ameixa preta, que fica ali nos mirando fixamente a bordo da bandeja prateada, como a naja que enfeitiça sua presa antes de abocanhar.

metaforaExistem muitos casos assim no português e na culinária, de palavras empregadas para suprir a ausência de um termo mais adequado. Convertem-se em catacreses, as metáforas que até deixaram de ser metáforas, perderam o sentido figurado e são aceitas no uso comum da língua, de tanto que já foram usadas.

E o pé de moleque? Não perdeu somente o sentido figurado com o passar do tempo, perdeu os hífens. Ele surgiu por volta do século XVII, junto com os primeiros exemplares de cana-de-açúcar
desembarcados na Capitania de São Vicente. Claro que o doce de amendoim torrado e rapadura não era chamado assim. Uma das explicações é que o nome veio de desesperadas quituteiras do passado, cansadas de verem seus docinhos surrupiados pelos moleques da rua. Em súplica, elas diziam: “pede, moleque, pede, moleque”. As peripécias gastronômicas e figuras de linguagem são generosas, saborosas e originais na cultura nacional.

Em sã consciência, ninguém pensaria em provar um pedacinho de cueca virada. Mas pode esquecer os significados primários: trata-se de uma massinha retorcida frita, polvilhada com açúcar e canela (possivelmente de origem italiana), que veste principalmente as tigelas paranaenses, catarinenses e gaúchas.
Em Portugal (do Entre-Douro-e-Minho), uma das iguarias que cobrem a mesa da ceia de Natal é a roupa velha, ou farrapo velho. Feito com as sobras de bacalhau da véspera, mais batatas cozidas, couve e legumes a gosto, fora os temperos. Por aqui, ganhou mais adeptos nas regiões Sul e Centro- Oeste, que chegam a trocar o bacalhau por carne assada ou cozida desfiadas, além de mandioca, cebola e ovo.

A receita que não leva roupa nenhuma é o mané pelado. Não se trata de um evento canibalístico. É um bolo pra lá de inusitado pelos seus ingredientes contrastantes. Mas segundo dizem, delicioso: mandioca, queijo minas, coco ralado, açúcar, fermento, ovos, leite de coco e de vaca. Não tem nada a ver com outra sobremesa mineira e goiana chamada de manezinho araújo, um creme com suspiro e banana, também denominado chico balanceado nos pampas. Embora tenha existido um brasileiro Manezinho Araújo – que foi cantor, compositor, pintor e jornalista –, a origem da maioria destes termos perdeu-se no tempo ou não
passa de lenda.

Muitas comidas de boteco seguem a mesma linha. Como o paraibano sovaco de cobra, um refogado completo com carne de sol, cebola, milho, ovos de codorna, palmito, queijo coalho, manteiga de garrafa e variações. Já que cobra não tem braço, até onde sabemos, por que a receita foi assim batizada? A expressão pode designar um local inexistente, ou nos confins do mundo, ou ainda onde passa muita gente. Talvez a origem esteja no dito “mais sovado do que buraco de cobra”: o entra e sai do réptil deixa a sua toca sovada. E o “sovado” virou “sovaco”. Será? Coisas de interior, de Brasil, de uma metamorfose inevitável. Porque a língua é viva e o idioma está sempre em movimento.

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