Texto: Fábio Angelini

pabloPincel e gargo inseparáveis

“Drink to me, drink to my health, you know I can’t drink anymore.” Este é o refrão de uma canção de Paul McCartney. E estas foram as últimas palavras de Pablo Picasso, quando despediu-se do mundo dos vivos para entrar no mundo dos imortais, em 1973.

O mestre artista do século XX, no entanto, estava longe de ser um beberrão. Diz-se que era mais chegado à água e ao leite. Quanto às suas comidas prediletas, bem, nem o próprio saberia por onde começar, pois desde cedo, a relação de Picasso com a culinária foi tão intensa e agitada quanto sua trajetória profissional e amorosa. Não que ele não tenha comido um pouquinho do pão que o diabo amassou. Aos 21 anos, ainda lutava por um lugar ao sol. Foi quando pintou a menina que inclinava a tigela para aproveitar cada gota da sopa. Título (irônico) da tela: Le Gourmet.

Para entender melhor o vasto repertório gastronômico e a faceta gourmet de Picasso, é só percorrer a rica geografia dos seus anos. Nascido em Málaga, cidade dos pescados fritos, vinhos moscatel, jerez, e dos salmorejos (sopa fria de legumes, o gazpacho local), o co-fundador do Cubismo acabou devorando cada lugar onde passou ou morou.
No início da carreira em Barcelona, saldou suas dívidas do Els Quatre Gats – principalmente contas penduradas de anis e absinto –, desenhando o cardápio do restaurante. Em Paris, encantou-se com os escritores André Breton, Guillaume Apollinaire e Gertrude Stein, e também com o ratatouille de legumes e as creperias. Na Provença, explorou os frutos do mar.

Em Royan (onde pintou Guernica, em 1937), foram as pimentas e os feijões. Provou ainda do pastrami de Nova Iorque, das cervejas rúbias e encorpadas de Munique, dos Yorkshire puddings londrinos.

O ecletismo à mesa talvez venha daí, mas o refinamento teve a mão da esposa (uma delas) Olga Kokhlova, que lapidou os hábitos do marido. Refeição costumeira do casal: terrine de presunto, pombos com ervilhas e charlotte de chocolate. Essa versatibilidade, esse esmero, são igualmente admirados em todo o trabalho do pintor, escultor e ceramista, nas cerca de 50 mil obras de arte legadas, em desenhos, gravuras, poesias e tapeçarias.

As receitas que mais o teriam inspirado foram reunidas por Ermine Herscher no livro “À la table de Picasso” (1996). Aparece em destaque o tradicional e refrescante gazpacho da Andaluzia, a sopa fria com pedacinhos de pão temperada com vinagre, alho, sal, cebola, tomate e azeite. Faz sentido: o artista, que aparentemente gostava de tudo, e que sempre guardou o paladar catalão, era habitualmente visto esfacelando o tomate e o alho contra a superfície do pão.

Hit de verão, o gazpacho é simples de origem. Como Picasso, que certa vez disse que um dos seus casamentos teve um fim previsível, pois a mulher gostava de chá e caviar, e ele, de toicinho e feijão. O gazpacho era consumido no século XVII pelos pobres da Andaluzia, que juntavam pão, água e o que mais arranjassem para driblar a fome. Hoje, o prato possui tantas variações na Espanha e no mundo, quanto o quadro As Mulheres de Argel tem de nuances de cor. O gazpacho branco leva massa de amêndoas.

O gazpacho rojo é acrescido de pimentão. Obrigatórios mesmo, o pão molhado e a temperatura, fria. Picasso, que aos 14 anos já criava como um pintor maduro; Picasso, que teve amantes durante a vida toda (mesmo quando casado ou morando com alguém), adotou na velhice o ar do campo e a comida feita em casa. Vegetais, peixe, arroz, uvas. Não é difícil imaginá-lo à mesa, pincelando a sopa colorida com a colher, retocando aqui e ali com o pão, cortado e modelado em cubos inimitáveis.

Gazpacho com frutos de rio e mar, de Roger Vergé

INGREDIENTES (PARA 4 PESSOAS):
• 160g de filé de pintado ou surubim
(no original, Vergé usa salmão fresco)
• 160g de filé de robalo ou badejo
• Azeite de oliva
• Suco de limão coado
• Sal
• Folhas frescas de cerefólio ou coentro
• 12 tomates sem pele e sem semente
• Pimenta-do-reino em grãos, para
moer no momento de servir

MODO DE FAZER:
Corte os filés de pintado ou de robalo em tiras de 0,5cm de largura por uns 5 de comprimento. Banhe com o azeite, o suco de limão e o sal. Podem-se usar outros frutos de rio e mar, como os pitus, os camarões e os lagostins – o importante é que sejam dois e de colorações diferentes, para a beleza do prato. Deixe que marinem na mistura por uns 15 minutos. Paralelamente, bata os tomates num liquidificador até obter um caldo fresco e espumoso, bem homogêneo, aquilo que se conhece por “coulis”.

Condimente-o apenas com sal. Algumas gotas de azeite e de limão. A fim de acentuar o sabor dos tomates frescos. No centro de cada prato, faça um arranjo arredondado com tiras de pintado e robalo. Em volta, despeje a sua porção respectiva do “coulis” de tomates. Enfeite com os verdes do coentro ou cerefólio. Finalmente, polvilhe com a pimenta-do-reino.

Experimente nossas seleções e viva a melhor e mais abrangente experiência enológica. Associe-se!