Texto: Ana Caldeira

Atualmente, a louça branca na qual servimos nossas refeições do dia a dia nem de longe nos remete à maravilhosa história da porcelana. Tipo específico de louça que enlouqueceu as cortes europeias a partir do século XVI.

porcelanaA palavra porcelana passou a ser usada na Europa a partir do século XV. Em analogia a uma concha chamada “porcellana”, branca e translúcida. Usada para revestir taças e cálices, os europeus assim denominaram as delicadas peças que chegavam da China e que se tornaram objetos de prestígio, poder e bom gosto para a realeza do Velho Mundo.
Parece que as primeiras porcelanas que chegaram ao continente vieram nas naus de Vasco da Gama, fruto de uma grande compra feita em Calicut, na Índia. Com o enorme interesse dos portugueses pelas peças, um segundo carregamento chegaria pouco depois à Lisboa, nas embarcações de Pedro Álvares Cabral. Mas foram os alemães os primeiros a conseguir descobrir o segredo da fabricação da porcelana na Europa, no século XVIII.

Segundo Ricardo Joppert, em seu livro Curso de História da Porcelana Chinesa, para os ocidentais, a brancura e a translucidez eram as características que definiam uma boa porcelana. “Lustrosa como as sedas coloridas com que os navios chegavam abarrotados, de um branco tão impecável quanto a espuma batendo nas proas das embarcações, esta substância mágica era tão fina, como uma casca de ovo, que ao erguê-la contra o sol podia-se ver a luz passar”, descreve Janet Gleeson na obra O Arcano – a Extraordinária História da Invenção da Porcelana Europeia. Para os chineses, entretanto, a característica mais importante era a ressonância, ou seja, que a peça emitisse som. “Na ressonância está realmente a fronteira que separa cerâmica de porcelana, na China”, ensina Joppert.

Pois as primeiras porcelanas que tanto deslumbraram os europeus eram as porcelanas azul e branca, das dinastias Yuan (1280-1368) e Ming (1368-1644), que tiveram seu apogeu no século XIII. Depois que os portugueses estabeleceram um caminho marítimo para a China e o Japão, no século XVI, o comércio de porcelana cresceu. No final do século XVII, após a Companhia das Índias Orientais holandesa juntar-se ao lucrativo comércio, porcelanas dos mais diversos padrões foram importadas para a Europa em grandes quantidades, e a Inglaterra aderiu à moda da porcelana, conhecida
popularmente no país como “china”.

Mas esta porcelana azul e branca representa apenas um tipo dentro da variedade encontrada na produção chinesa. Se as peças de porcelana, dentro do conceito chinês, podiam também ser opacas e de pasta escura, as de porcelana branca eram conseguidas através da combinação de duas matérias-primas aquecidas a temperaturas muito altas (outra diferença fundamental entre a porcelana e outras cerâmicas): o caulim (ou gaoling), uma argila branca refratária (que permanece branca após a queima a altas temperaturas porque é livre de ferro) e o petuncê (petuntse), material feldspático derivado de rochas de granito, considerado a argamassa da estrutura da porcelana. Em altas temperaturas, “o feldspato (petuntse) derrete e vitrifica, impregnando os poros da argila e criando estruturas cristalinas microscopicamente finas, que são exclusivas da porcelana”, ensina Gleeson.

Joppert afirma que a porcelana branca chinesa associou-se estreitamente à pintura. E tinha como motivos as múltiplas manifestações do mundo. Animais, flores, plantas e personagens. Mas haviam outros gêneros de porcelana, como as chamadas cerâmicas duras, por exemplo, recobertas por verniz verde-azul.

Durante muito tempo, os ocidentais, sem conhecer os segredos da porcelana, tentaram fabricá-la. Acrescentaram vidro moído a diversas variedades de argila. Na tentativa de conseguir a translucidez, além de areia, osso, conchas e até pó de talco. Na tentativa de se obter o branco puro. Até que o alquimista Johann Frederick Böttger, em Meissen, na Saxônia (Alemanha), descobriu como fazê-la em 1709. E fez nascer, ali, a primeira fábrica de porcelana da Europa.

Uma segunda fábrica seria instalada em Viena anos depois. Foi ali que se divulgou a moda de combinar a louça inteira de um serviço de jantar, na década de 1730. O primeiro serviço de jantar feito em porcelana europeia surgiu em 1731. A partir de 1740, outras fábricas pipocaram pela Europa, várias delas na França (Vincennes, Sèvres) na Itália (Capodimonte, Doccia) e na Bélgica.
Nestas, estabeleceram-se novos padrões de luxo, com louças de porcelana com pinturas delicadas de paisagens e aves, finalizadas em ouro.

A demanda por xícaras e pires de porcelana aumentou quando bebidas como o chá, o café e o chocolate quente tornaram-se sucesso na Europa. No século XVII. Pois cada bebida exigia seu próprio tipo de bule, xícara e acessórios. Às xícaras, inclusive, associava-se, no século XVI, ideias mágicas sobre a porcelana. Acreditava-se que, bebendo numa xícara de porcelana, as pessoas estariam protegidas de venenos como arsênico. O primeiro serviço completo para chá e café foi feito entre 1697 e 1701. Em Dresden, na Saxônia. Mas seu artífice, o ourives Dinglinger, não conseguiu oferecer ao seu rei Augusto, o Forte. Xícaras feitas de porcelana verdadeira para que ele tomasse seu chá. As presenteadas foram feitas em ouro puro esmaltado, imitando a porcelana oriental. Naquela época, no Extremo Oriente, o chá era feito numa chaleira e servido resfriado em pequenas xícaras de porcelana sem alças.

Mas as frágeis xícaras de chá, com pires delicados e pratos ricamente modelados de porcelana branca produzida na Europa seriam vistos, pela primeira vez, na Feira de Páscoa, em Leipzig. Na primavera de 1713. E, assim como as pinturas, a modelagem em porcelana alcançaria níveis sofisticados, expressos. Por exemplo, no imenso aparelho de jantar com mais de 12 mil peças chamado “aparelho do cisne”. Feito na fábrica de Meissen na década de 1720, para o conde de Brühl. Pratos com nervuras de conchas de vieiras, sopeiras coroadas com ninfas, golfinhos e sereias, pranchas para cobrir carnes que lembram praias recheadas de conchas e corais.

Com o passar do tempo, as porcelanas ganharam novos e variados padrões. Passaram a ser fabricadas em todas as partes do mundo. Mas o início de sua produção na Europa é uma história empolgante. E algumas dessas peças, embora nunca mais apareçam numa mesa de jantar, podem ser apreciadas em museus dedicados a ela. Na Inglaterra, na França e na Alemanha.

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