Texto: Paulo Samá

Em maio do ano passado, a revista Exame noticiou que o Irã voltaria ao mercado internacional de commodities e, possivelmente, provocaria uma queda de preços. Ironicamente, o produto responsável por isso não seria o petróleo, mas sim… o pistache!?

Sim, o país do Oriente Médio é o sétimo produtor mundial de petróleo, mas em termos de cultivo de pistache, está “pau a pau” com os E.U.A., disputando o primeiro lugar. O problema era que, assim como a venda do ouro negro pelos iranianos, a de pistache também era impedida pelas sanções americanas ao país. Uma novela que tinha se iniciado em 1979 e agora, ao que parecia, aproximava-se do fim.

Em fevereiro de 2016, conforme manchete da Folha de São Paulo on-line, aparentemente chegamos ao último capítulo. Caem as sanções e o Irã entra pra valer na disputa pela exportação da oleaginosa, disposto a ganhar o mundo.

pistache2“Por que estamos contando isso”, você deve estar se perguntando. Afinal, a Revista da Sociedade da Mesa tem o único objetivo de entreter os associados com matérias saborosas, que celebram o que a vida tem de bom… E você está certo! Independente de ser o Irã, o Iraque, os E.U.A. ou o Timbuktu, o que a gente quer mesmo é descobrir, junto com você, o que o pistache tem de tão importante pra causar tanto… auê, digamos. Queremos saber por que ele tem tantos fãs. Além de ser saudável, saboroso como snack, usado em diversos pratos, tanto doces como salgados e, ainda por cima, ficar uma delícia em forma de sorvete e no chocolate, o que tem esse tal de pistache?

Lendas verdadeiras ou verdades lendárias?
Vamos começar dando uma bisbilhotada lá pelo ano 7000 a.C.. Achados arqueológicos recentes feitos na Turquia indicam que o pistache já era consumido naquele tempo. Também data de uns 500 anos antes, a lenda da rainha assíria Shiba. Sofisticada e apaixonada pelo fruto, sua majestade teria ordenado que as terras de seu reino fossem cobertas com pistache. E não satisfeita, proibiu o povo de comê-lo, pois, na cabeça dela, tratava-se de um alimento do qual apenas os nobres eram dignos.

Já que entramos nas lendas, vale contar que o rei Nabucodonozor da Babilônia cultivou a pistacia (árvore do pistache, também chamada de pistacheiro ou… pistache) nos jardins suspensos que seriam cantados séculos depois por Rita Lee. Tudo isso para animar a esposa, que ficava aborrecida com tanto espaço verde passando em branco, com o perdão do trocadilho. Caindo novamente nas graças da consorte, o romântico soberano sem querer inaugurou uma mania entre os namorados: deitar-se embaixo do pistacheiro e escutar o som dos frutos se abrindo. Convencionou-se dizer que isso traria bons fluídos para o colóquio amoroso. Já no Egito, o fruto não estava somente ligado à alimentação, mas também à beleza. Kyphi, o perfume predileto dos vaidosos faraós, era feito à base de pistache. E como não podia faltar uma referência grega, Plutarco acreditava com todas as forças que o fruto ajudava a relaxar e trazia bons sonhos.

Voltando à história, foi em torno do século I que o imperador Vitelius teria introduzido o cultivo do pistache em terras romanas. De lá para o Mediterrâneo foi um pulo e, com o tempo, o pistache foi ganhando terreno. Os primeiros exploradores asiáticos consideravam-no um alimento essencial, de alto valor nutritivo. As castanhas e o pistache eram companheiros inseparáveis nas expedições daqueles homens, principalmente ao longo da Rota da Seda, que ligava o Ocidente à China.

Daí por diante, o fruto foi se disseminando e, em algum momento entre 1850 e 1880, foi levado para a América por descendentes de orientais. Lá por 1930, a Califórnia fez suas primeiras plantações experimentais e, 30 anos depois, já tinha o pistache como uma de suas culturas principais. Hoje, o estado americano tem uma das mais expressivas produções do mundo. A safra californiana foi avaliada, em 2014, em cerca de US$ 1,3 bilhão, conforme a Exame. Mas o Irã vem aí, lembre-se!

Saudável e cultuado. 

Com tanta história e seu marcante sabor, não é de se estranhar que o pistache seja apreciado por milhões de pessoas. Afinal, a Pistacia vera, apesar do aspecto inofensivo de sementinha, é uma verdadeira gigante em benefícios.

Entre outras coisas, podemos dizer que o fruto é rico em vitaminas e ajuda a controlar o colesterol. Também é repleto de fibras que ajudam na digestão. Além disso, há estudos que vêm tentando comprovar sua ação positiva em relação ao diabetes, ao controle de peso e à diminuição de riscos de doenças cardiovasculares. A tese é de que, pela riqueza em gorduras insaturadas e antioxidantes, o pistache seja capaz de relaxar os vasos, refletindo em menos esforços para o coração. Há também os que alegam sua utilidade como afrodisíaco e estimulador da virilidade. Por último, um outro estudo, da Universidade de Illinois, concluiu que comer pistache sem casca reduz as calorias em 40%. Mas vale dizer que ele precisa estar associado a uma alimentação equilibrada. Não espere milagres porque faz uma boquinha com pistache durante a tarde, pra dar uma relaxada no trabalho.

Versátil e gostoso pra comer a toda hora. 

Parece slogan de propaganda, mas o pistache bem que merece. Se tem um alimento que se consome das mais diversas formas, é este. Nos E.U.A. é comercializado até em vending-machines. Por aqui, é sucesso nos supermercados, apesar do preço um tanto salgado – uma média de R$ 10,00 por 100 gramas; está em milhares de mesas de escritórios e via de regra faz as vezes de lanche.

O pistache é usado com muita criatividade nas cozinhas. Em pratos doces ou salgados, receitas com carnes e peixes, patês exóticos, risotos, saladas, pudins, quitutes como a grega baklava e até mesmo acompanhando frios como mortadel a ou queijos. Deu vontade? Bem, na hora de comprar, não esqueça. Prefira os pistaches com casca. Use seu olho clínico e veja se não há sinais de mofo, umidade ou danos causados por insetos. Assim, o risco de adquirir um pistache contaminado por aflatoxinas é menor. Afla o quê? As aflatoxinas. São produzidas por fungos, que contaminam os alimentos, sem modificar o sabor, e se consumidas constantemente podem gerar doenças. Ficando de olho nesses detalhes, você pode se divertir experimentando malabarismos gastronômicos. “Pistacheie” à vontade.

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