adj (gr exotikós)
1 Diz-se do animal ou da planta que não é natural do país onde vive. 2 Procedente de país estranho.
3 De mau gosto. 4 Desajeitado. 5 Esquisito, extravagante.

drink exotico

Já parou para pensar como o significado do dicionário é diferente do que a maioria das pessoas pensa sobre o conceito de exótico? O mais próximo que se vê por aí é “extravagante”. De resto, tem os que ligam o exótico ao chique ou ao brega com a mesma intensidade (ou ironia); os que vão para o lado do fora do comum; aqueles que entendem como “esquisito” e os que simplesmente acham que exótico é “diferente”.

No fundo, ninguém está errado. Semanticamente as palavras agregam significados com o passar dos anos, e vão além de seu significado literal.

Quando falamos de drinques, no entanto, tudo depende do ponto de vista.
Já falamos disso em um Almanaque lá em outubro de 2014, quando abordamos pratos exóticos do mundo todo, e agora dizemos o mesmo em relação às bebidas. Não é porque não estamos acostumados a tomar, digamos, vinho de cobra, que os habitantes de algumas regiões da Ásia são malucos ou algo assim.
Esta bebida, que talvez nenhum de nós tomasse nem sob tortura, é originária do Vietnã, e o pessoal de lá atribui a ela propriedades de uma espécie de remédio contra queda de cabelo, fadiga e até impotência. A cobra – venenosa – é colocada dentro da garrafa, para o veneno ser dissolvido na bebida. Este, por sua vez, perde o efeito em contato com o álcool.

Assim como o vinho de cobra, encontra-se na China e na Coréia o vinho de arroz fermentado com ratinhos recém-nascidos durante dois anos, e também um licor que leva nada menos que três – sim, três – lagartos na garrafa. Acredita-se, por lá, que um lagarto tem muita energia. Imagine três.
Estranho? Talvez. Mas o que será que um chinês ou vietnamita acharia de um brasileiro pedindo a um barman a conhecida “farmácia”, que junta simplesmente tudo o que há de alcóolico no bar, em apenas um drinque? Coragem ou insanidade?

O pessoal da Indonésia gosta de tomar água quente. E que se atreva a colocar a primeira pedra de gelo no copo quem discorda. Falando em discordar, experimente oferecer abacate batido com leite e açúcar a um espanhol. É provável que a reação não seja das melhores. É que, para ele, abacate se come. Com cebola, azeite, sal etc.

sociedade-da-mesa

O que se come é o que se bebe
Aliás, a questão “é de comer ou de beber”, ao que parece, também está com os dias contados. A fronteira entre uma coisa e outra já não é tão bem delimitada. Que o digam os simpatizantes de drinques que foram invadidos por ingredientes que, até pouco tempo, a gente só encontrava em pratos. A vodka com bacon é uma das preferidas para drinques mais fortes e gordurosos. Quem já experimentou, diz que o sabor fica levemente defumado.

E o que dizer da caipirinha de limão e mel que vem com um simpático alho assado com casca e tudo flutuando na bebida? O mixologista Marco De La Roche ensina que ela pode ser tomada de duas formas: com o alho inteiro só pra dar um gostinho ou, para os mais ousados, esmagando-o para intensificar sabores e aromas. De qualquer jeito, fica a dica: se for beijar, é bom que seu partner in crime também aprecie a bebida.

“O exótico está no imaginário”
Como essa, há muitas misturas inusitadas, mais leves ou nem tanto. Começando por um mais ingênuo, porém com um toque interessante, temos o Bellini: criado com base nas técnicas da gastronomia molecular, o curioso drink é feito de espumante com pérolas de suco de pêssego e cálcio. Um detalhe interessante: as tais pérolas “explodem” na boca.

E que tal um licor de cenoura com espumante? Ou o Martini de pimentão e limão do bartender Renan Tarantino, do Estônia? O limite para a criatividade, nesse sentido, não existe. O drinque americano batizado de Dirty Nap leva vermut seco infundido com cogumelos Porcini, que também decoram o copo, e o Koreatown, criado em um hotel de Los Angeles, leva nada menos que um ouriço do mar e algas mergulhados em tequila. Também há drinques com couve, como a Marguerita Verde; com grãos de tremoço e um toque de vinagre adicionado ao Martini; com manjericão, ervilha e até foie gras, como no Martini servido no Ox, em Portland, que leva raspas congeladas da iguaria.

E para fechar a sessão “prato no copo” com chave de ouro, já existem cervejas de pizza e até de donut de chocolate.
Como vimos, o exótico está no imaginário. Os exemplos são infindáveis e vão dos mais simples aos mais esdrúxulos, dependendo, é claro, de quem você é, de qual é a sua cultura e de onde você está. Pense no quanto nossa corriqueira caipirinha é amada pelos turistas de todo o mundo. Da mesma forma, há quem aprecie o Apple Horse Sperm, servido num pub neozelandês – a singela bebida é uma mistura de sêmen de cavalo com suco de maçã. Só para os fortes. Cheers!

Texto: Paulo Samá

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