Chá no Brasil. Uma investida portuguesa, com certeza.

Assim como a história do país, a saga do chá no Brasil é cheia de aventuras e muito “toma-lá-dá-cá”.

chpaPrepare um de camomila e viaje com a gente ao Brasil Colônia. D. João VI havia acabado de criar o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e resolveu fazer um dinheirinho extra, exportando chá. Afinal, lá em Portugal, Holanda e Inglaterra, o chá ia muito bem, obrigado. Em 1812, chegaram de Macau as primeiras mudas, e em 1814 os chineses, para ensinar o plantio e o preparo. Mas o destino, esse saquinho de chá de surpresas, quis que as coisas não fossem bem assim…
Nosso chá era bom, mas caro.

E os ingleses, receosos da concorrência, aproveitaram o gancho para “melar” o negócio de D. João, taxando o sabor de tão amargo quanto o preço, e o nosso solo de inadequado. Pra piorar, há quem diga que os chineses trabalhavam em regime escravo e, por isso, não faziam muita questão de guardar os segredos do plantio. O resultado: maus tratos, fugas e chineses virando vendedores ambulantes ou ajudantes de cozinha.

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São Paulo e o Viaduto do Chá
O chá chegou a São Paulo pelo marechal Rondon, que trouxe as sementes do Jardim Botânico do Rio e iniciou a cultura no centro velho da cidade. O cultivo logo se estendeu para o Ibirapuera, Bixiga, Morumbi e outras regiões. O Morumbi, inclusive, era uma grande fazenda, dada por D. João VI ao produtor inglês de chá John Rudge Maxwell.

Se você achou surreal dar o presente justo a um inglês, saiba que, se por um lado ele ganhou terras; por outro, dois brasileiros perderam. Rondon e o barão de Itapetininga tiveram suas propriedades desapropriadas para a construção do Viaduto do Café, no Vale do Anhangabaú. Estranhou o nome? Ele não durou muito. Logo virou Viaduto do Chá, pra acalmar os ânimos de Itapetininga e Rondon, como parte da indenização pela tomada dos terrenos. Ah, a política…

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Plantação de chá de Torazo Okamoto. Foto: museudaimigracao.org.br

O Chá de Okamoto
Registro, no Vale do Ribeira, a nossa chamada Capital do Chá, deve sua fama a Torazo Okamoto, imigrante japonês que lá chegou em 1919. Técnico de chá no Japão, ironicamente Okamoto começou a cultivar arroz, mandioca, café e cana. Por quê? Ele não sabia que os brasileiros também cultivavam a Camellia sinensis. E como não perguntou, ninguém contou.

Depois de dois anos sem sucesso, finalmente soube das mudas de chá de SP e iniciou o cultivo. Porém, Torazo era perfeccionista até a raiz do cabelo e não ficou contente com a qualidade. Assim, Okamoto voltou ao Japão, para comprar máquinas. Ao retornar, em uma parada no Sri Lanka, conseguiu 100 sementes do tipo Assâmica, verdadeiras preciosidades.

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De volta ao navio e temendo perdê-las para a fiscalização, o intrépido japonês guardou-as, junto com um pouco de terra, dentro do miolo de um pão. Foi a salvação da (futura) lavoura de chá no Brasil. Já na viagem as sementes germinaram e deram origem aos chazais do Vale do Ribeira. A produção segue até hoje nas mãos dos familiares de Okamoto, que exportam o chá para diversos países.

Nos próximos Almanaques, você confere o final da série chá, com curiosidades ainda mais saborosas. Aguarde.

Texto: Paulo Samá

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